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Crítica: Zumbis paulistas em Terra Morta - Fuga

Livro de terror nacional mostra epidemia zumbi no estado de São Paulo. Fórmula é seguida sem muitas inovações, mas a execução é repleta de adrenalina.


Leitura no Brasil é um assunto complicado. Literatura então… Nem se fala. E ser escritor? Missão difícil. A combinação de hábitos de leitura desenvolvidos fracamente com a pouca visibilidade para autores nacionais, além dos valores caros, dificulta consideravelmente ter uma carreira literária neste país. Há muitos escritores que, para sequer ouvir seus nomes, é preciso sair das listas de best-sellers e pesquisar sobre o que anda sendo feito nas bolhas nacionais. E foi assim que conheci Terra Morta - Fuga, livro de terror do paulista Tiago Toy.


Todo esse tempo passei correndo dentro da cidade e eles estavam por toda parte. Teria mais chances de escapar através do canavial? Muito arriscado (p. 56).
Com a temática de zumbis, o livro vai pouco além do que se esperaria do gênero. Na história, Tiago (protagonista com o mesmo nome utilizado pelo autor) é um rapaz que leva uma vida comum em sua cidade, Jaboticabal, no interior de São Paulo. Até que, misteriosamente, uma doença contagiosa surge repentinamente e faz com que as pessoas ataquem umas as outras furiosamente. Cabe a ele tentar sobreviver em meio aos zumbis.

Como deve ter dado pra perceber, Terra Morta não reinventa a roda. Colocado lado a lado com outros livros do gênero, ele poderia muito bem passar despercebido. Mas também, em nenhum momento ele se propõe a algo diferente disso. Desde a primeira página você sabe que vai ler uma típica história de zumbis e há honestidade em relação a isso.
Alguns amigos moravam aqui, mas nada é como antes. As casas foram fortemente barradas com arame farpado e placas de metal fundidas contra os portões. Muros altos e boa parte do chão não pavimentado dão a impressão de estarmos num campo de guerra. Com um aceno desconfiado, Daniela aponta para o alto de uma casa. Um vulto passa ligeiro. Sobre outra casa vejo o que parece ser um capuz. A curiosidade de saber quem é se esvai quando ouço o primeiro tiro (p. 85).
Se Terra Morta parte de uma premissa tão genérica, em quê ele se destaca? Na execução! Ao concentrar os esforços em simplesmente contar uma boa história, o autor foca em escrever personagens interessantes em capítulos intensos. Em sua jornada, Tiago conhece várias pessoas. Algumas ameaçadoras, outras misteriosas e ainda há aquelas que se transformam com o decorrer da trama. É um elenco que instiga e faz com que a leitura permaneça sempre interessante, fazendo o leitor imaginar com quem mais ele vai trombar ou quais ações serão tomadas.

A narrativa em que os personagens estão inseridos é rápida e intensa. São poucos os momentos de descanso, a sensação de suspense e perigo são constantes na história. Sejam zumbis ou humanos, as ameaças vêm de todos os lados. Não se surpreenda se páginas e páginas voarem enquanto você corre tanto quanto Tiago e seu parkour. O único porém é que senti que em alguns momentos a narração corre demais, deixando certos detalhes vagos o suficiente para dificultar a imaginação do que está sendo descrito. Felizmente, esse problema não é recorrente e pode ter sido causado até pelo próprio autor se empolgando com a adrenalina dos capítulos.
"Daniela está com a mão na boca, reprimindo um grito. Grito que eu dei no momento em que a zumbi apareceu. Estranhamente, ela me ignora. Devagar, me abaixo e recolho as cobertas. Ela sequer nota minha presença, próximo demais. Daniela, por sua vez, foi descoberta. Uma lamúria escapa da boca murcha e suja da velha. A cada cravada das unhas remanescentes, ouvimos um gemido. Chego por trás e miro o fuzil. Click! (p. 133)
Outro ponto que me incomodou um pouco foi como a história levanta várias perguntas que só devem ser respondidas no volume seguinte. Sei que essa é uma boa estratégia para manter o interesse na série, mas o final acaba tendo um gosto insatisfatório pela confusão de acontecimentos e mistérios não resolvidos. Esses mistérios, inclusive, poderiam ser o diferencial que faltou na identidade do universo da série.

Em síntese, Terra Morta - Fuga é um leitura despretensiosa que cumpre tudo o que propõe. O autor poderia, sim, ter sido um pouco mais ambicioso e criado uma identidade mais forte ou feito alguma discussão mais profunda envolvendo o enredo. Havia brechas para isso. Mas, a não ser que você esteja saturado de histórias de zumbis ou prefira algo menos pop, a leitura é mais que indicada.

Ficha técnica
Título: Terra Morta - Fuga
Autor: Tiago Toy
Ano: 2011
Páginas: 248
Editora: Draco
Pedro Melo escreve para o GeekBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.
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