Cinema

Crítica: Giovanni no Shima (2014) e as cicatrizes da guerra

Filme conta o que aconteceu com japoneses moradores de uma ilha que foi cedida à União Soviética após a Segunda Guerra. Medos, incertezas e curiosidades são mostrados por olhos infantis.

A quantidade de filmes, seriados, livros e demais produtos feitos baseados na Segunda Guerra Mundial é enorme, quase incontável. No entanto, a maioria foca nos Estados Unidos e na Europa. São poucos que retratam todo o impacto desse conflito no território asiático. Giovanni no Shima (A Ilha de Giovanni, em tradução livre) conta um episódio muito desconhecido por ocidentais.


Os habitantes da pequena ilha de Shikotan mantém uma vida simples e tranquila, pescando e vivendo um dia de cada vez. No entanto, tudo muda com o fim da Segunda Guerra Mundial. Devido à derrota, o Japão cede à União Soviética o território da ilha. Assim, sua população vê sua vida mudar totalmente com a chegada dos soldados estrangeiros.

A chegada dos soviéticos altera drasticamente a rotina dos moradores de Shikotan
A sinopse sugere uma trama pesada sobre os horrores da guerra. Porém, há um detalhe que faz toda a diferença na maneira que a história é contada: a perspectiva infantil. Os jovens irmãos Kanta e Junpei são os protagonistas, dando ao filme aquele tom assustado, curioso e inocente visto apenas pelos olhos das crianças. Isso não significa que a história é infantil. Há alguns acontecimentos chocantes, principalmente para esse público. Mas a narrativa consegue manter um ritmo leve graças a seus personagens.

Falando em personagens, algo que também se destaca é como o anime tenta não colocá-los em uma posição maniqueísta. Há momentos onde os soviéticos se impõem através da força, sendo um grupo ameaçador e opressivo. Já em outros, eles demonstram uma estranha gentileza e acolhimento. O filme se esforça em desenhá-los como um grupo heterogêneo, o que torna a história mais próxima de como as pessoas costumam se comportar na realidade.

Não se engane pela premissa sombria: as personagens dão um toque leve ao enredo
Outro aspecto que se destaca é a arte. Giovanni no Shima possui um estilo visual um pouco diferente do usual. Os personagens são desenhados com poucos detalhes e em um traçado um tanto grosseiro, caricato. Se o resultado pode ser considerado feio para quem está acostumado com as animações dos Studio Ghibli (A Viagem de Chihiro) e Kyoto Animation (Clannad), com uma mente aberta, é possível apreciar um estilo expressivo e fluido. Os cenários parecem ser pintados a lápis de cor, o que dá um ar infantil e fantasioso a uma história realista. O contraste entre arte e tom do enredo representa a própria inocente perspectiva adotada pelos personagens.

Giovanni no Shima é um filme importante por contar um episódio não muito discutido sobre as consequências da Segunda Guerra. O diretor Mizuho Nishikubo (Video Girl Ai) soube abordar o tema com sensibilidade e criatividade artística ao aplicar uma estética que foge dos padrões. É um filme que conta uma história emocionante, mas sem cair em angústias extremas, e ainda defende uma mensagem de união entre os povos.

Filme conta uma história importante e desconhecida

Ficha Técnica


Título: Giovanni no Shima
Diretor: Mizuho Nishikubo
Ano: 2014
Estúdio: Production I.G (Psycho-Pass, Guilty Crown, Haikyuu!!)
Duração: 1h42
Gênero: Drama, Histórico
Classificação etária: 12 anos
Obra original
Pedro Melo escreve para o GeekBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.
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