Crítica: Star Wars: O Despertar da Força — uma (não tão) nova aventura

Familiar e acessível, O Despertar da Força começa a nova saga de Star Wars com o pé direito - ainda que dê alguns tropeços.

Muito se falou da “tarefa difícil” que J. J. Abrams teria em fazer uma sequência de Star Wars. Afinal, estamos falando de uma franquia adorada por muitos e com um gigantesco legado. Mas eu acredito que o maior problema que Abrams enfrentou foi... a Disney.


A Disney não é uma entidade beneficente. Ela certamente comprou a marca Star Wars com o objetivo de lucrar com ela e torná-la uma franquia ainda maior — e o episódio VII seria o pivô de tudo isso. Além de fazer jus a todo o legado da saga e agradar os fãs de longa data, Abrams também precisava criar algo acessível e que conquistasse novos fãs. Talvez isso explique a inusitada situação em que o episódio VII se encontra: é uma sequência que funciona como reboot e tem cara de remake.

Para padawans e jedis

Nesse aspecto, o diretor foi muito bem-sucedido, conseguindo conciliar os desejos do estúdio e dos fãs. O filme é lotado de fanservice e referências aos episódios passados, mas consegue manter-se acessível para todos os públicos. Ele assume que você tenha conhecimento prévio de Star Wars, sem necessariamente presumir que o espectador tenha assistido aos outros filmes da série. Afinal, há muito tempo que Star Wars virou parte da cultura pop. Não é presumir demais que todo mundo sabe o que é um sabre de luz ou reconhece a máscara de Darth Vader, mesmo aqueles que nunca assistiram às outras trilogia da franquia.
"Chewie... We're home."
Assim, o episódio VII se torna o “portão de entrada” definitivo para Star Wars, com o suficiente para criar interesse no fantástico universo sem exigir um gigantesco ônus de conhecimento para aproveitá-lo. Se você tem um amigo que apenas “ouviu falar” da saga, essa é sua chance de convertê-lo para seu lado favorito da força. Talvez ele goste do filme até mais do que você...


... Aliás, provavelmente é isso o que acontecerá. Apesar de todo o fanservice e retorno de figuras clássicas, O Despertar da Força tem muito mais a oferecer para as novas audiências do que aos veteranos. Ele repete muitos dos erros e acertos da antiga trilogia ao ponto de não ser exagero dizer que é o novo episódio IV — para o bem e para o mal.

Desperto, mas sonhando com o passado

Claro, estamos falando de uma obra muito mais moderna e substancialmente mais fácil de assistir que as anteriores. Apesar de todos os seus méritos, a “trilogia clássica” envelheceu mal e a “nova trilogia” é cheia de problemas. Essa “nova clássica trilogia” iniciada pelo episódio VII (podemos chamá-la assim?) é uma experiência bem mais suave e divertida.
Desafio: assistir ao filme e não querer um BB8.

Muito disso se deve aos novos personagens, que são extremamente carismáticos. Por mais que seja maravilhoso ver faces familiares retornando às telonas, os heróis do passado assumem justamente este papel: são as grandes lendas cheias de experiência que estão lá para guiar a nova geração. Os holofotes ficam nos já queridos pela internet Rey, Finn, Poe e BB8, que carregam com orgulho a tocha de seus antecessores.

Além das novidades, coisas antigas que a série já fazia bem são preservadas. A direção de arte e fotografia são fenomenais, usando todos os princípios de design tão bem difundidos pela trilogia original (profundidade, contraste, espaço negativo, perspectiva, simetria, estímulos direcionais e repetição). As batalhas de nave são de tirar o fôlego, principalmente em 3D, valendo a diferença do ingresso. A trilha sonora... estamos falando de John Williams, né, gente?
Anúncio de serviço público: a trilha sonora já está no Spotify.

Porém, muitos dos problemas que assolaram os outros episódios da série retornam também, ainda que amenizados. O mais pervasivo é a falta de profundidade dos vilões. Há tentativa de se tornar Kylo Ren um antagonista mais profundo e cheio de conflitos, mas isso é mal trabalhado e ele acaba sendo nada mais do que um fanboy de Darth Vader. Espero que ele seja mais bem desenvolvido no próximo filme.


Também entrando na lista de “espero que seja melhor no próximo filme” estão as lutas de sabre de luz. Elas são meramente competentes. Justificadamente sem grandes acrobacias, mas indesculpavelmente sem empolgação e com resoluções frias, quase recorrendo ao malfadado deus ex machina em certos momentos. Seria muito bom se contratassem Genndy Tartakovsk, do maravilhoso Star Wars: Clone Wars, para dirigir as coreografias das lutas de sabre de luz no futuro (se ainda não assistiram à animação: o que vocês estão fazendo com suas vidas?).


Que a força esteja com os próximos filmes

No final, muitas coisas acabam entrando na lista de “espero que no próximo filme”. Assim como o Episódio IV, O Despertar da Força é uma nova Jornada do Herói, um novo Chamado da Aventura —mas, aqui, nossos heróis dão apenas seus primeiros passos além do Limiar do Perigo, deixando a resolução de vários problemas para outras histórias.

Se a Disney queria tornar Star Wars numa franquia ainda maior e mais lucrativa, ela conseguiu.
Lucas Pinheiro Silva é analista de sistemas web por profissão, gamer por vocação. Tem grande interesse em game e level design, o que o levou a escrever para o GeekBlast. Em seu Facebook e Twitter também fala de outras coisas, como HQs, música e literatura.
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