Cinema

Crítica: O Morro dos Ventos Uivantes - a fanfic hot do livro de Emilly Brontë que não precisávamos

O Morro dos Ventos Uivantes filme com Margot Robbie e Jacob Elordi, que estreia dia 12 de fevereiro, longa esquece do romance para focar apenas no hot


Como sou uma pessoa cronicamente online, acompanhei toda a repercussão da campanha de divulgação do filme O Morro dos Ventos Uivantes, que estreia dia 12 de fevereiro nos cinemas, tanto nas redes sociais e outras mídias, como a matéria da revista Vogue - Austrália, por isso minhas expectativas em relação ao longa eram baixas. Ocorre que, além de superar minhas expectativas, o filme dobrou a aposta, sendo uma experiência pior do que eu imaginava.

Sinopse

Uma reimaginação ousada e original de uma das maiores histórias de amor de todos os tempos, escrita por Emily Brontë, "O Morro dos Ventos Uivantes", de Emerald Fennell, é estrelado por Margot Robbie, como Cathy, e Jacob Elordi, como Heathcliff - cuja paixão proibida a princípio romântica, torna-se inebriante, em um conto épico de luxúria, amor e loucura.

A partir deste ponto, o texto pode conter alguns spoilers.


Assistir ao filme O Morro dos Ventos Uivantes me transportou ao período em que explorava o Wattpad para ler. Quem é iniciado na plataforma sabe que ela é destinada a escritores e abriga muitas fanfics, narrativas criadas por fãs que imaginam seus personagens favoritos (ou figuras como artistas e celebridades) vivendo outras aventuras. Uma fanfic muito conhecida e rentável é a série de livros 50 Tons de Cinza, a versão hot da saga Crepúsculo, que pode ter servido de inspiração, segundo vozes da minha cabeça, para a criação do longa em questão.

Mas, precisávamos mesmo dessa fanfic?

Essa foi a sensação que tive ao assistir O Morro dos Ventos Uivantes, uma versão hot do romance escrito por Emily Brontë. Entretanto, essa versão tem um problema grave: esqueceram o romance e focaram apenas no hot. A narrativa do filme foi claramente construída para o público masculino, outro fator que distancia o filme do livro. Por que isso é tão problemático? Porque não conseguimos nos conectar com os personagens nem entender suas motivações.


Os personagens do filme O Morro dos Ventos Uivantes têm caráter execrável, o que é apresentado logo no início com a cena de enforcamento, é como se a narrativa já te preparasse para detestar essas pessoas. No decorrer da trama, o filme só vai escalando essa percepção ao mostrar o pai de Cathy, Mr. Earnshaw (Martin Clunes) um alcoólatra violento e viciado em jogos tocando o terror em casa; Heathcliff, por sua vez, é tratado como propriedade por todos, inclusive por Cathy.

O fato de Heathcliff, Jacob Elordi, comprar a propriedade dos Earnshaw e não fazer melhorias aca se perdendo, pois o filme não aprofunda esse ponto da história.

A narrativa também apresenta uma relação abusiva entre Heathcliff e Isabella Linton, Alison Oliver, que causa desconforto em muitos momentos. Mulheres não querem ver outras mulheres sendo tratadas como “uma coisa” na tela. Aliás, seres humanos jamais deveriam ter sido ou ser tratados como “coisa” nunca. Já as preferências sexuais das pessoas são outra história. O filme peca ao apresentar a história como um romance épico, quando isso não corresponde ao que vemos na tela.


O Morro dos Ventos Uivantes é sobre o que, mesmo?

Considerando que a reflexão original do livro foi ignorada com sucesso desde a escolha do ator Jacob Elordi para viver Heathcliff nesta nova versão, o que me fez sentir vergonha alheia daquele brinco de argola que ele usou, faltou uma tema central que amarrasse a história, pois só o tanquinho de Jacob não é o suficiente.

A escolha de ignorar a reflexão de Brontë esvaziou a narrativa, transformando o filme numa história que você encontraria em bancas de jornal, como a série Sabrina, o que leva ao questionamento: se o filme não tem mulheres como público-alvo, qual a real intenção de investir nesse livro específico? Porque, se a intenção era mostrar Margot Robbie e Jacob Elordi em cenas hot, há formas mais eficientes de fazer isso para atrair o público certo.

A sensação que ficou é que o filme O Morro dos Ventos Uivantes é um enorme catfish para mulheres desavisadas.


Cenários

Antes de finalizar esse texto, quero comentar sobre o quarto de Catherine Earnshaw, Margot Robbie, na mansão da família Linton. Que brisa foi essa? Quem teve a brilhante ideia de decorar o quarto com a textura da pele da Cathy? Dá arrepios só de pensar em ter que dormir num cômodo com a textura da própria pele estampada nas paredes. Se era para ser sensual, ficou só bizarro mesmo.

Seja dito de passagem, toda a mansão Linton parece um cenário de filme de terror. Começando pela enorme casa de bonecas de Isabella Linton, Alison Oliver, que fica no meio da sala, até uma sala de estar com chão vermelho sangue, onde uma chaminé decorada com mãos que se estendem até o teto chama a atenção. Fiquei esperando o Jigsaw aparecer a qualquer momento.

Na verdade, em termos de semiótica, todos os cenários da mansão Linton foram elaborados para causar inquietação, mas, para tentar explicar isso, eu precisaria iniciar uma monografia e não estamos aqui para isso.

Enfim, O Morro dos Ventos Uivantes, que estreia dia 12 de fevereiro nos cinemas, é péssimo por causa da campanha de marketing enganosa, pois, se o filme fosse vendido pelo que é: “uma narrativa hot para o público masculino livremente inspirada no livro de Emily Brontë”, a discussão poderia ser outra. Por isso, não merece nem uma estrela por tentar me fazer de otária.

Ficha Técnica

Título: O Morro dos Ventos Uivantes
Título original: Wuthering Heights
País: Reino Unido, EUA
Data de estreia: 12 de fevereiro de 2026
Gênero: Romance, Drama
Duração: 136 minutos
Classificação: 16 anos
Distribuidora: Warner Bros
Direção: Emerald Fennel
Elenco: Margot Robbie, Jacob Elordi, Hong Chau, Alison Oliver, Shazad Latif, Martin Clunes, Ewan Mitchell e Owen Cooper.

Kika Ernane, Karina no RG, e sou multitasking (agora que aprendi o significado do termo segura). Uma mulher como muitas da minha geração, que ainda não descobriram como aproveitar a liberdade que lutaram tanto para conseguir. Muito menos administrar todas as tecnologias disponíveis. Enfim, estou sempre aprendendo.


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