Quadrinhos

Sonic the Hedgehog (Archie Comic): Conhecendo o universo das HQs do azulão

O ouriço mais rápido dos videogames também tem um longo histórico no mercado dos quadrinhos!


Nessa última semana, a Sega e a Sonic Team liberaram mais informações e a gameplay do novo jogo de seu famoso mascote. Com o título de Sonic Forces, ao que parece, a nova aventura estará mais centrada em uma história séria, com clima apocalíptico onde Dr. Eggman dominou o mundo e Sonic juntamente com sua versão clássica formarão uma brigada com seus amigos para confrontar o terrível cientista (razão da frase "Junte-se a Resistência”).


Acontece que essa premissa já é bem conhecida em uma série de quadrinhos que também traz Sonic como estrela principal: Com o tirano doutor já dominando uma grande parte do planeta, o ouriço e seus amigos formando uma aliança para combatê-lo, além de diversas revira-voltas no enredo (como a mudança de lado de alguns personagens e introdução de inimigos mais fortes que confrontam tanto os heróis como os vilões), um desenvolvimento maior de certos coadjuvantes e até a exploração, e criação, de universos paralelos e viagem no tempo (o que só veríamos anos mais tardes nos jogos da série). Confira agora o deslumbrante universo, ou melhor multiverso, de Sonic the Hedgehog (Archie Comic).

Explorando novas mídias

No início dos Anos 90, com o estrondoso sucesso do primeiro jogo do Sonic, a Sega passou a querer que seu mascote não ficasse restrito apenas aos videogames, e com isso começou a realizar um forte investimento no merchandising de seu garoto propaganda (tais como brinquedos, roupas, material escolar entre outros). A fim de expandir ainda mais a popularidade de Sonic, em 1992 a empresa entrou em contrato com a DIC Entertainment para a produção de uma animação do personagem. Não apenas um, mas dois desenhos animados foram produzidos nesse período, cada um executado por uma equipe diferente (embora voltados para a mesma empresa). Enquanto uma das animações era mais focado em elementos engraçados ao estilo dos Looney Tunes (Adventure of Sonic the Hedgehog), o outro possuía uma história mais densa e bem trabalhada, com um enredo mais sério e alguns elementos sombrios (Sonic SatAM).

Os quadrinhos iniciaram tendo forte influencia na animação Sonic SatAM
Nesse mesmo tempo, a Sega entrou em contato com a Archie Comic para negociar a produção de uma série em quadrinhos estrelado por Sonic. O encarregado pela produção do roteiro foi Mike Gallagher (já conhecido na época por alguns de seus trabalhos na Marvel), o qual teve um prazo de sete dias para desenvolve-lo tendo como único recurso recorrente um livro feito pela DIC baseado na animação Sonic SatAM, intitulado Sonic Bible (A Bíblia do Sonic). A ideia era criar uma edição inicial que culminasse em uma mini-série apenas para testar como seria a aceitação do público. Assim em dezembro daquele ano saiu à primeira leva de quadrinhos do Sonic, com a numeração #000, tendo inclusive suas primeiras seis páginas exibidas na Revista Sega Visions. Com o sucesso de vendas, a Archie passou a oficializar a franquia Sonic também como uma série de quadrinhos, e no dia 6 de abril de 1993 foi lançado Sonic the Hedgehog #001 da edição definitiva da série.

“Nós somos os Freedom Fighters!”

Como já foi dito, a história de Sonic nos quadrinhos tem um desenrolar bem diferente dos jogos (em especial os clássicos da época): O enredo se passa no planeta Móbius que é em sua grande parte dominada pelo tirano cientista Dr. Ivo Julius Robotnik, impondo medo sobre todos os seres com seu exército de swatbots e robotizando a população a fim de escravizá-la. No entanto um grupo de jovens lutadores composto por Sonic the Hedgehog e seus amigos pretende libertar o mundo deste império nefasto: eles são conhecidos como os Lutadores da Liberdade (Freedom Fighters) e vivem enfrentando os exércitos de máquinas do terrível doutor, além de habitarem secretamente na floresta de Knothole para não serem descobertos.

Sonic e os Lutadores da Liberdade
Apesar de a série levar o nome de Sonic, o famoso ouriço azul não é retratado como o líder do grupo, e sim como o melhor guerreiro entre todos. O comando da equipe fica a cargo de Sally Acorn, uma esquila que possui o título de princesa, isso porque ela é a herdeira legítima do Reino de Mobotropole (o qual Robotnik tomou como sua principal capital após se livrar do rei) além de ser o principal interesse amoroso de Sonic durante toda a história. Pode-se dizer que os dois compartilham o protagonismo na série, pois enquanto Sonic é o “cara da ação” lutando de igual pra igual contra as máquinas de Robotnik e se mostra por vezes impaciente, Sally é o cérebro do grupo, buscando estratégias mais fáceis de combater o inimigo e sempre se mantendo centrada em suas tarefas.

Além destes, a equipe também conta com a genialidade de Rotor the Walrus (uma morsa inventora), a força de Bunnie Rabbot (a doce coelhinha caipira boa de briga), a ingenuidade de Antoine D’Coolette (um atrapalhado coiote francês), a simplicidade de Miles “Tails” Prower (que aqui é representado como uma crianças que aos poucos vai conseguinte o seu devido espaço e papel importante na trama) entre vários outros personagens, tanto retirados dos jogos quanto criados pela própria equipe de produção.

Tudo que é bom pode ficar melhor

Nas primeiras edições, as histórias eram curtas e sem muita interatividade com seus enredos posteriores, com teor mais cômico (semelhante às histórias da Turma da Mônica) e uma ambientação bem menos sombria que a do desenho Sonic SatAM. Isso começou a mudar a partir da segunda temporada da série (edição #017), com histórias divididas em duas ou mais partes por edição, que não só despertavam a curiosidade dos leitores como também iniciou uma formulação mais profunda do universo ali apresentado, além de uma simplória melhoria nos desenhos. O conteúdo passou a ficar bem mais trabalhado e maduro a partir da terceira temporada (edição #033b) onde são apresentadas histórias sobre acontecimentos passados de Móbius, vividos pelos pais e ancestrais dos protagonistas e até o que levou o planeta a ser quase que completamente dominada por Robotnik.

A terceira temporada da série marca o rumo que as HQs tomariam dali pra frente
Além disso, Ken Penders, um dos principais roteiristas da HQ, tinha ideias mais complexas para a progressão das histórias (como novos vilões e uma trama mais densa após a “Batalha Final contra Robotnik”). Devido à reprovação da Sega, a ideia não foi levada para a série principal com Sonic e sua equipe, mas acabou sendo reaproveitada em uma série spin-off protagonizado por Knuckles the Echidna, que fez um grande sucesso e durou por 32 edições. Nesta série paralela, Knuckles e os Chaotix acabam por descobrir resquícios de seus antepassados, os antigos guardiões da Esmeralda Mestre, além de uma guerra civil que sitiou em um bizarro evento na Ilha Flutuante e a criação do que acabou por se tornando um dos vilões mais queridos da série: o poderoso Enerjak.

Nessa mesma pegada de histórias paralelas, começaram a ser produzidas mais tarde as revistas Sonic X (devido ao grande sucesso do anime em 2004) e Sonic Universe (que entrou para substituir o espaço ocupado antes pela série do Knuckles). Enquanto Sonic X se passava em outro universo, Sonic Universe conta sagas paralelas sendo protagonizada por alguns dos personagens coadjuvantes, vilões e outros, deixando o enfoque maior da revista principal para o próprio Sonic. Por fim, a história trabalha o conceito de multiverso, tais como os quadrinhos da Marvel e DC, e por vezes podemos ver Sonic interagindo com outras versões suas, como o seu eu dos jogos, da animação Sonic Underground e até enfrentando sua versão maligna de um mundo oposto à Móbius: o Scourge the Hedgehog (ou “Evil Sonic”) que também é um dos personagens mais queridos da série.

Crise nas infinitas divergências

Após o fechamento da terceira temporada, a equipe começou a seguir em frente com a quarta temporada apresentando um desfecho mais político e introduzindo conceitos que a DIC pretendia utilizar para uma terceira temporada da animação Sonic SatAM (que nunca veio a acontecer), o que serviu para a inserção de novos personagens, como o feiticeiro Ixis Nagus (que assumiu o papel de vilão principal por algum tempo), a Mina Mongoose (que entrou a partir da sétima temporada com o intuito de ser um novo par romântico para Sonic, e culminou em um triangulo amoroso entre Sally e eles) e Hope Kintobor (sobrinha do vilão Dr. Ivo Robotnik que acabou sendo uma aliada dos heróis).

Mina, Scourge e Hope são alguns exemplos de personagens exclusivos que conquistaram os fãs
No entanto, devido a alguns desentendimentos entre Ken Penders e Karl Bollers (outro grande nome na criação de roteiros para a série), as histórias começaram a ficar bem divididas, pois enquanto um queria enredos mais sérios e sombrios, o outro preferia que as HQs fossem mais leves e mais voltadas para os jogos. Para evitar mais problemas, Bollers pediu demissão do estúdio deixando Penders como principal roteirista da série. Assim o conteúdo da revista passou a ter um enredo ainda mais denso incluindo mudanças de lado de certos personagens e até na morte de alguns dos principais. Foi graças a exigências da Sega que os personagens relacionados aos jogos e a série animada que haviam sido eliminados em sagas anteriores retornaram a vida.

Anos mais tarde, após um desentendimento com o editor da Archie Comic, Richard Goldwater, Penders foi demitido e em seu lugar entro o talentoso Ian Flynn (que já tinha trabalhado fazendo quadrinhos indies do azulão), e juntamente com ele Tracy Yardley foi escalado como desenhista oficial; este último em especial desenvolveu o traço definitivo para as HQs, ficando surpreendentemente melhores que os desenhos anteriores. Com isso, as histórias passaram a ter uma gradativa melhoria tanto em seus enredos quanto visualmente, mas ainda havia muitas surpresas para o futuro da série.

A direção de Flynn e os traços de Yardley deram uma identidade única pra série

Crossovers e os “Novos 52”

Outro ponto que deixou a série de quadrinhos muito popular foram justamente os crossovers que eram feitos entre a turma de Sonic com outros personagens da qual a Archie Comic possuía licença para a produção de HQs. Na maioria das vezes essas junções eram realizadas em revistas à parte, como Sonic Super Specials e 48-Pages Special que complementavam as vendas dos quadrinhos tradicionais e quase sempre eram desligados da trama principal. Entre algumas dessas interações tivemos Sonic contracenando com a bruxinha Sabrina e Spawn, mas sem dúvida a sua união mais memorável e célebre se deu com a turma de Megaman (que também chegou a ter uma série de quadrinhos) na saga Mundos Colidem, que culminou em doze edições escalando as revistas Sonic the Hedgehog, Sonic Universe e Megaman.

Antes mesmo de Super Smash Bros., eles já haviam dado as caras dos quadrinhos
Quando tudo parecia estar trilhando de forma perfeita, a equipe de edição se viu obrigado a realizar um reboot para série; isso porque em 2008 Ken Penders entrou em uma ação na Justiça Norte-Americana contra as desenvolvedoras BioWare Corp e Sega após a criação do jogo Sonic Chronicles: The Dark Brotherhood, alegando plágio a história e personagens do jogo por serem muito semelhantes as suas criações nos quadrinhos. A Archie ainda chegou a abrir uma ação judicial contra Penders alegando que as histórias e personagens criados por ele pertenciam à editora, devido ao contrato que ele havia feito com estes na época. Mesmo com todos os esforços, o júri foi favorável a Penders e a partir dali a Archie teria de passar uma porcentagem dos lucros para ele toda vez que utilizasse um de seus personagens nas histórias. Por esse motivo Ian Flynn propôs a ideia de um reboot para a série, o que foi bem aceito por toda a equipe e realizado ao fim do crossover Mundos Colidem.

O universo pós-reboot aproximou a série muito mais para o desfecho dos jogos
Assim, a partir da edição #252, as histórias passaram a se aproximar mais dos jogos, além de diversos personagens dos jogos terem suas personalidades mais aproxima das que são apresentadas nos mesmos. Claro que isso levou a exclusão de alguns personagens muito queridos da série como Mina, Enerjak, Fiona Fox e Scourge, mas trouxe novas criações além da migração de alguns personagens esquecidos da era clássica dos games do azulão para o universo dos quadrinhos. Foi também nessa nova repaginada que ocorreu outro memorável crossover: a saga Mundos Unidos, que não só contava com a turma de Sonic e Megaman, mas também com a participação de outras franquias famosas da Sega e Capcom como Street Fighter, Alex Kidd, Okami e Skies of Arcadia.

Um legado que merece ser sustentado

Apesar de ser uma série que está até hoje no mercado (inclusive entrou para o Guinness Book como “Série em quadrinhos de maior duração no mercado baseado em um personagem de videogame”), alguns atrasos recentes e rumores tem mostrado a possibilidade de cancelamento da mesma. No site oficial da Archie Comic as assinaturas das revistas estão desativadas, embora a própria tenha esclarecido que se trata de algo temporário, e as novas edições (Sonic the Hedgehog #294 e Sonic Universe #097) sofreram um leve adiamento de alguns meses em sua publicação. Se tratando de uma empresa que nunca teve problemas quanto à divulgação de suas revistas, certas pessoas apontam que isso venha a ser “um sinal” que a série pode estar com o seus dias contados.

No entanto é inegável a importância que essa série tem adquirido no mercado dos quadrinhos, ao ponto de ter agradado tanto aos fãs que suas publicações tem se mantido até os dias de hoje. Sonic the Hedgehog da Archie Comic conseguiu expandir o universo (ou deveria dizer “universos”) do azulão a partir de outras mídias que não fossem os jogos, considerados o “berço de Sonic”. Esperamos que esta seja uma história que não termine nas edições #290, mas que se ultrapassem a numeração dos #300 e cheguem até de #500 a mais, pois Sonic já deixou fortemente a sua marca enquadrada nesse meio.
Avante Vingad... quero dizer, Lutadores da Liberdade!
Áquila Braga escreve para o GeekBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.
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