Cinema

Crítica – Star Wars: Os Últimos Jedi – um olhar humano para uma galáxia muito distante

Com seu olhar próprio, Rian Johnson entrega ótimo e surpreendente capítulo para o universo de Star Wars

Assistir Star Wars no cinema é sempre uma experiência única. Entrar na sessão sem saber o que vai acontecer é o grande prazer que os fãs da saga têm hoje, em um mundo em que trailers e featurettes entregam cada ponto da trama. Na noite de ontem, meu medo de que as prévias de Star Wars: Os Últimos Jedi estragassem o filme foi calado: o Episódio VIII é cheio de surpresas e cada uma delas quebra um paradigma diferente no universo criado por George Lucas.


Antes de mais nada, é bom acalmar alguns corações: diferentemente de O Despertar da Força, dirigido por JJ Abrams e lançado em 2015, Os Últimos Jedi não tenta copiar O Império Contra-Ataca. Rian Johnson criou, com seu roteiro e direção, um filme único para Star Wars que, apesar de referências mil, se desprende completamente da proposta que imaginávamos para o longa, entregando um capítulo divertido, emocionante e, principalmente, filosófico para a saga.

Seguindo exatamente de onde Abrams parou, Johnson nos apresenta um episódio focado na ambição, que guia as ações de Rey (Daisy Ridley), Kylo Ren (Adam Driver) e Poe Dameron (Oscar Isaac). Enquanto o piloto segue seu próprio caminho dentro da Resistência, os dois jovens têm seus destinos ainda mais entrelaçados por uma união incomum, que tenta um para o lado do outro. Essas aflições levam a decisões apressadas e os conflitos, internos e externos, de cada um são expostos para o espectador em um microscópio.

Oscar Isaac tem mais tempo de tela para desenvolver seu Poe Dameron

Dizer qualquer coisa sobre a trama é roubar o espectador de surpresas. Nada é óbvio em Os Últimos Jedi. Muito pelo contrário: cada cena dos trailers leva a momentos inesperados e Johnson brinca com as peças de Star Wars com o objetivo claro de quebrar paradigmas. Essa é a ambição pessoal do diretor, que leva a saga a novos caminhos, que dividirão opiniões entre os fãs mais assíduos da saga. Quase todas as decisões de Johnson para o enredo são acertadas, mas, assim como Rey discute com Luke (Mark Hamill) em um momento de fúria, o cineasta deixa escapar um momento que nos faz coçar a cabeça, colocando um personagem querido em uma situação sem pé nem cabeça, apenas para mostrar sua conexão com a força.

Por outro lado, o diretor sabe o que funciona na saga e faz tudo com maestria: as batalhas com naves, seja no espaço ou em solo, estão belíssimas, tão boas quanto foram com Abrams ou na trilogia original, assim como as lutas com sabres de luz, que estão coreografadas para ser, ao mesmo tempo, belas e viscerais, alternando técnica e fúria a cada golpe de seus personagens.

Diretor de "Os Últimos Jedi", Rian Johnson soube explorar os pontos fortes da saga Star Wars

As atuações também estão melhores que em O Despertar da Força. Com mais serviço para mostrar, Oscar Isaac entrega um Poe Dameron melhor e mais crível que no filme anterior. Já John Boyega dá a Finn toda a emoção necessária a um personagem disposto a tudo para ajudar os amigos e, assim como no Episódio VII, é o mais humano dos personagens, agindo e falando mais por instinto do que por raciocínio.

De todos os nomes de Os Últimos Jedi, Kylo Ren é o que melhor evoluiu entre os dois capítulos da nova trilogia. O conflito entre luz e sombra dentro do filho de Han Solo (Harrison Ford) expõe cada falha de Snoke (Andy Serkis) e Luke em seu treinamento. A atuação quase maníaca de Driver faz com que Ren deixe de lado o jovem explosivo de O Despertar da Força para se tornar uma força da natureza.

Kylo Ren deixa de ser o jovem explosivo e se torna uma força bruta em "Os Últimos Jedi"

Mark Hamill também retorna de maneira memorável ao papel de Luke Skywalker. O ator entrega a melhor atuação de sua carreira, nos mostrando um Jedi sábio, mas impulsivo, que parece sempre estar no limite entre a luz e a sombra. Sua dinâmica com Rey é ótima, com o mestre combatendo a esperança da jovem com suas histórias de desespero.

Em duas horas e meia de projeção, apenas dois aspectos do filme chegam a incomodar: o primeiro é parte da pandemia cinematográfica criada por Joss Whedon em Vingadores e espalhada em todos os filmes de ação e aventura desde então, com piadas voando pela tela em momentos inoportunos. O humor é inteligente, como todos os diálogos do filme, mas poderia ser entregue em uma dose menor; a outra fica por conta da computação gráfica em um único momento do filme. Em uma cena que deveria ser emoção pura, os efeitos nos deixam na mão e chamam mais atenção do que os grandes personagens que estão em tela.

Dinâmica entre Rey e Luke é uma das melhores coisas do filme

É importante deixar claro que Os Últimos Jedi não é apenas um novo episódio de Star Wars. É um estudo de caso sobre ação e consequência, escolhas, ambições e, principalmente, humanidade. O ótimo trabalho de Rian Johnson tem como base as emoções de seus personagens, entregues majestosamente por atuações fortes e deliciosas, como poucas vezes se viu na saga. O cineasta não entrega uma obra-prima, mas deixa para a saga um capítulo de tirar o fôlego, que deve ser visto e revisto por todos enquanto ainda estiver em cartaz.

Com poucas e corriqueiras falhas, Star Wars: Os Últimos Jedi é um ótimo filme. Cada cena do filme traz um plot-twist inesperado, um turbilhão de emoções incontroláveis e momentos memoráveis para o legado da saga. É melhor que Império? Não. Mas, vale lembrar que, em 1980, o Episódio V causou revolta na crítica e no público justamente por quebrar paradigmas no cinema. Os Últimos Jedi, com decisões audaciosas e coração exposto, dividirá o público quanto aos novos caminhos que criou para saga, mas não nos deixemos levar pelo choque: o Episódio VIII é um dos melhores filmes da série até agora.

Ficha técnica


Nome: Star Wars – Os Últimos Jedi
Nome Original: Star Wars – The Last Jedi
Origem: EUA
Ano de produção: 2016-2017
Lançamento: 14/12/2017
Gênero: Ação, Ficção Científica
Classificação: 14 anos
Direção: Rian Johnson
Elenco: Daisy Ridley, John Boyega, Oscar Isaac, Mark Hamill, Adam Driver, Carrie Fisher, Domhall Gleeson, Kelly Marie Tran, Andy Serkis

Nicolaos Garófalo escreve para o GeekBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.
Este texto não representa a opinião do GeekBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Escrevemos sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0 - você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

Comentários

Google+
Facebook