O acordo que destravou a fusão de US$ 111 bilhões entre Paramount e Warner Bros. foi recebido com comemoração por David Ellison — mas, dentro das duas empresas, a reação é bem mais complicada. Funcionários agora se preparam para uma possível onda de cortes enquanto as duas gigantes começam a descobrir quem realmente cabe debaixo do mesmo teto.
A notícia de que Paramount Skydance e Warner Bros. Discovery chegaram a um acordo com os procuradores-gerais de 12 estados encerrou o principal obstáculo jurídico à maior fusão da história de Hollywood.
Mas, para muitos funcionários das duas companhias, a comemoração durou pouco.
Segundo fontes ouvidas pela Variety, o sentimento predominante dentro de Paramount e Warner Bros. após o acordo foi de choque e surpresa, acompanhado pela expectativa de que a integração das empresas resulte em uma nova rodada de demissões em larga escala.
E existe uma razão bastante simples para essa preocupação: duas empresas gigantes fazendo praticamente as mesmas coisas não precisam, necessariamente, de duas equipes gigantes fazendo cada uma delas.
A fusão pode fechar em aproximadamente duas semanas
David Ellison, CEO da Paramount Skydance, comunicou aos funcionários que a companhia pretende concluir a aquisição da Warner Bros. Discovery em aproximadamente duas semanas.
Mas o próprio executivo fez uma ressalva importante: o fechamento da transação será apenas o começo.
Segundo Ellison, integrar duas empresas desse tamanho levará tempo e a administração ainda não tem todas as respostas sobre como ficará a estrutura final.
É justamente essa frase que está deixando muita gente dentro das empresas com a pulga atrás da orelha.
Porque uma coisa é saber que a fusão vai acontecer.
Outra é descobrir se o seu departamento ainda existirá depois dela.
Por que a fusão ameaça empregos?
A Paramount e a Warner Bros. Discovery possuem operações enormes em áreas que inevitavelmente se sobrepõem.
Streaming.
Marketing.
Publicidade.
Tecnologia.
Engenharia.
Distribuição.
Finanças.
Recursos humanos.
Produção televisiva.
Vendas.
E por aí vai.
Depois da fusão, não faria muito sentido manter duas estruturas corporativas completamente independentes para realizar exatamente o mesmo trabalho.
Essa sobreposição é justamente uma das razões pelas quais funcionários das duas empresas já estão se preparando para cortes.
Uma reportagem do Business Insider, por exemplo, aponta que equipes de tecnologia, streaming, marketing e vendas de publicidade estão entre as áreas em que existe maior sobreposição.
Ou seja: o problema não é necessariamente falta de trabalho.
É que podem existir duas pessoas, duas equipes ou dois departamentos fazendo o mesmo trabalho para uma única companhia.
Os US$ 6 bilhões que pairam sobre tudo isso
Existe ainda um número que torna o cenário especialmente relevante: US$ 6 bilhões.
Esse é o valor de sinergias e economias de custos que a Paramount projetou para uma eventual combinação com a Warner Bros. Discovery.
Na prática, “sinergia” é o termo corporativo elegante para dizer:
vamos descobrir onde estamos gastando dinheiro duas vezes.
E quando duas empresas gigantes são combinadas, parte significativa dessas economias pode vir justamente da eliminação de estruturas duplicadas.
A preocupação com demissões, portanto, não surgiu do nada. Funcionários já haviam observado as políticas de redução de custos adotadas pela Paramount Skydance desde a conclusão da aquisição da antiga Paramount Global.
Agora, a empresa está prestes a incorporar uma companhia ainda maior.
A curiosa situação do funcionário que só queria fazer séries
A situação dentro da Warner Bros. é particularmente curiosa.
A empresa passou por várias mudanças de controle nos últimos anos e agora está prestes a mudar de dono novamente.
Um executivo da Warner Bros. ouvido anteriormente pela Variety resumiu o sentimento de maneira bastante direta: há funcionários que simplesmente querem saber o que acontecerá com seus empregos e suas equipes.
É uma situação difícil de administrar.
Você precisa planejar os próximos projetos, contratar profissionais, negociar contratos e pensar na programação do próximo ano...
Mas não sabe exatamente qual será a estrutura da empresa daqui a alguns meses.
É como tentar montar a escalação de um time enquanto o clube ainda está negociando a venda do estádio.
E a Paramount também não está tranquila
Seria fácil imaginar que somente os funcionários da Warner Bros. estão preocupados.
Não é bem assim.
A própria Paramount passou por uma série de cortes e mudanças desde a chegada da Skydance.
A fusão agora acrescentará milhares de funcionários e uma quantidade gigantesca de operações à estrutura existente.
Isso significa que alguns funcionários da Paramount também podem acabar disputando espaço com colegas da Warner Bros. que desempenham funções semelhantes.
Um gerente de streaming ouvido pelo Business Insider resumiu a situação como uma espécie de competição entre equipes e plataformas: existem profissionais muito qualificados dos dois lados trabalhando em áreas bastante parecidas.
A pergunta passa a ser: qual estrutura será escolhida?
HBO Max ou Paramount+?
Um dos maiores exemplos está justamente no streaming.
A nova companhia terá sob o mesmo guarda-chuva:
- HBO Max;
- Paramount+;
- Discovery+;
- Pluto TV.
Além disso, haverá uma enorme quantidade de conteúdo e marcas que poderão ser distribuídas entre essas plataformas.
O acordo com os estados determina, entre outras coisas, que a Pluto TV deverá continuar gratuita, com publicidade, durante o período de compromissos estabelecido no acordo.
Mas o futuro da estrutura dos demais serviços ainda será definido pela administração.
E isso significa que as equipes responsáveis por tecnologia, produto, marketing, publicidade e operações de streaming poderão passar por uma enorme reorganização.
Imagine duas cozinhas preparando praticamente o mesmo prato.
Depois da fusão, alguém vai inevitavelmente perguntar: “Por que temos duas cozinhas?”
E aí começa a reunião que ninguém quer participar.
O acordo trouxe proteção — mas não elimina o risco de cortes
É importante fazer uma distinção.
O acordo firmado com os estados inclui US$ 47,5 milhões para um fundo destinado a treinamento e desenvolvimento profissional de trabalhadores demitidos em consequência da fusão.
Isso significa que o próprio acordo reconhece a possibilidade de desligamentos decorrentes da integração.
A empresa também terá que respeitar os acordos coletivos existentes.
Além disso, o acordo firmado separadamente com a Writers Guild of America (WGA) inclui uma garantia de que não haverá demissões de roteiristas na CBS News Broadcast durante cinco anos, além de outros compromissos financeiros com o sindicato.
Mas essas proteções não significam que todos os empregos estejam garantidos.
Elas são compromissos específicos dentro de um processo de integração muito maior.
A contradição: produzir mais e gastar menos
Talvez esse seja o aspecto mais curioso de toda a operação.
De um lado, a Paramount-Warner terá que cumprir compromissos que exigem mais produção cinematográfica.
O acordo estabelece investimento adicional de pelo menos US$ 300 milhões por ano em produção de filmes nos Estados Unidos, totalizando US$ 1,5 bilhão ao longo de cinco anos. Também estabelece um número mínimo de lançamentos nos cinemas.
De outro lado, a administração quer obter bilhões de dólares em economias.
Ou seja:
mais filmes.
Mais investimento.
Mais conteúdo.
Mas menos custos.
É possível fazer isso?
Sim.
Mas normalmente existe uma palavra escondida nessa equação: eficiência.
E, em grandes fusões, eficiência frequentemente significa descobrir quais funções podem ser realizadas com menos pessoas.
Os estúdios de Hollywood, por enquanto, estão protegidos
Existe, porém, uma área que ganhou uma proteção bastante clara no acordo.
A Paramount-Warner terá que manter tanto o Paramount Studios, em Hollywood, quanto o Warner Bros. lot, em Burbank, pelo menos até o final de 2031.
A obrigação é especialmente relevante porque David Ellison havia ameaçado retirar as operações da Paramount da Califórnia caso não houvesse avanço nas negociações com os estados.
Agora, a companhia terá que manter os dois históricos complexos de produção.
Para quem trabalha nos estúdios, isso representa uma garantia importante.
Mas não significa que todos os empregos administrativos e corporativos estejam igualmente protegidos.
“Fechar a fusão é apenas o começo”
Essa frase de David Ellison provavelmente é a mais importante de toda a história.
Em mensagem enviada aos funcionários, o executivo reconheceu que a integração de duas empresas desse tamanho levará tempo e afirmou que ainda não existem respostas para todas as perguntas relacionadas a equipes, funções e rotina de trabalho.
E é exatamente isso que os funcionários querem saber.
Quem será o chefe?
Qual departamento será mantido?
Qual plataforma será priorizada?
Quais escritórios continuarão funcionando?
Quais contratos serão renovados?
Quais equipes serão combinadas?
Quem será dispensado?
E, talvez a pergunta mais importante de todas: “Meu emprego continua existindo?”
Hollywood ganha um gigante. Os funcionários ganham incerteza.
Do ponto de vista corporativo, o acordo representa uma enorme vitória para a estratégia de David Ellison.
A fusão de aproximadamente US$ 111 bilhões avançou depois de meses de batalha antitruste e de uma negociação que chegou perigosamente perto de outubro, quando começaria uma taxa de aproximadamente US$ 7 milhões por dia pelo atraso na conclusão do negócio.
Para os investidores, é o momento de pensar em sinergias.
Para Hollywood, é a promessa de uma empresa com uma quantidade absurda de marcas, filmes, séries, canais e plataformas.
Para quem trabalha nas duas companhias...
Bom.
É hora de atualizar o currículo.
Não porque todas as demissões já estejam definidas — elas não estão —, mas porque a própria estrutura da operação cria uma necessidade evidente de integração e redução de duplicidades.
E a Variety relata justamente esse clima de apreensão nos dois lados da futura empresa.
A verdadeira novela começa agora
A batalha judicial acabou.
A negociação com os estados acabou.
A WGA chegou a um acordo.
A taxa de US$ 7 milhões por dia deixou de ser a ameaça imediata.
David Ellison já fala em fechar a operação em aproximadamente duas semanas.
Mas agora começa a parte que não cabe tão facilmente em um comunicado de imprensa: integrar duas das maiores empresas de entretenimento do planeta.
Paramount, Warner Bros., HBO, CBS, CNN, MTV, Nickelodeon, DC, Comedy Central, Discovery, Paramount+, HBO Max e Pluto TV estarão debaixo de uma mesma estrutura.
É conteúdo demais.
É dinheiro demais.
É gente demais.
E, inevitavelmente, haverá uma pergunta pairando sobre os corredores de Hollywood: quantas pessoas serão necessárias para administrar tudo isso depois que a poeira baixar?
A fusão ainda nem começou oficialmente.
E já tem gente contando as cadeiras.
Fontes:
Variety — Paramount, Warner Bros. Insiders Stunned by Settlement, Readying for Layoffs
Variety — termos do acordo Paramount-Warner Bros.
Variety — David Ellison espera concluir negócio em aproximadamente duas semanas
Variety — reações ao acordo e posição da WGA
Business Insider — funcionários se preparam para integração e possíveis cortes



