Séries & TV

Smallville 25 Anos: A Série Que Me Ensinou o Que Era uma Temporada

Há 25 anos, Smallville estreava e mudava minha relação com séries. Uma homenagem à jornada de Clark Kent antes do Superman.


16 de outubro de 2026.

Hoje não é apenas mais uma sexta-feira no calendário.

Hoje é dia de olhar para trás.

É dia de voltar para uma pequena cidade do Kansas, olhar para o céu e lembrar de quando uma nave caiu na Terra carregando um garoto que ainda não sabia que um dia seria o maior super-herói de todos os tempos.


Hoje, Smallville completa 25 anos.

E, para mim, essa data significa muito mais do que comemorar uma série de televisão.

Porque Smallville foi uma daquelas obras que chegam à nossa vida no momento certo. Talvez você nem perceba na hora. Talvez pareça apenas mais uma série adolescente sobre um garoto estranho, uma garota bonita, um melhor amigo, um playboy milionário e uma cidade onde aparentemente todo mundo tem algum problema causado por uma chuva de meteoritos.

Mas aí você cresce.

E percebe que não era só uma série sobre Superman.

Era uma série sobre crescer.

E, no meu caso, foi também a série que me fez descobrir o que diabos era uma temporada.

Sim.

Antes de Smallville, temporada era aquele negócio que eu sabia que existia na televisão.

Depois dela, eu descobri que uma história podia acompanhar a nossa própria vida.

E aí já era.

Eu tinha entrado no mundo das séries.

16 de outubro de 2001: tudo começou



Há exatos 25 anos, em 16 de outubro de 2001, a televisão americana apresentava ao mundo uma ideia que, na época, parecia simples: E se acompanhássemos Clark Kent antes de ele se tornar Superman?

Criada por Alfred Gough e Miles Millar, Smallville estreou na então The WB e acompanhava a adolescência e o início da vida adulta de Clark Kent, interpretado por Tom Welling. A série permaneceu no ar por uma década, passando posteriormente para a The CW e chegando ao seu episódio final em 13 de maio de 2011.

Foram 10 temporadas.

Mais de duas centenas de episódios.

Uma década acompanhando Clark.

E uma década acompanhando personagens que, para muita gente, acabaram se tornando quase amigos.

Porque esse foi um dos grandes truques de Smallville.

Ela não queria simplesmente mostrar o Superman.

Ela queria mostrar o garoto que ainda não sabia que seria o Superman.

Antes da capa vermelha, existia um garoto



Clark Kent não começou voando. Não começou salvando o mundo. Não começou usando a capa.

Começou perdido.nComeçou tentando entender quem era. Começou tentando esconder aquilo que o tornava diferente.

E talvez seja exatamente por isso que tanta gente tenha se identificado com ele. Porque, obviamente, nós não temos visão de calor, superforça ou capacidade de atravessar paredes.

Mas sabemos como é sentir que existe alguma coisa dentro da gente que ainda não entendemos completamente.

Clark queria ser normal. Queria namorar Lana Lang. Queria jogar futebol. Queria viver como qualquer outro adolescente. Queria simplesmente passar despercebido.

O pequeno problema?

Ele era praticamente um alienígena indestrutível tentando sobreviver ao ensino médio.

Nada demais.

Smallville não era sobre Superman



Essa talvez seja a maior genialidade da série.

Durante muito tempo, Smallville evitou aquilo que todo mundo esperava.

Superman.

A proposta era justamente acompanhar a transformação de Clark Kent antes da identidade que conhecemos.

E isso permitiu que a série construísse sua própria mitologia.

A Fazenda Kent.

O celeiro.

A nave.

A Fortaleza da Solidão.

As cavernas.

A chuva de meteoritos.

A Kryptonita.

O Planeta Diário.

Metropolis.

Lex Luthor.

Lana Lang.

Chloe Sullivan.

Lois Lane.

Oliver Queen.

Jor-El.

Martha e Jonathan Kent.

Peças de um gigantesco quebra-cabeça que, lentamente, ia formando o Superman.

E talvez essa seja a melhor maneira de definir Smallville: uma história sobre construção.

Não apenas a construção de um herói.

Mas a construção de uma identidade.

E então apareceu Lex Luthor



Se Clark era o coração da série, Lex Luthor era a sua sombra. Interpretado magistralmente por Michael Rosenbaum, Lex talvez seja uma das versões mais interessantes do personagem já produzidas para a televisão.

Porque em Smallville, nós não encontramos simplesmente o vilão.

Encontramos o homem antes do vilão. E isso muda absolutamente tudo.

Lex começa como amigo de Clark. Um jovem rico, traumatizado, inteligente e desesperadamente tentando escapar da sombra do próprio pai. E existe algo fascinante nessa relação.

Clark olha para Lex e enxerga um amigo. O espectador olha para os dois e pensa: “Eu sei onde isso vai parar.”

Esse era o drama.

Nós sabíamos.

Eles não.

E durante anos acompanhamos a amizade dos dois sabendo que havia uma tragédia esperando no final da estrada.

Poucas coisas em Smallville eram tão interessantes quanto assistir à amizade entre Clark Kent e Lex Luthor se transformar lentamente em algo irreparável.

Era uma tragédia anunciada.

E mesmo assim a gente torcia para que não acontecesse.

Lana Lang e o interminável “será que agora vai?”



Ah, Lana.

Não existe texto sobre Smallville sem falar dela. Interpretada por Kristin Kreuk, Lana Lang foi durante boa parte da série o grande amor platônico de Clark.

E se você assistiu à série na época, sabe.

A gente sofreu.

Clark sofria.

Lana sofria.

O espectador sofria.

E aparentemente os roteiristas estavam muito confortáveis com isso.

Era segredo atrás de segredo.

Relacionamento atrás de relacionamento.

Separação.

Reencontro.

Mentira.

Verdade.

Kryptonita.

Viagem no tempo.

Universo alternativo.

Casamento.

Descasamento.

E provavelmente mais uma temporada inteira para resolver aquilo que poderia ter sido resolvido em uma conversa de quinze minutos.

Mas fazia parte.

Porque Smallville também era isso.

Era aquele tipo de série que fazia você gritar para a televisão: “PELO AMOR DE DEUS, CONTA LOGO!”

E, cinco minutos depois: “Tá... semana que vem eu vejo.”

Chloe Sullivan: a personagem que ganhou vida própria



E então temos Chloe.

Allison Mack interpretou uma das personagens mais importantes da série e também uma das maiores criações originais de Smallville.

Chloe não fazia parte da mitologia clássica do Superman daquela maneira.Ela era uma criação para a série.

E funcionou.

Funcionou muito.

Jornalista, investigadora, amiga, confidente e, muitas vezes, a pessoa que parecia ter mais cérebro naquela cidade inteira. Chloe era aquele personagem que estava sempre no lugar certo. Ou no lugar errado. Dependendo do episódio.

Ela ajudou a transformar Smallville em algo maior do que simplesmente “a série do Superman adolescente”.

Ela criou seu próprio espaço dentro daquele universo.

E então veio Lois Lane



Se existe uma personagem que mudou completamente a energia de Smallville, é Lois Lane.

E quando Erica Durance entrou em cena, a série ganhou uma dinâmica completamente diferente.

Lois não tinha paciência.

Não tinha filtro.

Não tinha medo.

E definitivamente não tinha paciência para Clark Kent.

O relacionamento entre os dois se tornou um dos grandes pilares das temporadas finais.

E existe uma ironia deliciosa nisso: Durante anos, nós acompanhamos Clark tentando descobrir quem ele era.

No fim, a pessoa que mais ajudou a aproximá-lo de seu destino talvez tenha sido justamente aquela mulher que não estava nem aí para o “garoto perfeito”.

Lois enxergava Clark.

Não o alienígena.

Não o herói.

Não o futuro Superman.

Clark.

E talvez fosse disso que ele precisasse.

Smallville também nos apresentou heróis



Outra coisa que tornou a série especial foi sua capacidade de expandir o universo.

Oliver Queen.

Arqueiro Verde.

Supergirl.

Aquaman.

Canário Negro.

Legião dos Super-Heróis.

Sociedade da Justiça.

E tantos outros.

Antes de o Universo Cinematográfico da Marvel transformar encontros de heróis em evento global, Smallville já brincava com essa ideia na televisão.

E havia algo quase artesanal nisso.

Não existia a estrutura gigantesca que temos hoje.

Não existia CGI em todo canto.

Não existia streaming lançando temporadas inteiras de uma vez.

Era televisão semanal.

Você assistia.

Esperava.

Comentava.

Teorizava.

E aguardava a próxima semana.

O tempo passou. E nós passamos junto.



Talvez essa seja a parte mais bonita de revisitar Smallville hoje.

Em 2001, Clark Kent era adolescente.

Nós também estávamos começando alguma coisa.

A tecnologia era outra.

A internet era outra.

As séries eram outras.

O mundo era outro.

Não existia Netflix como conhecemos hoje. Não existia streaming dominando nossa rotina.

Não existia a ideia de assistir dez episódios de uma série em uma madrugada porque “só faltam mais dois”.

Existia televisão.

E existia espera.

Você sabia que tinha que esperar uma semana. E, de alguma maneira, essa espera fazia tudo parecer maior.

Cada episódio tinha peso. Cada temporada parecia uma pequena eternidade.

E foi aí que Smallville me ensinou o conceito de temporada.

Porque uma temporada não era apenas um conjunto de episódios.

Era uma fase da vida.

Era começar em setembro ou outubro e terminar meses depois.

Era esperar o próximo ano. Era ver os personagens mudarem.

E perceber que você também tinha mudado.

Antes dos 10 anos: as histórias por trás de Smallville



Antes de falar das dez temporadas, dos 218 episódios e da longa caminhada até Superman, existe uma coisa que precisa ser lembrada:

Smallville quase não existiu da maneira como nós conhecemos.

A série nasceu de uma ideia que hoje parece óbvia, mas que em 2001 era bastante ousada: contar a história de Clark Kent antes do Superman.

A produção inicialmente tinha outro projeto em mente. A Tollin/Robbins queria desenvolver uma série sobre um jovem Bruce Wayne, mas a Warner Bros. já estava trabalhando em um filme de origem do Batman e não queria uma série de televisão competindo com o projeto. Foi então que surgiu a possibilidade de fazer algo parecido com Superman.

E Alfred Gough e Miles Millar aceitaram o desafio.

Mas com uma condição narrativa que acabou definindo toda a identidade da série: “No tights, no flights.”

Sem uniforme. Sem voar.

A ideia era simples: não fazer uma série sobre Superman.

Fazer uma série sobre Clark Kent.

Os próprios criadores queriam retirar o personagem de sua zona de conforto e descobrir quem era aquele garoto antes da capa, antes do símbolo e antes de Metropolis.

E essa decisão, olhando 25 anos depois, talvez tenha sido a maior cartada de Smallville.

A pequena cidade do Kansas que ficava no Canadá



Existe uma ironia maravilhosa na história de Smallville.

A cidade mais famosa do Kansas na televisão... ficava no Canadá.

A produção escolheu a região de Vancouver, na Colúmbia Britânica, tanto pelo custo de produção quanto pela capacidade de a paisagem representar aquela ideia de “interior da América”. O piloto começou a ser filmado em março de 2001 e teve uma produção bastante intensa.

E Vancouver acabou se transformando em Kansas, Metropolis e praticamente qualquer outro lugar que a história precisasse.

A fazenda dos Kent virou um dos lugares mais reconhecíveis da televisão dos anos 2000.

O celeiro?

Ah, o celeiro.

Aquele celeiro virou praticamente um personagem.

Quantas conversas aconteceram ali?

Quantos segredos foram revelados?

Quantas vezes Clark olhou para o horizonte pensando sobre seu destino?

Se aquele celeiro tivesse CPF, provavelmente teria mais história para contar que metade do elenco.

E o mais curioso é que o piloto utilizou inicialmente o celeiro de uma propriedade real. Posteriormente, a produção construiu um novo celeiro em estúdio, chegando a criar uma estrutura de três andares para a Fazenda Kent.

Tom Welling nem sequer tinha experiência como ator de televisão



Hoje parece impossível imaginar outro Clark Kent.

Mas Tom Welling chegou a Smallville praticamente como um desconhecido.

Na época do piloto, ele não tinha experiência em uma produção daquela dimensão. O próprio Welling relembrou posteriormente que não tinha experiência alguma naquele tipo de trabalho e que o diretor David Nutter criou um ambiente seguro e colaborativo para ele.

E talvez isso tenha ajudado.

Porque havia algo muito importante no Clark de Welling: ele parecia estar descobrindo tudo junto com o personagem.

O desconforto.

A timidez.

A insegurança.

A sensação de não pertencer.

A dificuldade de entender os próprios poderes.

O medo de machucar alguém.

Tom Welling não interpretava apenas um garoto que tinha superpoderes. Ele interpretava um garoto que ainda não sabia o que fazer com eles.

E essa diferença é enorme.

O elenco também não sabia exatamente onde aquilo iria parar


Outro detalhe interessante é que Smallville não nasceu com um mapa de dez anos desenhado na parede.

Muito pelo contrário.

Em entrevista retrospectiva, Miles Millar revelou que o plano original dos criadores era de aproximadamente cinco anos.

A série foi crescendo organicamente. Os personagens foram descobrindo quem eram.

Os roteiristas descobriram o que funcionava. A produção descobriu o que conseguia pagar.

E a história foi ganhando vida própria. Isso explica muito da personalidade da série.

Smallville não parece uma história escrita inteira de uma vez. Ela parece uma história que foi vivida.

E talvez seja justamente por isso que algumas fases sejam tão diferentes umas das outras.

A série cresceu.

Os personagens cresceram.

O elenco cresceu.

E nós crescemos junto.

Michael Rosenbaum e o Lex Luthor que ninguém esperava



E se existe uma escolha de elenco que merece uma estátua em algum lugar de Smallville, é Michael Rosenbaum.

Porque o desafio era gigantesco.

Como fazer o público gostar de Lex Luthor?

Como fazer o público acreditar que Clark poderia realmente considerá-lo seu melhor amigo?

Como transformar o futuro maior inimigo do Superman em alguém que, durante boa parte da história, parecia genuinamente querer fazer o bem?

Rosenbaum conseguiu.

E isso tornou a relação entre Clark e Lex uma das partes mais fascinantes da série.

Nós sabíamos. Desde o começo. Sabíamos quem Lex se tornaria. Mas Clark não sabia. E esse era o problema. A amizade deles carregava uma tragédia anunciada.

Cada conversa.

Cada confiança.

Cada segredo.

Cada mentira.

Tudo parecia caminhar lentamente para aquele inevitável momento em que os dois estariam em lados opostos.

Smallville não nos contou apenas como Clark virou Superman.

Também nos contou como Clark perdeu Lex.

A regra do “sem capa, sem voo” virou uma brincadeira com o público


A famosa regra “no tights, no flights” foi fundamental para a série.

Clark podia correr mais rápido que um carro. Podia levantar objetos absurdamente pesados. Podia enxergar através das paredes. Podia disparar raios pelos olhos. Podia ouvir coisas a quilômetros.

Mas voar?

Aí não.

Era quase uma piada interna entre série e espectadores.

Toda vez que Clark chegava perto demais de voar, alguém lembrava: “Calma aí, rapaz. Ainda não.”

A regra foi quebrada ocasionalmente de maneiras criativas, especialmente em sonhos, situações sobrenaturais ou momentos específicos da história, mas o princípio permaneceu durante boa parte da jornada.

E isso fazia sentido.

Porque o voo não era apenas mais um poder.

Era um símbolo.

Clark só poderia voar quando estivesse pronto para ser Superman.

E então chegamos ao episódio 100



Aqui a coisa muda completamente.

Porque existe uma diferença entre uma série chegar ao episódio 100... e uma série entender que o episódio 100 precisa significar alguma coisa.

Smallville entendeu.

E criou “Reckoning”.

O episódio 12 da quinta temporada.

O episódio 100.

Exibido originalmente em 26 de janeiro de 2006. E, até hoje, um dos capítulos mais importantes de toda a série.

O episódio começa com uma possibilidade quase perfeita.

Clark decide revelar seu segredo para Lana.

Finalmente.

Depois de quatro temporadas e meia de segredos, mentiras, desencontros e “Lana, eu preciso te contar uma coisa...”, finalmente parecia que Clark iria abrir o jogo.

E ele abre.

Mas Smallville não deixaria as coisas tão fáceis.

Claro que não.

Isso aqui é Smallville.

O episódio 100 foi uma declaração de amor... e uma facada



Em “Reckoning”, Clark recebe a oportunidade de mudar um acontecimento trágico.

Ele volta no tempo e tenta salvar Lana.

Consegue. Só que o destino cobra a conta.

E quem morre é Jonathan Kent. O homem que, desde o primeiro episódio, representava a bússola moral de Clark.

O pai.

O mentor.

O homem que ensinou Clark que ter poder não significava ter direito sobre os outros.

E é aqui que Smallville deixa de ser apenas uma série de super-herói.

Porque a morte de Jonathan não acontece simplesmente para criar drama. Ela representa a passagem de uma fase da vida de Clark para outra.

Os próprios criadores disseram que a morte de Jonathan fazia parte da mitologia que estavam construindo e que, na quinta temporada, Clark precisava começar a deixar para trás a figura do mentor e assumir sozinho as responsabilidades de seu destino.

O menino precisava perder o pai.

Não porque o pai tivesse falhado.

Mas justamente porque havia chegado a hora de Clark caminhar sozinho.

E existe uma história de bastidor ainda mais pesada


O diretor Greg Beeman enfrentou uma situação pessoal extremamente difícil durante a produção. Ele havia acabado de perder o próprio pai e saiu do funeral diretamente para Vancouver para dirigir o episódio.

Isso inevitavelmente deu um peso emocional ainda maior às cenas envolvendo Jonathan. É uma daquelas histórias de bastidores que tornam uma produção ainda mais humana.

Porque, enquanto a série contava uma história sobre um filho perdendo o pai... o próprio diretor estava vivendo um luto semelhante na vida real.

É difícil assistir a algumas cenas de “Reckoning” depois de saber disso sem enxergar uma camada adicional.

A ficção estava falando de perda.

E a realidade também.

O segredo do episódio 100



A produção sabia que precisava esconder quem morreria e levou isso a sério.

O roteiro chegou a ser impresso em papel vermelho, justamente para dificultar vazamentos.

Na época, a imprensa divulgava apenas que o episódio 100 teria a morte de um personagem importante, mas ninguém deveria saber quem.

O suspense foi construído de propósito.

E funcionou.

Porque naquele momento os fãs começaram a especular:

Lana?

Chloe?

Lex?

Martha?

Jonathan?

Qualquer um parecia possível.

Exceto Clark.

Afinal...

Sem Clark não existia Smallville.

Até Al Gough brincou com essa possibilidade nas entrevistas da época.

Jonathan Kent morreu como viveu



E talvez seja isso que torne a morte tão especial. Jonathan não morreu simplesmente como vítima.

Ele morreu protegendo a família, protegendo Clark.

Como havia feito desde o começo.

John Schneider, que interpretava Jonathan, considerou importante que seu personagem tivesse uma saída heroica. Para ele, Jonathan precisava morrer como havia vivido: protegendo aqueles que amava.

E isso é muito bonito.

Porque Jonathan não era o Superman.

Não tinha poderes.

Não tinha armadura.

Não tinha visão de calor.

Era apenas um homem.

Um pai.

Mas, dentro daquele universo, ele era o primeiro herói de Clark Kent.

O episódio 100 mudou Smallville



Depois de “Reckoning”, alguma coisa mudou não apenas na história: em Clark.

Até aquele momento, ele ainda tinha alguém para quem correr.

Alguém para perguntar.

Alguém para orientá-lo.

Alguém para dizer:

“Clark, isso está errado.”

Depois de Jonathan, essa voz desaparece, Clark precisa começar a encontrar as respostas dentro dele.

E isso prepara o caminho para aquilo que a série vinha prometendo desde o primeiro episódio: o nascimento do homem que um dia será Superman.

O próprio material retrospectivo da série destaca “Reckoning” como um ponto de virada, porque Clark começa a se tornar mais independente e a olhar para dentro de si mesmo.

Por isso, o episódio 100 não foi simplesmente uma comemoração.

Foi um rito de passagem.

E ainda tinha o detalhe do diamante


Porque Smallville não perderia a oportunidade de fazer uma referência ao mito do Superman.

Em determinado momento, Clark transforma carvão em diamante usando sua superforça, é uma referência a histórias clássicas do personagem, nas quais Superman realiza algo semelhante.

Era Smallville dizendo: “Sim, nós sabemos onde isso vai chegar.” Só estamos aproveitando o caminho.

E esse era o grande charme da série.

Ela vivia brincando com o futuro sem necessariamente correr para ele.

O episódio 100 como símbolo


Talvez seja por isso que “Reckoning” seja tão importante para quem acompanhou Smallville desde o começo.

O episódio 100 representa exatamente aquilo que a série sempre quis contar. Crescer dói.

Clark ganha independência, mas perde alguém.

Ganha responsabilidade, mas perde proteção.

Ganha maturidade, mas perde parte da infância.

É uma troca, e talvez seja isso que torna a história tão humana.

Porque todos nós, em algum momento, passamos por alguma versão disso.

Não precisamos ser kryptonianos.

Não precisamos salvar o mundo.

Em algum momento, todos nós percebemos que nossos pais não são eternos.

Que nossos heróis também envelhecem.

Que algumas pessoas que pareciam indestrutíveis podem desaparecer.

E que chega uma hora em que precisamos caminhar sem alguém segurando nossa mão.

Clark teve que aprender isso no episódio 100.

Nós aprendemos de outras maneiras.

Mas aprendemos.

E então vieram os outros episódios...


Depois de “Reckoning”, Smallville ainda tinha muita estrada.

Ainda existiam inimigos.

Novos heróis.

Novos amores.

Novas cidades.

Novas ameaças.

Novos segredos.

E, principalmente, ainda existia uma pergunta: quando Clark Kent finalmente se tornaria Superman?

A resposta levaria mais cinco temporadas, porque Smallville não estava com pressa.

A série queria que nós esperássemos.

E talvez seja justamente aí que entra aquela palavra que, para mim, ficou tão associada à série: temporada.

Porque Smallville não foi uma história que assistimos de uma vez.

Foi uma história que acompanhamos.

Ano após ano.

Temporada após temporada.

E foi assim que aqueles dez anos começaram a se transformar em uma das maiores jornadas televisivas da minha geração.

“O episódio 100 não foi apenas uma comemoração. Foi o momento em que Smallville nos mostrou que crescer significa, inevitavelmente, aprender a caminhar sem aqueles que nos ensinaram os primeiros passos.”

Dez temporadas para encontrar o Superman



Smallville terminou em 2011, depois de dez temporadas acompanhando Clark Kent até finalmente abraçar seu destino como Superman. O episódio final foi exibido em 13 de maio de 2011 e encerrou uma jornada que havia começado exatamente dez anos antes.

Dez anos.

Parece muito.

E é.

Mas quando uma história faz parte da sua vida, o tempo passa de maneira estranha.

Você pisca...

E aquele garoto que você conheceu em 2001 está finalmente diante do seu destino.

Clark finalmente entende.

Finalmente aceita.

Finalmente veste aquilo que o mundo inteiro estava esperando.

A capa.

O símbolo.

O voo.

Superman.

E talvez o mais bonito seja justamente perceber que a série passou dez anos evitando mostrar aquilo.

Porque Smallville nunca foi realmente sobre o momento em que Clark coloca a capa.

Foi sobre tudo aquilo que precisou acontecer antes.

O Superman que demorou uma década


Hoje, olhando para trás, pode parecer estranho. “Como assim uma série sobre Superman passou dez anos sem mostrar Superman direito?”

Pois é.

E funcionou, porque a demora fazia parte da proposta.

O herói precisava estar pronto.

Não apenas fisicamente.

Moralmente.

Clark precisava entender responsabilidade.

Precisava entender sacrifício.

Precisava perder pessoas.

Precisava cometer erros.

Precisava amar.

Precisava perdoar.

Precisava escolher.

Precisava finalmente compreender que seus poderes não definiam quem ele era, suas escolhas definiam.

E essa talvez seja a maior mensagem de Smallville.

Não são os poderes que fazem o herói.

É o que você escolhe fazer com eles.

E existia uma música...



Agora vamos falar de uma coisa que simplesmente não pode ser ignorada. “Save Me”. A música do Remy Zero.

Bastam alguns segundos, a guitarra começa, a voz entra, e pronto.

Você está de volta.

2001.

O celeiro.

Clark olhando para o horizonte.

A abertura.

Aquela estética maravilhosa do início dos anos 2000.

É quase uma máquina do tempo.

E talvez seja por isso que certas músicas sejam tão poderosas.

Elas não guardam apenas sons.

Guardam versões antigas de nós mesmos.

Você escuta “Save Me” hoje e não lembra apenas de Smallville.

Você lembra de quem você era quando assistia Smallville.

E isso dói.

Mas é uma dor boa.

É nostalgia.

25 anos depois...


Hoje, 16 de outubro de 2026, Smallville completa 25 anos.

Um quarto de século.

Vinte e cinco anos desde que aquela nave caiu, vinte e cinco anos desde que conhecemos Clark Kent antes de ele se tornar o Superman.

A série teve dez temporadas e centenas de episódios, encerrando sua jornada em 2011.

Mas existe uma coisa que nenhum número consegue medir. O impacto.

Porque algumas séries são assistidas.

Outras são vividas.

Smallville foi vivida.

Foi acompanhada durante anos.

Foi comentada na escola.

Na faculdade.

No trabalho.

Na internet.

Em fóruns.

Em comunidades.

Em conversas entre amigos.

Foi baixada.

Foi gravada.

Foi reprisada.

Foi comprada em DVD.

Foi reassistida.

E continua sendo reassistida.

Smallville envelheceu?


Sim.

E ainda bem.

Porque nós também envelhecemos.

Alguns efeitos especiais hoje fazem você pensar: “Meu Deus, isso era bonito em 2004?”

Era.

E naquela época funcionava.

Algumas histórias parecem exageradas, alguns romances poderiam ter terminado três temporadas antes.

Algumas decisões dos personagens fazem você querer entrar na televisão e dar um sacode no sujeito.

Mas existe algo maravilhoso em assistir uma obra antiga sem tentar transformá-la naquilo que ela não era. Smallville pertence ao seu tempo.

E justamente por isso é tão especial.

Ela carrega a estética, a tecnologia, a música, a narrativa e a sensibilidade dos anos 2000.

Ela é uma cápsula do tempo.

A série que me ensinou o que era uma temporada


E chegamos ao ponto mais pessoal dessa história.

Porque, para mim, Smallville não foi apenas uma série.

Foi uma porta, foi uma das primeiras vezes em que percebi que histórias poderiam acompanhar nossa vida durante anos.

Eu descobri que uma temporada terminava.

Que outra começava.

Que existia intervalo.

Que existia expectativa.

Que existia episódio especial.

Que existia final de temporada.

Que existia aquele maldito “CONTINUA...” capaz de destruir qualquer ser humano numa noite de terça-feira.

Foi através de Smallville que eu comecei a entender esse ritual.

Assistir.

Esperar.

Voltar.

E esperar novamente.

Hoje temos streaming.

Clicamos.

Pulamos.

Maratonamos.

Em algumas horas podemos consumir aquilo que antes levava meses.

É prático.

É maravilhoso.

Mas existe uma coisa que perdemos.

A espera.

E Smallville me ensinou a esperar.

Talvez por isso eu ainda goste tanto dela.

Clark Kent não foi apenas um personagem


Clark Kent foi uma companhia, e talvez seja essa a verdadeira força de uma série que consegue atravessar 25 anos.

Nós crescemos com ele.

Vimos suas dúvidas.

Seus romances.

Suas perdas.

Suas escolhas.

Seus erros.

Sua transformação.

E quando ele finalmente se tornou Superman...

De alguma maneira, nós também tínhamos chegado lá.

Não porque tivéssemos superpoderes.

Mas porque já não éramos as mesmas pessoas que tinham sentado diante da televisão anos antes.

25 anos de Smallville


Há séries melhores, provavelmente existem séries mais sofisticadas.

Séries com roteiros mais perfeitos, efeitos melhores.

Produções mais caras.

Fotografia mais bonita.

Mas poucas séries têm aquilo que Smallville tem.

Memória afetiva.

Porque algumas histórias não são importantes apenas pelo que contam.

São importantes pelo momento em que nos encontram.

Smallville me encontrou em um mundo completamente diferente.

E, quando terminou, eu também era diferente.

Talvez seja essa a verdadeira definição de uma grande série.

Não aquela que você simplesmente acha boa.

Mas aquela que consegue deixar alguma coisa dentro de você.

Uma frase.

Uma música.

Uma cena.

Um personagem.

Uma lembrança.

Um lugar.

Uma época.

Obrigado, Smallville



Então, hoje, 25 anos depois daquele primeiro episódio, fica aqui uma homenagem.

Ao garoto que caiu do céu.

Ao homem que demorou dez temporadas para aceitar seu destino.

A Jonathan e Martha Kent.

A Lana.

A Chloe.

A Lois.

A Lex.

A Oliver.

A todos aqueles personagens que fizeram daquela pequena cidade do Kansas um lugar que milhões de pessoas aprenderam a chamar de casa.

E principalmente...

Obrigado à série que me ensinou que histórias não precisam apenas ser assistidas.

Elas podem acompanhar a gente.

Em 2001, eu não sabia exatamente o que era uma temporada.

Hoje eu sei.

Uma temporada é um pedaço de uma história.

Mas, às vezes, uma série inteira vira um pedaço da nossa própria história.

E Smallville virou.

E depois de 25 anos, uma coisa continua verdadeira...


Clark Kent ainda olha para o céu.

Ainda existe alguma coisa naquele garoto.

Ainda existe esperança.

Ainda existe a ideia de que alguém pode escolher fazer o bem mesmo quando ninguém está olhando.

Talvez seja por isso que Superman continue funcionando depois de quase um século.

E talvez seja por isso que Smallville continue funcionando depois de 25 anos.

Porque no fim das contas... não era sobre um alienígena.

Era sobre um garoto tentando descobrir quem deveria ser.

E, sinceramente?

Não conheço metáfora melhor para crescer.

25 anos depois, Smallville ainda está lá.

No Kansas.

No celeiro.

Na fazenda dos Kent.

Na música de abertura.

Na memória.

E, para quem viveu aquela época... em algum lugar dentro da gente.

25 anos de Smallville


16 de outubro de 2001 — 16 de outubro de 2026

10 temporadas. Uma geração. Uma lenda.

Antes da capa, existia Clark Kent.

Antes do Superman, existia Smallville.

E antes de eu saber o que era uma temporada...

existia Smallville.


Poeta, Bacharel em Radio, TV E Vídeo, Estrela, Editor e Co-criador do Papo Blast, Especialista em piada ruim, Viciado em séries e filmes, está mais perdido que Lost e acredita que Sharknado é um clássico subestimado mas vocês não estão prontos para essa conversa.


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