Existe uma coisa perigosíssima na indústria dos games: uma ótima ideia.
Porque uma ótima ideia cria expectativa. E expectativa, meus amigos, é um bicho danado. Quando funciona, temos um clássico. Quando não funciona, ficamos olhando para os créditos pensando: “Era só isso?”
The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline é exatamente esse tipo de jogo.
Desenvolvido pelo estúdio italiano ONE-O-ONE Games, conhecido por The Suicide of Rachel Foster, e publicado pela Entalto Publishing, o título parte de uma premissa deliciosa para qualquer fã de literatura, terror psicológico e histórias sobrenaturais: e se a Divina Comédia de Dante não fosse apenas uma obra literária?
E se Dante tivesse escrito aquilo porque realmente conheceu o Inferno?
Melhor ainda: e se seus descendentes fossem obrigados, geração após geração, a impedir que esse Inferno chegasse ao nosso mundo?
É daí que nasce uma aventura curta, atmosférica, visualmente belíssima e cheia de puzzles inteligentes.
Mas também nasce uma pergunta inevitável: por que diabos isso acaba tão rápido?
Dante escreveu uma história. Sua família vive dentro dela.
Em The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline, assumimos o controle de Gabriele Alighieri, descendente do famoso poeta italiano.
Mas carregar o sobrenome Alighieri não é exatamente motivo para comemorar.
A família possui uma obrigação ancestral: a cada 33 anos, um descendente precisa realizar um ritual para manter fechadas as portas que conectam nosso mundo ao Inferno.
E chegou a vez de Gabriele.
O ano é 1993.
Gabriele retorna à propriedade da família e precisa cumprir o ritual. Só que, obviamente, entrar no Inferno nunca é tão simples quanto abrir uma porta, dizer algumas palavras e voltar para casa para assistir televisão.
O ritual exige um preço.
E esse preço envolve aquilo que Gabriele mais ama.
A ideia é imediatamente interessante porque o jogo não tenta simplesmente adaptar Inferno, primeira parte da Divina Comédia, para os videogames.
Ele faz algo mais esperto.
Transforma Dante em parte da mitologia do próprio jogo.
A Divina Comédia passa a ser uma espécie de relato codificado de uma realidade que realmente existe.
A família Alighieri sabe disso.
E Gabriele está prestes a descobrir.
O Inferno não precisa de fogo
Talvez a decisão mais interessante de The Alighieri Circle esteja justamente aqui.
Esqueça aquele Inferno clássico cheio de rios de lava, demônios gigantes, esqueletos, fogo para todos os lados e um sujeito vermelho segurando um tridente.
Aqui, o Inferno é chamado de The Dive.
E ele funciona muito mais como uma manifestação psicológica.
É um lugar construído a partir dos medos, lembranças e traumas de quem o atravessa.
Ou seja: o Inferno não é necessariamente um lugar.
É você.
Essa abordagem permite que os desenvolvedores criem ambientes extremamente estranhos, distorcidos e desconfortáveis sem precisar ficar presos à iconografia tradicional de Dante.
E visualmente isso funciona muito bem.
O mundo infernal mistura tons dessaturados, preto, branco, cinza e vermelho, criando uma identidade visual muito própria. Objetos ligados à vida de Gabriele aparecem incorporados ao cenário, fazendo com que aquele espaço pareça menos um "mapa do Inferno" e mais uma viagem para dentro da cabeça do protagonista.
É uma interpretação bastante interessante.
E, em determinados momentos, bonita pra caramba.
Uma mansão que parece esconder muito mais do que realmente esconde
Antes de mergulharmos no Inferno, existe a mansão da família Alighieri.
E aqui o jogo consegue criar uma das suas melhores atmosferas.
A casa é detalhada, silenciosa e carregada daquela sensação clássica de: "tem alguma coisa muito errada aqui."
Você explora os ambientes procurando objetos, documentos e pistas que ajudam a compreender a história da família.
Diários e documentos revelam fragmentos das gerações anteriores e mostram como outros membros dos Alighieri lidaram com a maldição.
O problema é que a mansão também é vítima de uma velha doença dos videogames: ela parece maior e mais importante do que realmente é.
Existem espaços que dão a impressão de esconder grandes segredos, mas acabam tendo pouca utilidade narrativa ou servindo apenas como áreas secundárias e locais para coletáveis.
A maior parte do problema aponta justamente essa sensação de desperdício: há áreas interessantes na residência que poderiam ter recebido mais exploração e puzzles.
É como entrar numa mansão gigantesca e descobrir que o dono só usa a sala, a cozinha e o banheiro.
O resto está ali para pagar IPTU.
Puzzles: aqui o jogo dá um belo tapa na mesa
Se existe um elemento que realmente diferencia The Alighieri Circle, são os puzzles, e eles não são aqueles quebra-cabeças de videogame que basicamente dizem: "Pegue a chave vermelha e coloque na porta vermelha."
Não.
O jogo quer que você observe.
Quer que você conecte informações.
Quer que você leia.
Quer que você olhe para o cenário.
E, principalmente: não quer ficar segurando sua mão.
Praticamente não existe sistema de dicas e alguns puzzles exigem bastante raciocínio para serem solucionados. Ao mesmo tempo, a maioria deles oferece aquela deliciosa sensação de satisfação quando finalmente entendemos a lógica por trás da solução. Podemos considerar os puzzles ambientais um dos grandes destaques do jogo, especialmente pela maneira como diferentes informações precisam ser cruzadas para chegar à solução.
E isso é importante.
Porque The Alighieri Circle não é um jogo de ação.
Não tem combate.
Não existe um arsenal.
Não existe árvore de habilidades.
Não tem personagem subindo de nível.
A experiência está fundamentada em explorar, interpretar e solucionar problemas.
Portanto, se os puzzles fossem ruins, o jogo estaria praticamente condenado, felizmente, não são.
O problema: alguns puzzles parecem mais inteligentes do que realmente são
Mas existe uma pequena pegadinha.
A ausência de dicas pode ser ótima quando o puzzle é bem construído.
Quando não é...
Bom.
Você começa a questionar suas escolhas de vida.
"Será que eu deveria ter feito Direito?"
"Será que eu realmente preciso descobrir qual estátua olha para qual?"
"Por que estou resolvendo um enigma às 2h da manhã?"
Alguns desafios funcionam muito bem.
Outros podem transformar raciocínio lógico em tentativa e erro.
Ainda assim, no conjunto, os quebra-cabeças são provavelmente a maior virtude de The Alighieri Circle.
Walking Simulator? Sim. E daí?
Vamos resolver uma questão logo de cara.
The Alighieri Circle é um walking simulator.
E não existe absolutamente nada de errado nisso.
O problema é que muita gente ainda ouve "walking simulator" e imagina cinco horas andando em linha reta enquanto alguém lê um texto sobre depressão.
Calma.
Aqui existe exploração, investigação e puzzles, embora o jogo inicialmente parecesse mais difícil de classificar, a estrutura caminhava claramente para o gênero walking simulator.
A diferença é que The Alighieri Circle entende que, nesse gênero, o ambiente precisa ser protagonista.
E ele é.
O verdadeiro protagonista talvez seja a atmosfera
Se existe um elemento em que praticamente todas as impressões convergem, é a atmosfera.
O jogo é bonito.
Muito bonito.
A mansão possui iluminação cuidadosamente trabalhada, interiores detalhados e uma estética que ajuda a construir o isolamento de Gabriele.
E quando chegamos ao Inferno, a direção de arte muda completamente.
Não é apenas "uma versão vermelha do mundo real".
O cenário parece quebrado.
Distorcido.
Como se alguém tivesse pegado as memórias de Gabriele, colocado tudo dentro de um liquidificador e apertado o botão. Destacando iluminação e texturas e descrevendo o jogo se apresenta como um verdadeiro showcase técnico, a atmosfera e exploração são pontos fortes.
E isso é importante porque o jogo depende muito mais da sensação de estar naquele lugar do que de sustos baratos.
E o terror?
Aqui precisamos colocar o pé no freio.
The Alighieri Circle não é Resident Evil.
Não espere sair correndo de um demônio durante meia hora.
Também não espere uma chuva constante de jumpscares.
Existem alguns sustos pontuais, mas o foco está muito mais no suspense psicológico e na estranheza do ambiente.
E, para mim, essa escolha combina muito melhor com a proposta.
O verdadeiro terror não está em saber que alguma criatura pode aparecer atrás da porta.
Está em descobrir que o próprio Inferno conhece seus medos.
Isso é muito mais interessante.
A história é onde o Inferno começa a pegar fogo
E aqui chegamos ao maior problema do jogo.
A narrativa não acompanha o potencial da premissa.
Essa talvez seja a crítica mais recorrente entre as análises.
A GameSpew sentiu falta de desenvolvimento de Gabriele e de sua família, apontando que existe pouco tempo para construir os personagens e fazer o jogador realmente se importar com o destino deles.
A Gamesurf foi ainda mais contundente ao considerar que a experiência termina justamente quando parece que a história finalmente começaria a desenvolver todo o seu potencial.
E essa é uma descrição perfeita.
Porque The Alighieri Circle parece constantemente estar preparando alguma coisa.
A família.
O ritual.
A maldição.
Dante.
O Inferno.
O sacrifício.
Os antepassados.
Gabriele.
Delilah.
Tudo parece apontar para um grande momento.
E então...
acabou.
Gabriele precisava de mais tempo
O protagonista é uma das maiores vítimas da curta duração.
Gabriele deveria ser um personagem extremamente interessante.
Imagine carregar nas costas o peso de uma tradição familiar que atravessou séculos.
Imagine saber que você será obrigado a entrar no Inferno.
Imagine descobrir que o ritual exige um sacrifício.
Agora imagine ter que escolher entre sua família e o resto da humanidade.
Isso deveria ser devastador.
Mas para funcionar emocionalmente, o jogador precisa conhecer Gabriele.
Precisa entender seus medos.
Precisa criar vínculo com sua família.
Precisa sentir o peso daquela escolha.
E é justamente aí que o jogo corre.
A relação entre Gabriele e sua esposa, Delilah, é apontada como uma das partes mais humanas da história, especialmente através das ligações e das cenas que mostram a vida do casal.
Só que faltou tempo.
Muito tempo.
Três horas? Cinco? Depende de você
Aqui existe uma pequena diferença entre as análises.
A GameSpew afirma que é possível terminar o jogo em menos de duas horas caso o jogador não fique preso nos puzzles.
A Pfangirl estima algo em torno de cinco horas, dependendo do ritmo e da exploração.
Outras análises ficam na faixa de aproximadamente três a quatro horas.
Ou seja:
é um jogo curto.
Muito curto.
Mas duração não é automaticamente um problema.
Journey é curto.
Inside é curto.
Firewatch não é exatamente uma maratona.
A questão é outra:
The Alighieri Circle termina antes de desenvolver completamente sua própria ideia.
E isso é muito mais grave do que simplesmente ter poucas horas.
O jogo parece um prólogo de algo maior
Essa talvez seja a melhor maneira de explicar a experiência.
Você começa a compreender a família.
Começa a entender o ritual.
Começa a entender o Inferno.
Começa a entender Gabriele.
Começa a enxergar as possibilidades narrativas.
E então os créditos aparecem.
É quase como assistir ao primeiro episódio de uma série maravilhosa e descobrir que a emissora cancelou a temporada inteira.
A Gamesurf resume essa sensação de maneira muito semelhante: o jogador termina a experiência com a impressão de ter chegado ao ponto em que a jornada finalmente poderia começar a dizer algo mais.
E isso dói porque há potencial aqui.
Muito potencial.
Dante está presente, mas não exatamente como você imagina
Um dos maiores méritos da proposta é justamente não tentar transformar o jogo numa versão videogame de Dante's Inferno.
Você não vai necessariamente encontrar todos os personagens clássicos da obra.
Não existe obrigação de reproduzir literalmente os nove círculos.
O próprio conceito estabelece que o Inferno é uma experiência pessoal.
Isso dá liberdade para os desenvolvedores criarem uma interpretação própria.
E essa liberdade funciona.
O problema é que ela também cria uma expectativa enorme.
Porque, quando você anuncia:
Dante + descendentes + Inferno + ritual + terror psicológico
o jogador começa a imaginar possibilidades.
E o jogo entrega apenas uma pequena parte delas.
A Pfangirl observa justamente essa sensação: considerando a existência dos nove círculos de Dante, três Trials e três páginas acabam parecendo pouco.
Tecnicamente, existe beleza... e alguns tropeços
A direção de arte é excelente.
Mas a performance não é perfeita.
A Vulgar Knight já relatava problemas de desempenho durante o preview, inclusive em um Steam Deck e em um PC intermediário, sendo necessário recorrer a uma máquina mais potente.
A análise da OutNow também menciona travamentos e stutters capazes de quebrar a imersão.
É uma pena.
Porque um jogo tão dependente de atmosfera precisa justamente que o jogador fique completamente imerso.
Você está entrando no Inferno...
A música começa...
A iluminação muda...
O cenário fica estranho...
Você está concentrado...
TRAVOU.
Inferno desbloqueado.
Mas não exatamente o planejado.
O som sabe fazer silêncio
Outro ponto que merece elogio é o trabalho sonoro.
A trilha e o sound design ajudam bastante a construir a sensação de isolamento e tensão.
E isso é particularmente importante porque o jogo não precisa ficar berrando no ouvido do jogador o tempo inteiro.
Ele sabe trabalhar com silêncio.
Com passos.
Com ruídos distantes.
Com ambientes vazios.
Com aquela sensação maravilhosa de que talvez exista alguma coisa onde você não consegue enxergar.
É uma abordagem muito mais coerente com o thriller psicológico que o jogo pretende ser.
Afinal, vale a pena jogar The Alighieri Circle?
Sim. Mas sabendo exatamente o que você está comprando.
Se você procura:
combate;
ação;
monstros para enfrentar;
progressão de personagem;
dezenas de horas de conteúdo;
passe longe.
Agora, se você gosta de:
walking simulators;
puzzles ambientais;
suspense psicológico;
narrativas sobrenaturais;
literatura;
ambientes atmosféricos;
jogos experimentais;
a conversa muda completamente.
Porque existe algo genuinamente interessante aqui.
A combinação entre a mitologia de Dante e uma interpretação psicológica do Inferno é excelente.
Os puzzles, na maior parte do tempo, são inteligentes.
A direção de arte é uma das grandes estrelas.
E a atmosfera consegue carregar boa parte da experiência nas costas.
O veredito
The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline é um jogo com uma ideia maior do que sua própria duração.
E talvez essa seja a frase que melhor define tudo.
Ele não é ruim.
Muito pelo contrário.
Ele possui alguns dos ingredientes necessários para ser algo realmente especial.
Mas parece ter sido comprimido.
Como se os desenvolvedores tivessem uma história de oito horas e alguém tivesse dito:
"Vocês têm quatro."
Então cortaram.
Cortaram personagens.
Cortaram desenvolvimento.
Cortaram exploração.
Cortaram encontros.
Cortaram conteúdo.
E mantiveram a essência.
O resultado é um jogo que impressiona pelo que é, mas também provoca uma certa frustração pelo que poderia ter sido.
E talvez seja justamente por isso que uma continuação faria tanto sentido.
A própria Pfangirl considera uma sequência bem-vinda, enquanto outras análises deixam evidente que o universo criado possui muito mais espaço para ser explorado.
Porque existe uma pergunta que fica martelando depois dos créditos:
e se eles tivessem ido mais fundo?
No fim das contas, The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline é como uma porta para o Inferno.
Você abre.
Entra.
Resolve alguns enigmas.
Descobre segredos.
Olha maravilhado para o abismo.
E justamente quando começa a se perguntar o que existe depois...
a porta fecha.
🎮 Nota do Papo Blast
Categoria Nota
🎨 Gráficos/Direção de arte 9,0
🧩 Puzzles 8,5
🎧 Som e atmosfera 8,5
📖 História 6,5
👤 Personagens 6,0
🎮 Gameplay 7,5
⏱️ Duração 5,5
🔄 Rejogabilidade 6,0
Nota final 7,5/10
VEREDITO: 7,5/10 — O Inferno que merecia mais tempo
The Alighieri Circle: Dante’s Bloodline não é uma obra-prima, mas é um daqueles jogos independentes que merecem ser observados com carinho.
Ele tem identidade.
Tem personalidade.
Tem uma direção artística excelente.
Tem puzzles que fazem o cérebro trabalhar.
E tem uma premissa que daria facilmente uma aventura muito maior.
Seu maior pecado não é ser curto.
É nos fazer desejar que fosse mais longo.
E convenhamos: para um jogo sobre o Inferno, não existe punição mais apropriada.
🔥 Recomendado para quem gosta de:
The Suicide of Rachel Foster, Layers of Fear, What Remains of Edith Finch, Firewatch, puzzles ambientais, terror psicológico e histórias sobrenaturais.
❌ Não recomendado para quem procura:
ação, combate, terror tradicional ou uma aventura longa.







