Séries

Crítica: Jessica Jones - uma pitada de terror psicológico

Segunda série da Marvel lançada pela Netflix, Jessica Jones nos mostra a vida de uma heroína que ganha a vida como investigadora.

Depois de Daredevil, a segunda série do universo cinematográfico compartilhado da Marvel, Jessica Jones, também produzida pela Netflix, finalmente é lançada, e o resultado não é nada abaixo do esperado. A tarefa era diferente, porém igualmente desafiadora: em Daredevil, a série teria que ganhar de volta um público decepcionado por causa do filme de 2003, e aqui, era apresentar heroína relativamente desconhecida para quem não acompanha os quadrinhos. Tenho certeza de muitos fãs dos filmes da Marvel sequer já ouviram falar de Jessica Jones, e por isso a série foi muito bem justificada.

Novamente lançada por completo no mesmo dia e contendo também 13 episódios, Jessica Jones estreou no serviço de streaming na última sexta-feira. Mantendo o formato de "filme muito longo" que as séries do Netflix normalmente possuem, a série conta a história de uma investigadora particular que possui super-força e ganha a vida revelando a privacidade de outras pessoas, principalmente casos de adultério. Estrelada por Krysten Ritter, Jessica Jones não é uma história de origem da heroína, e isso é muito bem-vindo. Não temos uma justificação clara de onde vem o seu poder, porém nos primeiros episódios vamos conhecendo a personagem e suas motivações, angústias e traumas. Sem muita ação e pancadaria como em Daredevil, a série foca mais na batalha psicológica dos personagens. Não se preocupe, no entanto, pois em uma história aonde a protagonista tem super-força, sobra espaço para lutas.

Aos poucos, também vamos conhecendo o vilão Kilgrave (David Tennant), que possui o poder de controlar mentes e fazer as pessoas fazerem o que ele quiser. Praticamente tudo de ruim que está acontecendo com Jessica se deve a ele, e a série vai mostrando isso com calma, porém com precisão. Depois dos primeiros episódios focados em nos mostrar quem é a Jessica, temos alguns aonde nos mostram como é Kilgrave. Suas motivações são um tanto estranhas no começo, porém logo são justificadas, quando entendemos a extensão de seus próprios traumas. Como em Daredevil, as referências aos filmes da Marvel são somente verbais, uma conversa rápida entre personagens para estabelecer que a ligação existe. Somente em Daredevil que a referência é um pouco mais tangível, porém breve, com o retorno de um personagem.
Kilgrave

Escolha x Desejo

Controle. Esse é o tema principal da série, e ele é apresentado de muitas formas. É óbvio que o controle sobre mentes de Kilgrave faz parte desse tema, mas também são interessantes as outras formas em que esse tema aparece. Vemos até onde uma ação de alguém está sob controle e, quando essa pessoa perde esse controle, coisas ruins podem acontecer. Temos muitos personagens fortes, principalmente mulheres (além de Jessica, Trish, interpretada por Rachael Taylor, e a advogada Hogarth, interpretada por Carrie-Anne Moss) que são desafiadas constantemente, porém demonstram bastante força para lidar com seus problemas.

A série também trata do trauma psicológico de muitos personagens que foram controlados por Kilgrave, que questionam se suas ações foram mesmo ordens, portanto justificadas, ou desejos profundos. E, se eram desejos, será que o controle que nós temos sobre nossas ações é o que separa os "good guys" dos criminosos? A série também mexe um pouco com o machismo e feminismo, um assunto atualmente em evidência, mostrando mulheres fortes, não donzelas em apuros; que não precisam serem salvas por um outro homem, ou que sequer precisam de homens em sua vida para serem felizes e terem sucesso. Até o assunto do aborto aparece em um episódio, falando que sim, a mulher tem o controle sobre o seu corpo. Isso nos faz pensar sobre o controle que o machismo tem no mundo atual.

Os pequenos núcleos no qual a trama é subdividida são muito concisos e, na sua maioria, interessantes e importantes, com grande destaque para o relacionamento entre Jessica e Trish, e também do próprio Kilgrave com Jessica, sem deixar de lado personagens secundários como Malcolm (Eka Darville) e Luke Cage (Mike Colter), sendo que esse último ganhará sua própria série em breve. O mesmo não se pode dizer sobre os relacionamentos pessoais de Hogarth, e os casal de irmãos vizinhos de Jessica. São histórias um pouco clichês e desinteressantes, sendo que o tempo que a série gasta para mostrá-las não é justificado.
Jessica Jones

Relacionamentos consistentes

Isso porém não implica em suas atuações, pois são todas excelentes, com destaque para Krysten Ritter, que entrega uma personagem forte, traumatizada, porém com um ótimo senso de justiça, David Tennant, que personifica um vilão bem psicopata e inteligente, e Carrie-Anne Moss, uma advogada que coloca a carreira acima de tudo, e Mike Colter, um dono de bar solitário com uma bagagem emocional enorme e um segredo incrível. Com uma censura de 16 anos, os primeiros episódios tem algumas cenas mais quentes entre alguns personagens, porém nada apelativo, pois são realmente necessárias na construções dos relacionamentos apresentados. No entanto fica chato ver com os seus pais.

Mais uma vez sem entrar no formato de "um caso por episódio", o trabalho de investigadora de Jessica é essencial para o enredo e não é usado de muletas para o roteiro só pra servir de enrolação. Cada capítulo tem começo, meio e fim, tratando de um tema próprio, porém não falha em deixar aquela vontade de que "preciso ver o próximo agora". Com tempo livre, tenho certeza que qualquer um que pegar Jessica Jones para assistir não vai conseguir parar na metade. O final, como esperado, deixa várias possibilidade para que a história continue. Provavelmente veremos algo da personagem na próxima série, Luke Cage, que sai no ano que vem. Já acabou, 2015?
Renato Dias escreve para o GeekBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.
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