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Kilgrave e os Jedi: perspectivas sobre controle mental

Como a introdução do antagonista de Jessica Jones, com seus poderes de manipulação, joga uma nova luz sobre o bom e velho "truque mental Jedi".


Este segundo semestre de 2015 foi uma farta refeição para o público geek do mundo todo. O prato principal é, sem dúvida, o lançamento do que é provavelmente o filme mais aguardado do ano. o sétimo episódio de Star Wars, O Despertar da Força. Mas não foram os únicos contemplados por esse fim de ano: os fãs da Marvel, deixados órfãos de uma dose de seriedade após a ótima temporada de Demolidor no primeiro semestre, tiveram seu próprio agrado através da surpreendente e relativamente desconhecida Jessica Jones. Através da bem-sucedida parceria entre a Marvel e o Netflix, a personagem pôde fazer espectadores do mundo todo desfrutar de sua problemática presença em suas respectivas noites livres.


É interessante, apesar de mera coincidência, como essas duas obras que enfeitaram o imaginário geek de fim de ano trazem consigo duas perspectivas sobre um potencial que já há muito foi implicado mas jamais realmente explorado em Star Wars: controle mental, que, na saga de George Lucas, figura como o tão conhecido "truque mental Jedi". Esses não são os droides que você procura, vocês vão nos deixar seguir adiante, você vai me soltar, sair da sala e deixar a porta aberta. Se por um lado tal habilidade parece inofensiva por parte dos usuários da Força, esse potencial deixa margem para uma habilidade cujas consequências não podemos realmente averiguar até assistir esse seriado da Marvel e Netflix.

Para quem viu um, o outro logo se torna familiar.

A perda da agência e identidade

Apesar de já termos uma crítica de Jessica Jones no GeekBlast, vamos recapitular (alguns spoilers leves para os primeiros episódios): o antagonista principal do seriado é um homem chamado Kilgrave que tem o poder singelo de fazer com que as pessoas ao seu redor cumpram qualquer ordem, pedido ou sugestão que ele fale, desde que estejam no mesmo espaço que ele (ou seja, nada de ordens por telefone ou microfone). Se pedir que pegue uma água, a vítima ficará com uma compulsão irresistível por pegar uma água para ele; se sugerir que a vítima pule de uma ponte, ela não conseguirá parar quieta até que cumpra a sugestão. E isso se aplica para outras tarefas sortidas, como matar, assaltar um banco, apontar uma arma contra a própria cabeça, caminhar ao seu lado como se fossem amantes.

A protagonista Jessica Jones, antes do começo da série, foi alvo de obsessão amorosa por parte de Kilgrave: passou mais de um ano sob seu controle, tendo que, contra sua vontade, agir como sua namorada ou amante, indo com ele a hotéis cinco estrelas, frequentando jantares em restaurantes chiques, vestindo roupas das quais jamais gostou, dormindo com ele em diversas ocasiões. A Jessica que conhecemos ao início da temporada é uma mulher emocionalmente devastada, que afasta a todos por incapacidade de confiar nos outros e tem flashbacks ocasionais de seus meses nas mãos de Kilgrave, absolutamente apavorada com a ideia de que ele possa voltar para pegá-la.


Durante o desenrolar do enredo, várias vítimas de Kilgrave dão as caras em cenas específicas, apresentando os diversos níveis de manipulação aos quais foram submetidos: do homem que teve de dar a ele seu paletó ao que teve que abandonar o filho na calçada para servir de motorista particular ao antagonista. Todos, por sua vez, sem importar o nível dessa submissão, têm um ponto em comum, fruto de reflexão posterior: a submissão ao controle mental acarreta em uma problematização da identidade da pessoa controlada.

Mesmo depois de admitir que não foram as culpadas pelo que foram obrigadas a fazer, pela própria natureza abstrata do poder de Kilgrave (já que ele não exerce nenhuma ameaça física para obrigar as pessoas, fazendo com que pareça que foi de livre vontade), ainda resta a dúvida: fiz isso porque fui realmente obrigado, ou esse desejo já estava em mim? Como fui capaz de fazer tal coisa?

A situação e sensação de impotência, da violação do íntimo indissociável de uma pessoa, de uma fraqueza mental elementar, é a consequência principal do controle mental erigido por Kilgrave, o que, segundo alguns, pode fazer dele um dos vilões mais assustadores do MCU até então: o medo que causa é de uma natureza mais primal. Como escreve Angelica Bastién para o Vulture:
O horror nos poderes de Kilgrave é que a destruição é íntima. Todos gostamos de acreditar que temos agência sobre nossas próprias escolhas e destino, e Kilgrave mostra o quão fácil pessoas podem perder o controle dessas ilusões que consideram tão valiosas.

A ética do truque mental

E de outro lado, temos o bom e velho truque mental Jedi. Dito funcionar apenas em seres de mente fraca, o truque consiste na utilização da Força para influenciar os pensamentos de determinado indivíduo, geralmente em benefício do usuário. Apresentado pela primeira vez por Obi-Wan "Ben" Kenobi em Mos Eisley durante o Episódio IV, tivemos a oportunidade de vê-lo utilizado algumas vezes tanto na trilogia original quanto na prequel, com uma aparição especial em O Despertar da Força.

Não que funcione sempre, é claro.
Mas agora, tendo em vista a questão Kilgrave, qual é a nova perspectiva sobre o truque mental Jedi? No final do dia, não equivale à mesma atitude do antagonista de Jessica Jones?

Pode-se argumentar, por um lado, que os Jedi usam o truque em prol do bem da Galáxia e sua prosperidade, haja visto que geralmente o usam para proteção ou para "cortar caminho" em direção a algum objetivo. E, no entanto, uma perspectiva utilitarista do controle mental ainda acaba incorrendo na mesma questão ética levantada pelo seriado da Marvel: o lado que usa o controle mental para atingir um bem maior, mesmo contando com a possibilidade das consequências de destruir a agência e noções de identidade individuais para obtê-lo, ainda pode ser considerado um lado bom?

Pois tal controle, independente de seu fim, conta com a perspectiva de desumanizar as pessoas (ou aliens, no caso de Star Wars) para usá-los como ferramentas a um fim definido, ou, por outro lado, sobrepujar suas vontades e objetivos individuais para forçosamente conseguir alguma coisa. Não que os Jedi ou o lado bom de Star Wars sempre tenha sido o bastião de justiça que se propõe a ser fora do universo expandido, por uma perspectiva mais cínica (quantos trabalhadores honestos morreram nas duas Estrelas da Morte?), mas uma análise moral mais aprofundada de ambos os lados do conflito galáctico é uma tarefa grandiosa e, digamos, precisa de bastante espaço.

Qual é, então, a ética do truque mental? E mais: qual é a sua possibilidade? Mais de um Jedi pode reunir sua Força para coletivamente induzir uma mente mais "forte" de se influenciar, como visto no desenho das Guerras Clônicas; assim, o que um Conselho de Mestres Jedi, que corriqueiramente pode se reunir com as figuras mais importantes do governo galáctico, poderiam conseguir caso quisessem? Por outro lado, quais seriam todas as guerras que poderiam evitar?

É uma perspectiva ética interessante, de averiguar até onde determinados fins justificam meios, ainda mais métodos potencialmente violadores de íntimo como um controle mental. Mesmo com uma educação filosófica e moderadora da qual antagonistas como Kilgrave carecem, é fácil ver que questões podem ser colocadas adiante em relação a abuso de poder em uma galáxia muito, muito distante. Talvez seja bom, ou talvez seja ruim, que o truque dos Jedi jamais foi tão poderoso quanto o controle do antagonista de Jessica Jones.


Bruno Alves escreve para o GeekBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.
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