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Confusões e Yaoi em Boy’s Love – Flor de Ameixeira

Conto, que poderia causar uma experiência agradável, deixa a desejar



A cultura japonesa influencia o mundo inteiro. Não só pela culinária de dar inveja ou a criação dos Pokémon. Não. Há diversos outros motivos e características orientais que influenciaram toda uma geração. Os animes e mangás não são diferentes. A cultura Yaoi, dentro dos mangás, também é grande popular e possui diversas histórias publicadas por toda a internet. O Brasil, é claro, não ficou fora disso. Prova disso é Boy’s Love – Flor de Ameixeira, publicação da Editora Draco escrito pela nacional Dana Guedes.

Para quem não sabe, o Yaoi nada mais é (de forma resumida) uma história mais apimentada e com descrição de relações sexuais. Ele é bem famoso entre os mangás nipônicos que ganharam o mundo – e também entre as fanfics dos mais diversos segmentos que estão em cada canto de nossa internet. Boy’s Love é um exemplo disso. O conto utiliza da relação de dois garotos com cena bem descritiva, caracterizando a inclusão dele na categoria Yaoi.

Gentilmente cedido pela Editora Draco à Geek Blast, nós lemos o conto e abaixo contamos o que achamos. Apesar de não contarmos o fim, o texto possui spoilers da trama.

O primeiro conto de Dana surpreende. Infelizmente, não de forma positiva. Apoiado em clichês de romances juvenis ela inicia a história como era de se esperar: o rapaz bonito e com traços femininos recém chegou a uma cidade nova. Ele não tem amigos e está acostumado a ser isolado. Seu nome é Naoki Fujimoto e ele é o equivalente a princesa que espera o príncipe encantado no ponto mais alto da torre. E ele chega, não a cavalo, mas sim com um espírito maligno.



Após o primeiro dia de aula, Fujimoto é obrigado a ir em um ritual de passagem para novos alunos. Lá os novatos e veteranos se misturam em um jogo chamado Kokkuri-san. A brincadeira simula a tábua de Ouija, mas com um papel e uma moeda. Eles invocam um espírito que passa a perseguir Fujimoto.

No meio destas poucas páginas, somos apresentados a uma grande quantidade de personagens que não serão explorados na trama. Todos eles possuem descrições pouco detalhadas, nome e sobrenome que causam confusão no leitor. Outro erro grave é a troca constante de como os personagens são chamados: ora pelo sobrenome e logo em seguida pelo nome, causando um certo desconforto e não entendimento da trama. Por vezes nos pegamos pensando: mas quem é esse?

Neste clima de correria, Takuma é apresentado. Ele é um veterano que está de olho em toda a brincadeira – embora não queira participar. Após o triste incidente envolvendo o espírito, ele se aproxima de Naoki para protegê-lo.

A trama do conto utiliza de um roteiro precário em reviravoltas. Tudo é muito fácil. Os pais de Naoki nunca estão em casa, os pais de Takuma o deixaram com o avô (que não liga se esse está ou não em casa).

Convenientemente Takuma vem de uma longa linhagem de exorcistas e sabe exatamente o que fazer para evitar que o espírito maligno acabe com a vida de Naoki.

Como se tudo isso já não fosse o bastante, o clímax do livro não possui uma trama de fundo que dê credibilidade para a história amorosa do casal. Tudo é bem forçado. Em três dias decorridos no tempo da trama, os garotos vão de total desconhecidos que nem olhares trocam para amantes. Não há clima ou envolvimento. Apenas o contato dos dois, entre um processo de proteção contra o espírito, fez Takuma tomar a iniciativa e beijar o garoto. Naoki, por sua vez, passou de desinteressado e tímido para um garoto sedento por sexo. O pior, no entanto, está na única frase dita pelos dois personagens durante todo o envolvimento: “Eu não sou gay”.

Indiferentemente a relação homo afetiva ou não e suas peculiaridades de ser possível entre "héteros" ou não, temos que considerar que o conto é vendido como uma sensível história de amor entre dois garotos que buscam o entendimento e tentam o amor entre si acima de qualquer maldição. Mas não é isso que acontece. A maldição não é impedimento. A sensível história de amor também não ocorre. É apenas um segmento sem fim de acontecimentos convenientes que os levam até a cama, onde no calor do momento declaram que não são gays, mas não se separam e fazem sexo. Por mais de uma vez. Na cama. No chuveiro.

Há ainda um incômodo pessoal na escolha do título. Flor de Ameixeira. Se o leitor não buscar informações no Google a respeito do que é essa flor, não encontrará ligação com a história. Não há menção da mesma no conto.

As páginas seguintes ao envolvimento dos dois levam ao desfecho com relação ao espírito maligno. Tudo é corrido e também utiliza de acontecimentos convenientes para dar certo. O futuro dos dois fica incerto, também não há menções se eles ficarão juntos ou não – uma vez que o conto afirma que ambos mudam muito de cidade. Terão, afinal, um final feliz? Nunca saberemos.


Quando pensada na história como um todo, vemos que ela não é ruim, porém não é bem trabalhada. Talvez pela correria das poucas páginas do conto ou pela falta de experiência da autora na época, o conto deixa muito a desejar. As influências nítidas da cultura japonesa também não ajudam o leitor. Nomes complicados e de difícil fixação não estimulam a continuidade – e as características dos personagens não são marcantes, há algo que falta.

O conto faz parte de um projeto da Editora Draco chamado Boy's Love, que tem como objetivo incentivar contos que apostam na diversidade dos personagens. O projeto é bem interessante. Mais informações a respeito podem ser consultadas no site da editora.
Diego Piovesan escreve para o GeekBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.
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