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Crítica: “Guerra do Velho” é ficção científica divertida e intensa

A primeira obra de John Scalzi publicada no Brasil é um ode aos clássicos da ficção científica.

Guerra do Velho é um livro que instiga já pelo seu tema central: um exército interestelar no qual só é possível se alistar ao ter 75 anos. Como idosos lutam contra alienígenas e outras raças avançadas? Essa é a principal motivação da trama. Com claras referências a clássicos da ficção científica como Tropas Estelares, a obra de John Scalzi é repleta de conceitos interessantes, boas cenas de ação e escrita fluida.


A trama se passa em um momento no qual a humanidade dominou as viagens interestelares e se espalhou pelo universo. O foco é John Perry, que no seu aniversário de 75 anos entra para o exército das Forças Coloniais de Defesa (FCD), um grupo responsável por proteger a Terra e conquistar novos territórios para a raça humana. Acontece que uma vez que você entra para as FCD, sua vida na Terra acaba completamente: a pessoa é dada como morta e nunca mais poderá voltar para o planeta. Não se sabe exatamente o que há lá fora no universo, contudo alguns boatos dizem que as FCD têm tecnologias avançadas capazes até de rejuvenescer humanos. Não tendo muito a perder, John decide arriscar — afinal em alguns anos ele morrer, naturalmente.
— Em toda a nossa vida, aquele foi o único lugar no qual estivemos. Todos que conhecíamos e amávamos estavam lá. E agora estamos indo embora. Vocês não sentem um negócio?
— Empolgação — Jesse falou. — E tristeza. Mas não muita.
—Certamente, não muita — disse Harry. — Não restava nada a fazer lá além de envelhecer e morrer.
—Você ainda pode morrer, sabia? Afinal, está ingressando no serviço militar — comentei.
—Sim, mas não vou morrer velho — Harry retrucou. — Vou ter uma segunda chance para morrer jovem e deixar um cadáver boa-pinta. Isso vai compensar ter perdido a oportunidade da primeira vez. (Pág. 57)
É difícil não ficar intrigado com uma premissa dessas: como a humanidade combate forças alienígenas com soldados de 75 anos de idade? E por qual motivo os recrutas precisam ter no mínimo essa idade? Meu interesse inicial foi em desvendar esses mistérios e, aos poucos, fui fisgado pela história. O ritmo foi a característica que mais gostei em Guerra do Velho. A escrita de Scalzi é simples e fluida, e toda hora aparecia algum fato novo ou interessante, o que me fazia querer ler mais e mais. Há muitas cenas de ação e todas elas são bem intensas. A experiência, no geral, é bem divertida.

Gostei, também, do universo criado pelo autor. Achei interessantíssimas as tecnologias descritas no livro, são muito impressionantes e plausíveis (dentro dos limites de ficção científica, claro). As raças alienígenas também são ótimas e bem construídas: Scalzi teve o cuidado de criar culturas para cada uma delas e o resultado é legal. Uma pena que o autor não é muito bom em descrições — eu tive dificuldade em determinar exatamente a aparência de algumas criaturas.
— Em um universo perfeito, não precisaríamos das Forças Coloniais de Defesa — Higgee afirmou. — Mas este não é um universo perfeito. E por isso as Forças Coloniais de Defesa têm três mandamentos. O primeiro é proteger as colônias humanas existentes e defendê-las de ataques e invasões. O segundo é localizar novos planetas adequados para colonização e controlá-los contra predação, colonização e invasão de raças concorrentes. O terceiro é preparar os planetas com populações nativas para a colonização humana. Como soldados das Forças Coloniais de Defesa, vocês deverão obedecer a todos os três mandamentos. Não é uma tarefa fácil, nem simples, nem limpa em diversos aspectos. Mas precisa ser feita. A sobrevivência da humanidade exige isso e nós exigiremos isso de vocês. Três quartos de vocês morrerão em dez anos. Apesar das melhorias no corpo, nas armas e na tecnologia dos soldados, essa é uma constante. Mas em seu rastro vocês deixarão o universo como um lugar onde seus filhos, os filhos de sus filhos e todos os filhos da humanidade poderão crescer e prosperar. É um custo alto, mas que vale a pena pagar. (Pág 130-131)
Um soldado da FCD enfrentando um alien da raça Consu
Infelizmente Guerra do Velho tem um defeito que me incomodou demais: é tudo muito superficial.

Isso afeta principalmente os personagens. Como é regra das FCD, todo recruta tem que ter 75 anos de idade para se alistar. Acontece que John Perry e os outros personagens têm personalidade de jovens adultos de 20 anos, com direito a piadinhas irritantes características da idade o tempo todo — não é regra que todo velho seja rabugento ou cheio de manias, mas o contrário é muito estranho. Para piorar, todo mundo tem personalidade mal desenvolvida, falam de maneira parecida (pelo jeito todo mundo é crítico e irônico no espaço) e não são nada carismáticos. Sendo assim, foi difícil me importar com alguém: os personagens morriam e eu nem ligava. Nem mesmo o protagonista, que tem algum parco desenvolvimento como personagem, se salva nesse aspecto. Eu sinto que Scalzi preferiu focar na ambientação, mas é difícil só isso sustentar bem toda a trama.

A premissa dos 75 anos de idade também é muito mal trabalhada. A explicação para esse requisito é bem básica e clichê, não me convenceu de jeito algum. Na verdade chega um momento, não muito longe na trama, que você até esquece desse detalhe da idade, principalmente por conta da combinação da personalidade dissonante dos personagens e de outros fatores, como a tal tecnologia rejuvenescedora. Eu esperava que houvesse algum tipo de conflito na história, afinal a premissa abre espaço para isso, mas infelizmente isso não é abordado. No fim das contas, tem pouco “velho” e muita “guerra” na trama.

O ritmo é bom, mas isso não significa necessariamente qualidade. A trama é simples e basicamente se resume em John indo para algum lugar e matando tudo o que aparece pela frente — curiosamente ele é um prodígio e sempre é excepcionalmente sortudo ou eficiente. Falta uma linha sólida: os fatos parecem desconexos e no final tudo parece um amontoado de pequenas histórias. Há algumas poucas tentativas de deixar as coisas um pouco mais profundas, como algumas discussões sobre ciência e genocídio, mas isso é rapidamente deixado de lado para dar espaço para mais matança. Existem alguns poucos mistérios, contudo eles têm resolução previsível e logo são resolvidos.

Destaque especial para a edição montada pela editora Aleph. O trabalho visual é muito belo e convidativo, sendo o resultado um volume que dá vontade de pegar e ter na estante. A arte de capa é belíssima e o verniz no título deixa tudo mais interessante. A diagramação interna também é ótima e conta com páginas completamente pretas que ajudam a tornar o livro mais único.

Eu me diverti com Guerra do Velho, mesmo com os vários problemas que me incomodaram — talvez minhas expectativas não tenham sido corretas. No fim das contas, ele é como um filme de ficção científica blockbuster: superficial, intenso e divertido, mas não muito memorável.

Arte: Shawn Witt
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura e Motoi Sakuraba, é apreciador de boardgames, game music, fotografia, livros e animes. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos.
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