Cinema

"Star Wars - Os Últimos Jedi": precisamos falar (mais) sobre o Episódio VIII

Motivos para você revisitar o oitavo capítulo da saga de peito aberto

Possivelmente o capítulo mais divisivo da saga, Star Wars - Os Últimos Jedi foi lançado nesta quarta-feira (28/3) em home-video e, com isso, a discussão em torno do filme volta a surgir. Como um grande admirador do longa entregue por Rian Johnson e da série como um todo, acho válido falarmos um pouco sobre os pontos mais polêmicos do Episódio VIII. (Se você ainda não viu o filme, cuidado com SPOILERS!)


Como disse em dezembro na minha crítica para o GeekBlast, não considero Os Últimos Jedi o melhor filme da saga, apesar de ter adorado grande parte das escolhas de Johnson ao subverter as expectativas já fixadas em nossas memórias quando o tema de John Williams começa a gritar no cinema.

Por outro lado, consigo facilmente entender a cabeça das pessoas que reprovaram os caminhos tomados. Poxa, uma história com mais de 40 anos, com uma estrutura fixa (ou "rimada", como diria o Criador George Lucas), precisávamos mesmo de um chacoalhão inesperado desses? Precisar, realmente, não, não precisava. Mas O Despertar da Força não recebeu críticas justamente por ser muito igual ao filme original?

A sub-trama de Finn e Rose


Finn e Rose em Canto Bight: sequência foi alvo de grande parte das críticas ao filme

Vamos começar falando do arco de Finn (John Boyega) e Rose (Kelly Marie Tran) em Canto Bight, talvez a trama mais criticada do longa. Se os dois heróis falharam, essa parte da história não poderia ser descartada? Bom, com esse argumento, podemos dizer que Indiana Jones é completamente descartável em Caçadores da Arca Perdida, já que, diversas vezes, a internet provou que o arqueólogo pouco afetou os planos dos vilões do filme de Spielberg.

Mas, assim como no primeiro filme do aventureiro, o grau de intervenção das personagens na trama geral não deve, necessariamente, ser levada em conta ao analisarmos sua importância. É a relação com Rose e os garotos obrigados a trabalhar que levam Finn a evoluir como personagem. Seu objetivo deixa de ser sua segurança pessoal - e a de Rey - e se torna o fim da guerra e da Primeira Ordem.

O ex-stormtrooper, aliás, só sai na missão com a vigia pois é o único dentro da Resistência capaz de se encontrar dentro de uma embarcação inimiga. Seu esforço, até os momentos finais no planeta-cassino, é apenas uma maneira de garantir a segurança de Rey (Daisy Ridley) e não uma ajuda real aos rebeldes. Sua tentativa camicaze na batalha final jamais aconteceria se o tal "arco desnecessário" não tivesse obrigado Finn a repensar todo o significado da guerra ou do que é "escolher um lado".

E vamos concordar: Benicio del Toro deveria ter papel garantido no Episódio IX.

Luke velho e desiludido


O próprio Mark Hamill chegou a discordar da visão de Rian Johnson para Luke Skywalker

Essa é uma discussão que se arrasta desde antes do lançamento do filme: por que o jovem esperançoso de Star Wars se tornou o amargo e isolado ilhota? Depois de tanto tempo esperando pelo retorno de Luke Skywalker (Mark Hamill), nos deparamos com um velho reclamão fechado para a Força?

Mas, será que esse destino não era um tanto óbvio? Afinal, a Força mais tirou do que deu a Luke desde antes do seu nascimento: foi por causa de seu poder que Anakin se tornou Darth Vader, foi por medo dela que Owen e Beru o mantiveram isolado em Tatooine até suas mortes e foram as consequências de seu aprendizado com Obi-Wan (sir Alec Guiness) e Yoda (Frank Oz) que o transformaram em mais uma peça na guerra civil que assolava a galáxia desde a época da República.

Perder outro ente querido para o Lado Negro - e um tão próximo - foi apenas a gota d'água para que o Jedi percebesse que o mal sempre ressurgiria, independentemente da existência da Ordem. Sendo ele o então último ponto luminoso na balança, se fechar para a Força parece o caminho mais óbvio na tentativa de que a própria natureza reequilibrasse o universo. Afinal, sem um Jedi, qual seria o propósito de um Sith?

Carrie Poppins


Carrie Fisher em um dos momentos mais infames do Episódio VIII

Sou obrigado a concordar com os pessimistas: aqui, Rian Johnson pisou na bola. Não por mostrar a conexão de Leia (Carrie Fisher) com a Força, mas sim pela maneira como ele escolheu fazê-lo. A hesitação de Kylo Ren (Adam Driver) ao se deparar com a iminência de atirar na própria mãe é um dos momentos mais fortes do filme, mas a cena seguinte, em que a General flutua no espaço para se salvar, foi o bastante para me desprender de um filme que, até então, vinha sendo uma experiência emocionante naquela noite de pré-estreia.

Se Johnson quisesse manter o mesmo acontecimento sem perder o público, um diferente jogo de câmera, focando talvez apenas nas mãos de Leia, ou mesmo na visão daqueles que estavam dentro da nave, o peso seria maior e o efeito cômico não-intencional, inexistente. O momento da "Leia Voadora" ou "Carrie Poppins" foi, provavelmente, o ponto de virada para muitos espectadores que, com certa razão, não conseguiram não se lembrar da trilogia prólogo.


O fim do "legado"


A questão dos pais de Rey foi vista como anti-climática para muitos fãs

No Star Wars original, Luke era um garoto comum que, por sorte do destino, acabou jogado no meio de um confronto de mais de duas décadas, conhecendo a Força e os poderes que ela pode conferir àqueles que a dominam.

Com O Império Contra-Ataca e, principalmente, a mediana Trilogia Prólogo, midi-clorians, linhagem e até mesmo aptidão acadêmica afetavam quem poderia ou não se tornar um lendário Mestre Jedi. E é aí que entra Rey: vinda de um planeta desértico e isolado, ela descobre sua conexão com a Força quando é colocada contra o Lado Negro.

A linhagem de Rey, ou melhor, a falta dela, recupera o misticismo que existia 40 anos atrás por trás da Força. Sem midi-clorians, sem tranças e, especialmente, sem a ideia de um "escolhido", Os Últimos Jedi lembrou que a Força está em todos, assim como o encantamento por trás de seus poderes.

Vilões "desperdiçados"

Não, o passado de Snoke não era essencial para a história
De modo geral, essa trilogia sequência tinha 4 vilões, pelo que era divulgado nos materiais promocionais. Kylo Ren, General Hux (Domhnall Gleeson) e Capitã Phasma (Gwendoline Christie), liderados das sombras pelo Supremo Líder Snoke (Andy Serkis). Em Os Últimos Jedi, dois desses personagens foram eliminados, enquanto outro entra no hall dos grandes vilões do cinema atual.

Falar de Kylo aqui seria me repetir, tendo em vista que deixei minha opinião sobre sua evolução bem clara na minha crítica, linkada no começo do texto. Por outro lado, os destinos de Snoke e Phasma não podem ficar fora desta discussão.

Depois de muitas teorias, árvores genealógicas sem sentido e muitos debates, o líder da Primeira Ordem deu adeus sem que sua origem fosse revelada. Mesmo assim, seu tempo em tela foi o bastante para não só eliminar o que restava da Rebelião mas também para liberar o potencial monstruoso que Ren se recusava expor. Ele manipulou ambos os lados da guerra... Como o Imperador na Trilogia Original. Coincidência ou não, Palpatine só teve seu passado detalhado duas décadas depois de sua morte em tela, com A Ameaça Fantasma. Mas, assim como Darth Sidious antes dele, Snoke cumpriu seu papel na saga sem precisar mostrar um "pedigree" e não há nada de errado nisso. 

Mas e quanto a Phasma?

Finn e Phasma: rivalidade desperdiçada

Com seu visual único, Capitã Phasma tinha tudo para ser o Boba Fett da nova geração (no bom sentido). Infelizmente, ela acabou se tornando exatamente o que foi o caçador de recompensas nos episódios V e VI: um inimigo fraco e facilmente eliminável. 

A aparente morte da personagem no combate contra Finn representa uma dupla derrota para a nova trilogia: além de perdermos uma personagem com potencial para tornar o arco do ex-stormtrooper ainda mais interessante, Rian Johnson também dispensou a ótima atriz que é Gwendoline Christie. Carismática, a britânica poderia ter ainda mais espaço em tela se o diretor tivesse um pouco mais de visão a longo prazo.

Humor em excesso?


Se você não quer um porg de estimação, seu coração é mais gelado que Hoth

Em dezembro, reclamei que um pouco do excesso de piadas no roteiro, algo que, naquele momento, me incomodou. Revendo o filme quatro meses depois, sou obrigado a voltar atrás. Vi e revi os outros e filmes da saga e, se compararmos o longa de 2017 com seus antecessores, percebemos que o humor é justamente o único campo em que Johnson não mexeu demais.

A estrutura é basicamente a mesma dos outros sete episódios, com as grandes risadas sendo gastas nos momentos iniciais do filme, enquanto pequenos alívios cômicos são colocados no clímax (um porg grudado na janela é realmente tão diferente de um Vader sem controle da própria nave em plena batalha de Yavin?).

Rever o Episódio VIII com peito e com mente abertos, especialmente agora que comentários e extras estão disponíveis, pode ser uma experiência completamente diferente do que foi ao assistir o filme pela primeira vez. Se você, como eu, gostou do longa, ouça cada uma das críticas mais pesadas feitas contra Os Últimos Jedi.  Caso seja daqueles que assinaram a petição para retirar a obra do cânone oficial, aproveite para fazer o caminho inverso e procure entender a beleza encontrada pelos que se apaixonaram pelo novo capítulo da história da galáxia muito, muito distante.
Nicolaos Garófalo escreve para o GeekBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.
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