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Anime & Folclore: Youkai

Seres espirituais, místicos e de índole variável, os youkai são muito importantes para a cultura japonesa e têm presença marcante nos animes, mangás e filmes.


Demorou, mas estamos aqui com o próximo post da série sobre as influências folclóricas por trás dos animes, mangás e demais obras da cultura pop japonesa. Hoje, falaremos sobre um tipo de ser mencionado com frequência, mas de conceito amplo e de difícil definição exata: os youkai.


Monstro, demônio, espírito: são várias as formas que “youkai” costuma ser traduzido. Eles podem ser horripilantes, se assemelhar a animais ou ainda ter forma humana. Podem ser malignos, perigosos ou até atrair sorte a quem os testemunha. Pode-se entendê-los, assim, como seres místicos e diversos presentes no folclore japonês.

Inugami (1736), de Sawaki Suushi

Alguns estão essencialmente ligados à natureza, especialmente florestas e montanhas. É o caso do kodama, espíritos de árvores antigas e sagradas. Já youkai como o ningyo, sereias e tritões japoneses, é relacionado à água. Alguns são típicos de áreas rurais, como a sunakake-babaa, uma velha que joga areia em pessoas que vagam em florestas solitárias. Outros, como o hitotsume-kozou, um garoto travesso com uma perna e um olho gigante, vagam por cidades. E ainda há aqueles que se manifestam na própria casa das pessoas, como o yanari, que provoca sons misteriosos pela noite.

Para o pesquisador Michael Dylan Foster em seu livro Pandemonium and Parade: Japanese Monsters and the Culture of Yokai (“Pandemônio e Passeata: Monstros Japoneses e a Cultura do Yokai”, em tradução livre), youkai não é apenas uma palavra de significado amplo. Em diferentes períodos da história japonesa, ela possui um teor diferente. Dessa forma, entender o significado do youkai em uma época é uma forma de compreendê-la.

Umibouzu (1985), de Shigeru Mizuki

O autor destaca quatro momentos em que os discursos a respeito de youkai se distinguiram. Primeiramente, durante o período Edo ou Tokugawa (1603 - 1867) foram feitas enciclopédias sérias catalogando os seres. Em seguida, no período Meiji (1868 - 1912), houve grande influência da ciência ocidental, abalando as crenças populares. No terceiro momento, até os anos 30, os youkai passaram a ser ressignificados como símbolos da cultura nacional, servindo como uma espécie de zona de conforto para os japoneses que acompanhavam a rápida modernização de seu país. Por último, no pós-Segunda Guerra, houve a inserção dos youkai na cultura pop japonesa.

Youkai na cultura pop


Wauwau (1736), de Sawaki Suushi

Existem muitos animes, mangás e filmes que, de alguma forma, fazem menção a youkai. Em alguns casos, eles têm até papel de destaque na narrativa. Aqui, focaremos em obras que abordem o tema “youkai” como um todo.

Os youkai têm servido de muita inspiração para filmes de terror japoneses. Um deles é As 4 Faces do Medo (Kwaidan, 1964), que, como o título indica, conta quatro histórias baseadas em lendas antigas japonesas.


Um dos principais marcos no retrato de youkai nos animes, mangás e literatura está em Shigeru Mizuki, autor de Kappa no Sanpei (1961), Akuma-kun (1963), GeGeGe no Kitarou (1965) e muitos outros mangás sobre o tema. GeGeGe no Kitarou, por sinal, recebeu uma nova adaptação para anime em 2018. A história fala sobre as complexas relações entre humanos e youkai.



Misturando comédia, terror e muita bizarrice, Hausu (1977) é um filme bastante peculiar. Na história, uma colegial e suas amigas vão para a casa de sua tia no interior. No entanto, ao chegar lá, elas descobrem que há algo de muito estranho no local.

PomPoko: A Grande Batalha dos Guaxinins (1994) é protagonizado por um grupo de tanuki, mas possui referências a demais youkai. Na história, o crescimento de Tóquio ameaça o grupo de seres mágicos. Assim, eles usam seus poderes para tentar afastar os humanos.


Outro clássico a retratar esses seres é InuYasha (1996). Escrito e desenhado por Rumiko Takahashi, a história é sobre uma adolescente que vai parar no Japão do passado, onde youkai aterrorizam a população. O anime fez bastante sucesso no Brasil ao ser exibido pelo Cartoon Network no começo dos anos 2000.


Clássico do Ghibli, Princesa Mononoke (1997) relaciona a natureza à espiritualidade. Os humanos, com seu belicismo, falham em ver o valor do meio ambiente e destroem tudo em sua ambição por poder. No meio dessa guerra, está a jovem San, humana criada por uma loba, e Ashitaka, um príncipe amaldiçoado por um youkai.



Do grupo CLAMP, mesmo criador de Sakura Card Captors, xxxHOLIC (2003) conta a história de Watanuki, um adolescente que entra em diversos apuros por atrair youkai. Para se livrar da maldição, ele faz um acordo com a bruxa Yuuko trabalhando em sua loja. Watanuki, assim, se envolve com os clientes e assuntos do mundo sobrenatural. Enquanto o mangá realiza crossover com Tsubasa: RESERVoir CHRoNiCLE, o anime, produzido em 2006 pelo Production I.G. e exibido no Brasil pelo Animax, é independente.

Para quem prefere algo mais tranquilo, Natsume Yuujinchou (2003) conta uma série de histórias singelas e sensíveis sobre um garoto que tem a maldição/dom de ver youkai. Atormentado desde a infância por visões incompreendidas pelo resto da sociedade, Natsume aprende a se aceitar e encontrar seu próprio lugar no mundo. O mangá é de Yuki Midorikawa e o anime, até o momento com seis temporadas, pode ser assistido no Crunchyroll.


O shoujo Kakuriyo no Yadomeshi (2016) traz uma versão diferente dos youkai. A jovem Aoi, que pode ver essas criaturas, descobre que precisa casar-se com um deles devido a uma dívida de seu avô. Ela se recusa e, assim, decide trabalhar para pagar a dívida. Uma adaptação para anime pelo estúdio Gonzo encontra-se em exibição.


Fontes: FOSTER, Michael Dylan. Pandemonium and Parade: japanese monsters and the culture of yokai. 2009.
FOSTER, Michael Dylan. The Book of Yokai: mysterious creatures of japanese folklore. 2015.
MEYER, Matthew. The Night Parade of One Hundred Demons: a field guide to japanese yokai. 2015.
Pedro Melo escreve para o GeekBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.
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