"O Lugar Prometido em Nossa Juventude" (2004) apenas promete

Filme falha em amarrar romance e ficção científica, resultando numa animação confusa edesinteressante

Serei sincero: não sou um grande fã de Makoto Shinkai. Sim, ele tem talento. Kimi no Na wa. é um grande filme e O Jardim das Palavras possui uma sensibilidade visual que pouco se encontra. No entanto, por diversos motivos, vejo que há muito a melhorar em suas obras.


Mas, isso não significa que eu não esteja disposto a dar sempre novas chances para me impressionar com o trabalho daquele que era (erroneamente) vendido pela mídia como o “novo Miyazaki” (apesar de serem mínimas as semelhanças entre as obras dos dois diretores). E, foi assim que cheguei em O Lugar Prometido em Nossa Juventude.


No título original, Kumo no Mukou, Yakusoku no Basho, ou, como também é conhecido em inglês, The Place Promised in Our Early Days, é um filme que mistura ficção científica, território não tão explorado por Shinkai, e romance, esse sim já exaustivamente abordado pelo diretor.

A história se passa em um mundo distópico, onde o Japão foi dividido após uma guerra. Seguindo essa cisão, uma enorme torre foi erguida na ilha anteriormente conhecida como Hokkaido. É essa torre alvo de um fascínio quase obsessivo de três estudantes: Hiroki, Takuya e Sayuri.


Querendo descobrir o que há nela, o trio decide construir um avião para voar até lá. No entanto, Sayuri desaparece misteriosamente. E, assim, os garotos seguem suas vidas com um vazio a ser preenchido.

Apesar de minha antipatia com Shinkai, eu mantive uma expectativa minimamente positiva com esse filme. Afinal, a premissa era bastante interessante e poderia me provar como o diretor era capaz de contar histórias surpreendentes e criativas, e não apenas melodramas juvenis.


Infelizmente, eu não poderia estar mais enganado.

O Lugar Prometido em Nossa Juventude é uma verdadeira bagunça animada. Ao misturar gêneros tão distintos, o roteiro de Shinkai não soube costurá-los de forma coesa, bordando uma colcha de retalhos onde nenhuma das partes é desenvolvida de forma plena. O resultado é um punhado de cenas rasas e abruptas.


Nos primeiros (longos) minutos, o filme se dedica a contar sobre como a garota entrou no grupo. O contexto da sociedade em que vivem é explicado de modo rápido, sendo o foco numa narrativa lenta e cotidiana bastante semelhante a outras obras do diretor. Há ainda uma ênfase estética, outra marca de Shinkai, com os diálogos sussurrados sendo superficiais e pouco indicativos da personalidade dos envolvidos.

Após isso, temos um salto temporal e o filme só desce ladeira abaixo. Construídos de forma apática, os garotos crescem e sequer conseguimos identificá-los. São jogados acontecimentos de difícil compreensão por não termos sido introduzidos de modo claro e detalhado a seu mundo. Acompanhamos seu clímax apaticamente e sem compreender plenamente o que de fato está acontecendo.


Outro problema que senti foram os diálogos. Shinkai adota um estilo melodramático que menospreza a sensibilidade de quem assisti. Ao invés de permitir que nós vejamos o protagonista em sua vida e sintamos sua melancolia, ele opta por verbalizar tudo. “Sinto um vazio”, “Não me sinto feliz”, entre outras falas desnecessárias quando o melhor seria mostrar, não dizer. Além disso, há um excesso de falas baixas ou sussurradas, como se o diretor quisesse desesperadamente passar a ideia de introspecção e profundidade. Mas, sem um conteúdo rico nesses diálogos, sobra apenas a pretensão. Em O Jardim das Palavras, o diretor soube conduzir o sentimentalismo de modo sutil e sensível, mas não é o que vemos aqui.

Para não dizer que tudo é um desastre, este é um filme visualmente muito bonito. Basta olhar as imagens utilizadas para ilustrar o artigo. Não foi difícil encontrar prints bonitos. Shinkai é um mestre no que diz respeito a estética e, dos enquadramentos às cores, sabe perfeitamente como fazer filmes onde cada frame exala minuciosidade. Os personagens possuem um estilo um tanto grosseiro, como visto em Cinco Centímetros por Segundo, mas os cenários são lindos, cheios de detalhes e com um perfeccionismo que dá uma aura quase estéril a eles. Não que eu ache que assisti-lo valeria apenas por isso - há dezenas de filmes esteticamente lindos e melhores por aí - mas, ver imagens bonitas ajuda naqueles momentos quando você não aguenta mais ler sussurros pretensiosos ou exposições confusas.


Em suma, achei O Lugar Prometido em Nossa Juventude um filme simplesmente ruim. Ele falha em absolutamente tudo que se propõe e, com exceção dos cenários, não há nada que se salve. Mesmo a estética não é o bastante para torná-lo algo prazeroso de ser assistido. Recomendo só para quem for muito fã do Shinkai e quiser conhecer seu trabalho anterior ou estiver procurando desenho bonito pra usar de papel de parede.

Ficha Técnica

Título: O Lugar Prometido em Nossa Juventude
Título original: Kumo no Mukou, Yakusoku no Basho
Diretor: Makoto Shinkai
Ano: 2004
Estúdio: CoMix Wave Films (Kimi no Na wa., Cinco Centímetros por Segundo, O Jardim das Palavras)
Duração: 1h30
Gênero: Drama, Militar, Romance, Ficção Científica
Classificação etária: 12 anos
Obra original

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