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Artigo: Lélia Gonzalez – pioneira do feminismo negro no Brasil e referência de Angela Davis

Lélia buscava desconstruir o mito de democracia racial no Brasil, revelando as representações estereotipadas que os negros estão sujeitos na sociedade

Pois, é minha gente, precisou vir uma mulher lá dos EUA para nos lembrar que já temos uma representante porreta do feminismo negro no nosso país. E não parou por aí, ainda falou que o conhecimento dessa mulher brilhante era superior ao dela, logo precisamos aprender a valorizar mais a sabedoria do nosso povo e cultura.

"Eu me sinto estranha quando sinto que estou sendo escolhida para representar o feminismo negro. E por que aqui no Brasil vocês precisam buscar essa referência nos Estados Unidos? Eu acho que aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês poderiam aprender comigo", falou a Angela Davis durante o seminário Democracia em Colapso em 2019.

Quem foi Lélia Gonzalez???

Historiadora, antropóloga, filósofa e professora, uma das primeiras intelectuais a pensar a conexão entre racismo e sexismo na sociedade brasileira. Acha pouco? Pois, não parou por aí.

Também atuou ativamente nas articulações do movimento negro e feminista, e no enfrentamento da ditadura militar nos anos 1970 e 1980.

Lélia nasceu na cidade de Belo Horizonte em 1935, foi a penúltima de 18 filhos. O pai, um ferroviário negro, morreu cedo. A mãe uma descente de indígenas conseguiu que os patrões investissem no estudo da filha, que desde muito nova mostrou interesse pela literatura. Afinal, estudar significa expandir seus horizontes, para qualquer pessoa, de qualquer origem.

Na década de 1950 Lélia consegue ingressar na universidade, se forma em história e filosofia e começa a trabalhar como professora em escolas no Rio de Janeiro. No entanto, durante seus estudos Lélia passa por um processo de embranquecimento.


“Fiz escola primária, e passei por aquele processo que eu chamo de lavagem cerebral, dado pelo discurso pedagógico brasileiro... Na faculdade eu já era uma pessoa de cuca, já embranquecida, dentro do sistema. Eu fiz filosofia e história e a partir daí começaram as contradições.”-- escreveu Lélia.

Em 1964 a historiadora se casa com Luiz Carlos Gonzalez, cuja família não aceita a relação inter-racial. Em função da pressão familiar e por não suportar o conflito que seu relacionamento provocou, Luiz se suicida. Esse episódio, bem como o contato o com os pensamentos de Lacan e Freud, foram base para seu interesse político pelas questões de raça e gênero.

A dor transformada em luta

Com outras lideranças negras a filósofa funda importantes movimentos de base nos anos 1970 e 1980, como o Movimento Negro Unificado (MNU) e N’Zinga (Coletivo de Mulheres Negras) no Rio de Janeiro. Nesse mesmo período conhece várias lideranças internacionais, como Angela Davis, sendo a primeira mulher negra a sair do Brasil como representante do movimento negro.

Em julho de 1978, quando ainda não havia acontecido a anistia, Abdias do Nascimento retorna ao Brasil e encontra o movimento negro organizando um grande ato público nas escadarias do teatro municipal em São Paulo, nessa oportunidade protestaram contra as diversas situações de racismo, articulações que deram origem ao Movimento Negro Unificado. Manifestações apresentadas no documentário AmarElo: é tudo pra ontem do Emicida, disponível na Netflix.

“Estamos aí numa batalha violenta no sentido de conquistar um espaço para o negro na realidade brasileira, e o que eu tenho percebido é uma tentativa por parte das esquerdas em geral de reduzir a questão do negro a uma questão meramente econômico-social.” Lélia Gonzalez.

A produção intelectual de Lélia buscava desconstruir o mito de democracia racial no Brasil, revelando as representações estereotipadas que os negros são submetidos na sociedade.

Lélia era muito mais exigente com o homem negro, o militante negro e sobre a violência do homem negro. Ou seja, a reprodução da violência pelo oprimido, o homem negro, contra a mulher negra. Afinal, até então não se falava sobre feminismo negro, nem sobre a questão da violência contra a mulher negra.

“Nós queríamos que esse recorte da mulher negra com toda a sua plenitude fosse trabalhado. A grande discussão do momento era ‘meu corpo me pertence’. E o corpo da mulher da comunidade era um corpo que tinha que ir para a fila para pegar água de madrugada.

As contribuições de Lélia Gonzalez estão no fato de sermos intelectualmente respeitadas como militantes, a compreensão das nossas complexidades e o entendimento das diferentes escolhas políticas entre as mulheres.

“Agora me parece, pelo que eu vi na África, pelo que eu vi nos EUA, pela transação que eu tive com o pessoal do Caribe... me parece que o Brasil tem um papel, assim, importantíssimo, nessa síntese de uma visão africana e de diáspora.” -- Lélia Gonzalez

Lélia organizou um encontro internacional, a Conferência Internacional sobre Negritude, Identidade e Culturas Africanas, Universidade Internacional da Flórida (FIU), EUA, 1987. Onde no decorrer de 3 dias mais de 1200 pessoas participaram de debates intensos. Oportunidade que Lélia apresentou suas ideias de uma maneira mais compreensível, sobre a luta contra o racismo e o papel da mulher negra não somente no Brasil, mas em todo o mundo.

Lélia Gonzalez acreditava que ao acessar oportunidades na política, entrar no congresso, sua voz teria uma inserção maior, do que como acadêmica e professora.

Lélia morreu na sua casa no Cosme Velho, Rio de Janeiro, em decorrência de um infarto em 1994, desde então seu trabalho vem sendo resgatado e lembrado por pesquisadoras e militantes que enfatizam seu pioneirismo e originalidade.


Kika Ernane, Karina no RG, e sou multitasking (agora que aprendi o significado do termo segura). Uma mulher como muitas da minha geração, que ainda não descobriram como aproveitar a liberdade que lutaram tanto para conseguir. Muito menos administrar todas as tecnologias disponíveis. Enfim, estou sempre aprendendo.


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