Sinopse: Nessa divertida releitura da clássica história da Cinderela, Elvira luta contra sua linda meia-irmã em um reino onde a beleza suprema reina. Ela recorre a medidas extremas para cativar o príncipe, em meio a uma competição implacável pela perfeição física.Os contos de fadas são narrativas moralistas criadas para doutrinar meninas. Dito isso, A Meia-irmã Feia é um filme de terror que faz uma forte crítica social ao mostrar, de forma assustadora, como meninas são estimuladas desde cedo a transformar seus corpos para serem desejadas e conquistarem um bom partido. Em contrapartida, homens seguem livres para ser o que quiserem; no roteiro de Emilie Blichfeldt nem a ideia de príncipe escapa ilesa.
Embora o filme se passe em um passado longínquo, muitas das ações desesperadas tomadas pela protagonista Elvira, Lea Myren, ainda fazem parte da realidade de mulheres e garotas ao redor do mundo, inclusive no Brasil. Quantas harmonizações faciais desastrosas conseguimos listar?
Os contos nunca foram de fadas
Elvira, Lea Myren, é uma garota comum que deseja ser amada, por isso aceita fazer o que for necessário para encontrar um bom partido, um homem com posses capaz de tirar sua família da miséria, que é consequência das escolhas equivocadas de seu pai.Como o filme se passa numa época em que mulheres não eram donas da própria vida, uma época em que o casamento era tratado como um contrato e não existia a ideia de casamento por amor — uma invenção do capitalismo para fazer as pessoas trabalharem pesado sem questionar — não vou levar o texto para esse lado porque não estou escrevendo uma tese. Embora seja possível fazer uma análise detalhada devido às múltiplas camadas do filme, vou me concentrar nas ações de Elvira para se tornar mais desejável e salvar sua família da miséria, já que sua mãe teve dois contratos que foram verdadeiras bombas.
Em A Meia-irmã Feia, não temos uma Cinderela boazinha, já que todos os personagens do filme são pessoas péssimas: egoístas e capazes de atitudes discutíveis. Agnes, interpretada por Thea Sofie Loch Næss, se fosse uma personagem de comédia adolescente estadunidense, certamente seria a garota que faz bullying com as demais por não serem tão belas quanto ela. A vida prega uma rasteira nessa versão maldosa da Cinderela. Entretanto, mesmo com o infortúnio, sua beleza abre muitas portas, e ela sabe muito bem como usar esse recurso para benefício próprio.
Enquanto isso, Elvira, Lea Myren, submete-se aos piores procedimentos de beleza da época para transformar-se em uma mulher atraente ao príncipe ou a qualquer outro homem que pudesse resgatar a família da miséria. Assim, nos 109 minutos do filme, você acompanha todo o sofrimento e tortura que a garota enfrenta. A propósito, em alguns momentos, A Meia-irmã Feia me lembrou o filme A Substância, acredito que a semelhança está no fato de terem a mesma temática: mulheres que se sujeitam a procedimentos estéticos absurdos para serem belas e escolhidas.
A espetacularização da busca pela beleza
Os padrões de beleza são construídos para serem inatingíveis, pois quando você pensa que as coisas vão começar a melhorar: como a ascensão de movimentos como o body positive e valorização do cabelo natural, as regras mudam, e uma avalanche de novos procedimentos estéticos invade nossas timelines, criando novos padrões de beleza.Um ótimo exemplo desse efeito manada ao falarmos sobre procedimentos estéticos foi o boom da harmonização facial, que criou um exército de homens com o maxilar quadrado. Fenômeno que ganhou o apelido de “demonização facial” nas redes sociais, com muitas pessoas revertendo o procedimento por não obterem o resultado desejado.
Quando lembramos que pessoas diariamente têm seus corpos mutilados em busca de um ideal de beleza inatingível, pois o que é belo hoje pode não ser amanhã, o filme A Meia-irmã Feia torna-se uma verdadeira história de terror ao refletir sobre essa busca.
A Meia-irmã Feia é um filme que causa desconforto em muitos momentos, com sua narrativa crua sobre uma questão que a sociedade não consegue superar. Longe disso, novas formas de aprisionamento são criadas todos os dias. O que aterroriza não são as cenas escritas para assustar, mas perceber que essas estratégias seguem sendo replicadas e atualizadas, agora com mais tecnologia.
Ficha Técnica
Título: A Meia-irmã FeiaTítulo original: Den stygge stesøsteren
País: Noruega / Dinamarca / Romênia / Polônia
Data de estreia: 23 de outubro de 2025
Gênero: Terror
Duração: 109 minutos
Classificação: 18 anos
Distribuidora: Mares Filmes
Direção: Emilie Blichfeldt
Elenco: Lea Myren, Ane Dahl Torp, Thea Sofie Loch Næss, Flo Fargeli e Isac Calmroth.






