Cinema

Crítica: A Pequena Amélie - animação colorida que reflete sobre o sentido de existência e perdas

A Pequena Amélie, filme que que estreou dia 12 de março nos cinemas, é narrativa lúdica e colorida sobre existência e perdas ao longo da vida


A Pequena Amélie
, que estreou dia 12 de março nos cinemas, é uma animação que utiliza recursos narrativos, como cenários coloridos, jardins de contos de fadas e personagens profundamente feridos, para contar a história da pequena Amélie, uma garotinha que passou a maior parte da sua vida sem existir.

Sinopse

O mundo é um mistério desconcertante e tranquilo para Amélie, uma garotinha belga nascida no Japão. À medida que desenvolve um profundo apego à governanta de sua família, Nishio-san, Amélie descobre as maravilhas da natureza, bem como as verdades emocionais ocultas sob a superfície da vida idílica de sua família como estrangeiros na Terra do Sol Nascente.
Ainda que a história se passe 30 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, a narrativa apresenta personagens que carregam feridas e consequências desse conflito, além de abordar um tema tabu e muito difícil de ser trabalhado: o autoextermínio infantil. Esse tema é desenvolvido de forma lúdica a partir da percepção de mundo de Amélie, que narra toda a sua história a partir de sua percepção de mundo.


O impacto da ausência

Amélie é uma garotinha que passou a maior parte da vida não existindo. Calma, vou explicar melhor: apesar de estar ali, sendo um membro da família, ela não interagia com pessoas, animais ou objetos. Era como se ela vivesse presa em sua própria mente enquanto o tempo passava e os demais criavam memórias.

Até que, um dia, desperta e, a partir desse momento, é como se ficasse repleta de vida. Movida por essa existência, a garotinha começa a explorar o mundo que sempre esteve ao seu redor, mas que ainda não conhecia, visto que, durante toda a vida, ela esteve em modo de espera e então começou a funcionar (por causa de um evento). Mas Amélie passa a existir em modo turbo.

Conforme Amélie começa a viver, explorar a natureza que cerca sua casa e conhecer pessoas, percebe que não é o centro do mundo, que este é muito maior que seus olhos conseguem alcançar. Entretanto, no processo de viver, também começa a encarar as primeiras perdas.


A dualidade da vida

Ainda que o mundo seja lindo, incrível e colorido, que entrega a chuva e o calor do sol, ele também leva coisas e pessoas. Assim como a chuva, as pessoas vêm, se espalham e vão embora. Algumas são passageiras; outras, tempestades ou chuva de verão, mas sempre vêm e vão.

Como eu já disse, apesar do visual colorido e lúdico, o filme trata de uma temática muito pesada, o autoextermínio no contexto da infância. Se o suicídio já é um assunto tabu na sociedade quando falamos de pessoas adultas e ainda não aprendemos como lidar, imagina refletir sobre crianças que querem deixar de existir ou considerar que isso é uma possibilidade. Como tocar nesse assunto? Por meio de uma personagem carismática que começa a questionar, investigar, sentir, viver e experimentar a vida.

Amélie é uma garotinha que veio ao mundo de uma forma diferente, que sempre se comportou de uma forma diferente e as pessoas durante muito tempo não souberam como lidar com ela. Porque durante a maior parte da sua vida, Amélie simplesmente não viveu, ela só estava lá. E como lidar com as perdas sendo uma pessoa com tão pouco repertório de vida?

Enfim, o filme A Pequena Amélie utiliza cenários de contos de fadas e personagens que sofrem grandes perdas ao longo da vida, para apresentar um assunto muito difícil e desconfortável, sem julgamento, que precisamos debater. Precisamos começar a falar sobre assuntos difíceis e desconfortáveis, para que sejam tratados com a seriedade necessária e solucionados da melhor forma.


Ficha Técnica

Título: A Pequena Amélie
Título original: Amélie et la métaphysique des tubes
País: França, Bélgica
Data de estreia: 12 de março de 2026
Gênero: Animação
Duração: 78 minutos
Classificação: 6 anos
Distribuidora: Mares Filmes
Direção: Maïlys Vallade e Liane-Cho Han Jin Kuang
Elenco: Loïse Charpentier, Victoria Grosbois e Isaac Schoumsky

Kika Ernane, Karina no RG, e sou multitasking (agora que aprendi o significado do termo segura). Uma mulher como muitas da minha geração, que ainda não descobriram como aproveitar a liberdade que lutaram tanto para conseguir. Muito menos administrar todas as tecnologias disponíveis. Enfim, estou sempre aprendendo.


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