Embora eu não assine a Folha, a notícia logo se espalhou por réplicas em diversos sites e no Twitter. Consequentemente, consegui entender os detalhes dessa manobra que está gerando revolta. O que parecia apenas um erro de programação revelou-se, na verdade, uma estratégia deliberada para cumprir metas legais sem entregar público real.
O que é a Cota de Tela?
A "cota de tela" funciona como uma regra que obriga os cinemas a exibirem uma quantidade mínima de filmes nacionais anualmente. O governo federal criou essa medida para garantir espaço às produções brasileiras, já que os grandes estúdios estrangeiros dominam quase todo o mercado. Portanto, a regra tenta equilibrar a disputa contra gigantes como Disney e Warner.
Atualmente, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) fiscaliza e regula essa obrigação em todo o território nacional. Enquanto os defensores afirmam que a lei fortalece a cultura local, os críticos alegam que ela interfere na liberdade das empresas. No entanto, o foco central da medida sempre foi fomentar a nossa própria indústria audiovisual.
A estratégia da Cinemark
Ao programar mais de 17 mil sessões de Zuzubalândia em 2026, a Cinemark registrou a pífia média de 0,1 espectador por sala. Assim, a rede transformou um incentivo cultural em um mero exercício matemático para bater metas no papel. É evidente que essas exibições não visavam alcançar pessoas, mas apenas preencher tabelas de porcentagem.
Essa manobra esvazia completamente o espírito da legislação vigente. Apesar de a rede alegar que as sessões integram o "Projeto Escola", os horários de exibição e a falta de divulgação provam o contrário. Exibir filmes nacionais em salas vazias, apenas para cumprir requisitos técnicos, sabota qualquer chance de sucesso comercial para o cinema brasileiro.
Além disso, a curta duração de Zuzubalândia — apenas uma hora — facilita a alta rotatividade das salas. Como o filme termina rápido, a rede consegue realizar o dobro de sessões em comparação a longas normais sem atrapalhar os blockbusters estrangeiros. Para completar, o contrato de exclusividade garante que a Cinemark abocanhe 70% da bilheteria líquida.
A resposta da Ancine e o cenário atual
Após a repercussão negativa, a Ancine atualizou as regras da Cota de Tela para coibir esses abusos e valorizar o horário nobre. Agora, a norma oferece incentivos para quem exibir filmes nacionais após as 17h, tentando garantir que o público realmente encontre as obras. Todavia, na prática, ainda vemos as produções brasileiras escondidas em horários marginais, como às 11h30 aqui em Niterói.
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| Rede Cinemark com o filme brasileiro Velhos Bandidos. Mesmo horário que estava o filme denunciado Zuzubalândia. |
É impressionante como certas empresas se esforçam para driblar leis e explorar brechas financeiras de forma tão descarada. Mesmo quando são pegas "com a boca da botija", raramente apresentam explicações convincentes, preferindo se esconder atrás de justificativas técnicas. Infelizmente, esse comportamento reflete uma resistência histórica em construir um mercado audiovisual que seja realmente equilibrado e honesto.
A corrupção no sangue?
Olhando para casos assim, percebo que a corrupção parece algo intrínseco, correndo quase como sangue nas veias de muitas empresas e até de parte do povo. Existe uma fixação doentia em "levar vantagem", transformando qualquer política pública em uma oportunidade para trapaça. É desolador ver como o talento para distorcer regras é maior do que a vontade de fazer o sistema funcionar.
Infelizmente, é assim que o Brasil opera na maioria das vezes, priorizando o jeitinho em vez da ética. Diante de tantas "safadezas" e manobras obscuras que surgem todos os dias, eu sinceramente me pergunto como este país ainda consegue se manter vivo. Parece que sobrevivemos apesar de nós mesmos, carregando o peso de uma cultura que sabota o próprio crescimento.
Fontes: CNN, Adoro Cinema.




