Animes

E se seu terapeuta fosse um personagem de anime? Cientista cria método para ajudar jovens

Cientista italiano cria “terapia de anime”, usando personagens, mangás e ficção para ajudar jovens a se abrir durante sessões.


Método desenvolvido pelo cientista italiano Francesco Pantò utiliza animes, mangás e personagens virtuais como ferramentas para facilitar a comunicação durante sessões de terapia E se, em vez de sentar diante de um terapeuta tradicional, você encontrasse na tela um personagem de anime para conversar sobre seus problemas?


Parece roteiro de episódio de ficção científica — mas é uma ideia que já está sendo estudada na vida real.

O cientista italiano Francesco Pantò desenvolveu o que chama de “anime therapy”, ou “terapia de anime”, uma abordagem que utiliza animes, mangás, jogos e personagens de ficção como ferramentas para ajudar jovens a falar sobre sentimentos e dificuldades pessoais.

A proposta não é transformar uma sessão de terapia em uma maratona de One Piece com direito a intervalo para miojo.

A ideia é usar elementos familiares da cultura pop como uma espécie de ponte para facilitar a comunicação entre paciente e profissional.

Como funciona a terapia de anime?


Segundo Pantò, a ideia surgiu a partir de sua própria experiência.

Durante a adolescência, o cientista conta que se sentia deslocado e sozinho entre os colegas. Foi nesse período que passou a consumir mangás, animes e jogos e percebeu que aquelas histórias contribuíam para que se sentisse melhor.

Anos depois, já formado em medicina e durante seu doutorado no Japão, Pantò começou a questionar se aquela experiência poderia ser utilizada de maneira estruturada para ajudar outras pessoas.

Assim nasceu a proposta da “anime therapy”.

Em uma primeira versão do método, o profissional conversa com o paciente sobre animes e mangás de que ele gosta.

A partir dessas histórias, personagens e situações fictícias, o terapeuta pode criar caminhos para que o paciente fale sobre experiências e sentimentos próprios.

É uma estratégia semelhante à utilização de referências culturais como ponto de partida para conversas mais difíceis — só que, nesse caso, o repertório pode envolver ninjas, piratas, mechas, mundos fantásticos e protagonistas que claramente precisam de terapia há umas 15 temporadas.

O terapeuta pode virar um personagem


A proposta ficou ainda mais tecnológica com o desenvolvimento do que pode ser traduzido como “terapia de aconselhamento de personagem”.

Nesse modelo, o atendimento acontece online e o profissional aparece na tela com aparência e voz digitalmente modificadas, assumindo a identidade de um personagem.

Pantò explica que foram criados seis personagens diferentes, inspirados em arquétipos encontrados com frequência em animes e mangás.

Entre eles estão figuras como uma irmã mais velha alegre, uma mulher forte e um homem cavalheiro.

A ideia é oferecer diferentes personalidades para que o paciente possa se identificar mais facilmente com determinado personagem.

Personagens também falam sobre sofrimento


Um dos elementos mais curiosos do método é que os personagens não servem apenas como uma espécie de avatar do terapeuta.

Eles também podem falar sobre sofrimentos e experiências traumáticas.

Segundo Pantò, esses relatos pertencem ao personagem fictício, e não ao profissional que está realizando o atendimento.

Dessa maneira, o terapeuta consegue apresentar determinadas perspectivas sem afirmar que aquelas experiências pertencem à sua própria vida.

Os personagens são apresentados como figuras que passaram por dificuldades e conseguiram superar determinados problemas, podendo então conversar com o paciente a partir dessa perspectiva.

Método foi testado no Japão


A proposta foi testada durante seis meses na Universidade Municipal de Yokohama, no Japão.

O estudo envolveu 20 participantes japoneses entre 18 e 29 anos que apresentavam sintomas leves de depressão.

O objetivo da pesquisa não era tratar casos graves, mas investigar se a abordagem poderia ajudar pessoas que apresentam sinais iniciais de sofrimento psicológico.

Essa distinção é importante.


Os resultados do ensaio clínico ainda não foram divulgados oficialmente. Segundo Pantò, a publicação do estudo em inglês deve acontecer ainda em 2026.

Portanto, ainda não é possível afirmar que a “terapia de anime” seja um tratamento comprovadamente eficaz.

Por enquanto, trata-se de uma abordagem experimental que está sendo estudada.

Um dos voluntários relatou mudança positiva


Mesmo sem os resultados científicos finais publicados, um dos participantes teria relatado que a experiência fez o anime devolver a ele “um entusiasmo pela vida”.

O relato chama atenção justamente porque a proposta está voltada para pessoas que talvez ainda não estejam em uma situação de transtorno mental grave, mas já apresentam sinais de sofrimento.

A intenção de Pantò é trabalhar justamente nessa etapa.

A ideia é prevenção


Para o cientista, a “terapia de anime” deve ser encarada principalmente como uma estratégia preventiva.

Em vez de esperar que sintomas leves evoluam para problemas mais graves, a proposta é oferecer uma forma mais acessível e familiar de estimular jovens a conversar sobre o que estão sentindo.

Pantò compara a ideia a uma espécie de “suplemento” para a mente.

A proposta é que a pessoa possa buscar ajuda antes que a situação se torne mais difícil.

Isso também pode ser especialmente relevante entre jovens que têm resistência ou vergonha de procurar atendimento psicológico tradicional.

Por que usar anime?


A escolha não aconteceu por acaso.

Animes e mangás possuem enorme influência cultural no Japão e também conquistaram uma audiência global.

Além disso, muitas dessas obras abordam temas como:

  • solidão;
  • amizade;
  • perda;
  • trauma;
  • rejeição;
  • amadurecimento;
  • identidade;
  • ansiedade;
  • superação;
  • relacionamentos.

Ou seja, por trás de batalhas absurdas e personagens capazes de destruir metade de uma montanha com um golpe, existe frequentemente uma quantidade considerável de drama existencial.

Isso pode criar oportunidades para que profissionais explorem sentimentos dos pacientes a partir de situações fictícias.

Japão ainda enfrenta resistência à busca por ajuda psicológica


Outro fator que motivou a pesquisa é a relação histórica do Japão com questões de saúde mental.

Segundo dados de 2022 mencionados na reportagem, apenas 6% da população japonesa havia buscado ajuda psicológica para problemas relacionados à saúde mental.

Esse cenário, entretanto, vem mudando, especialmente entre os mais jovens.

A influência ocidental e uma maior conscientização sobre saúde mental têm contribuído para que novas gerações procurem ajuda mais cedo.

É justamente nesse público que Pantò pretende concentrar sua abordagem.

Anime pode ser uma porta de entrada para a terapia?


A ideia mais interessante da pesquisa talvez esteja justamente aí.

O objetivo não é necessariamente fazer com que o anime substitua a terapia convencional.

A proposta é utilizar algo que o jovem já conhece e gosta como ponto de entrada para uma conversa que poderia ser difícil de iniciar de outra maneira.

Para alguém que não consegue responder facilmente “como você está se sentindo?”, talvez seja mais simples começar falando sobre o que aconteceu com determinado personagem.

E, a partir daí:

“Você se identificou com ele?”

“Por quê?”

“Você já passou por algo parecido?”

Pronto.

A conversa começou.

Ainda é cedo para saber se a técnica funciona


Apesar de ser uma ideia curiosa e potencialmente interessante, existe uma ressalva fundamental: os resultados científicos do estudo ainda não foram publicados.

O teste envolveu apenas 20 pessoas e teve duração de seis meses.

Portanto, ainda serão necessários estudos maiores e resultados publicados para determinar se a abordagem realmente apresenta benefícios consistentes.

Até lá, a “terapia de anime” deve ser encarada como uma abordagem experimental, e não como substituta de tratamentos psicológicos ou psiquiátricos estabelecidos.

Quando a cultura pop encontra a saúde mental


A proposta de Francesco Pantò mostra como elementos da cultura pop podem ganhar novas funções além do entretenimento.

Animes e mangás já são utilizados em discussões acadêmicas, pesquisas culturais e educação.

Agora, pesquisadores também começam a investigar como essas narrativas podem ser utilizadas para facilitar conversas relacionadas à saúde mental.

Se a abordagem funcionar em estudos futuros, talvez o caminho para falar sobre sentimentos possa começar de uma maneira bem menos intimidadora.

Talvez com uma pergunta simples:

Qual é o seu anime favorito?

E, convenhamos, dependendo da resposta, o terapeuta já vai ter bastante material para a próxima sessão. 😂

Importante


A “terapia de anime” descrita nesta matéria é uma abordagem experimental em pesquisa. Os resultados do ensaio clínico citado ainda não foram divulgados e não há, neste momento, evidência suficiente para tratá-la como substituta de psicoterapia ou tratamento médico convencional.

Fonte: DW

Poeta, Bacharel em Radio, TV E Vídeo, Estrela, Editor e Co-criador do Papo Blast, Especialista em piada ruim, Viciado em séries e filmes, está mais perdido que Lost e acredita que Sharknado é um clássico subestimado mas vocês não estão prontos para essa conversa.


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