Cinema

Chloé Zhao defende filmes de quadrinhos e critica preconceito contra o gênero

Chloé Zhao defende filmes de quadrinhos em Veneza e diz que histórias do gênero não devem ser descartadas por não serem consideradas “alta arte”.


Depois de anos ouvindo que filmes de super-heróis não seriam exatamente o tipo de cinema que merece uma salva de palmas em festivais, Chloé Zhao resolveu entrar na discussão.


A diretora vencedora do Oscar, que comandou Nomadland e também Eternos, da Marvel, defendeu os filmes baseados em histórias em quadrinhos durante uma conversa no Festival de Cinema de Veneza.

Para Zhao, existe um preconceito desnecessário contra esse tipo de produção simplesmente porque algumas pessoas não consideram essas histórias como “alta arte”.

E ela não concorda nem um pouco com essa divisão.

“Não devemos descartar histórias porque não as consideramos alta arte”


Zhao explicou que, para ela, histórias de quadrinhos possuem uma importância cultural que não deveria ser diminuída.

A diretora comparou os quadrinhos ocidentais ao mangá japonês, destacando que são formas diferentes de contar histórias, mas que cumprem funções semelhantes dentro de suas respectivas culturas.

Ela também defendeu a ideia de que diferentes tipos de narrativa podem servir como uma espécie de espaço para as pessoas processarem sentimentos, experiências e questões pessoais.

Segundo Zhao, arquétipos são importantes justamente porque aparecem em mitologias e histórias compartilhadas por diferentes sociedades.

Ou seja, para a cineasta, não existe razão para olhar para um gênero e simplesmente decretar:

“Isso aqui não é arte.”

E quem fala isso dirigiu um filme da Marvel


A declaração ganha um sabor especial porque Zhao conhece esse universo por dentro.

Ela dirigiu Eternos, lançado pela Marvel Studios em 2021.

O filme foi uma tentativa bastante particular de fugir da fórmula tradicional do MCU, apostando em uma abordagem mais contemplativa, personagens com conflitos íntimos e uma estética influenciada pelo cinema independente da diretora.

Na época, Zhao tentou levar para a Marvel características que já estavam presentes em seu trabalho anterior, incluindo o uso de locações reais, luz natural e uma narrativa mais interessada nos personagens do que simplesmente na próxima explosão digital.

A experiência acabou dividindo bastante o público e a crítica.

Mas Zhao não parece ter saído dela com qualquer ressentimento em relação ao gênero.

Pelo contrário.

Ela continua defendendo que histórias de quadrinhos podem ser importantes.

“Eternos” foi justamente uma tentativa de provar isso


Quando Zhao assumiu Eternos, sua intenção era fazer algo diferente dentro do universo Marvel.

A diretora queria explorar personagens que haviam vivido na Terra durante milhares de anos e, por isso, pretendia trabalhar com uma escala visual grandiosa sem abandonar momentos de intimidade.

Parte das filmagens aconteceu em locações reais, incluindo Inglaterra e Ilhas Canárias.

A proposta também era fugir um pouco da estética excessivamente digital associada a algumas produções de super-heróis.

O resultado foi um filme bastante diferente do padrão tradicional do MCU — embora tenha recebido uma reação dividida.

Isso torna a declaração atual de Zhao ainda mais interessante.

Ela não está defendendo apenas um gênero que observa de fora.

Ela está defendendo um tipo de cinema que tentou reinventar por dentro.

A velha discussão: “filme de super-herói é cinema?”


A discussão sobre o valor artístico dos filmes de quadrinhos não é exatamente nova.

Nos últimos anos, cineastas como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola fizeram críticas bastante conhecidas ao domínio dos filmes de super-heróis no mercado cinematográfico.

Scorsese chegou a dizer que filmes da Marvel seriam mais próximos de experiências de parques temáticos do que do cinema tradicional.

As declarações provocaram uma discussão enorme sobre o que pode ou não ser considerado cinema.

Mas Zhao apresenta uma perspectiva diferente.

Para ela, a questão não deveria ser simplesmente classificar uma produção como “alta arte” ou “entretenimento”.

A pergunta deveria ser: o que essa história significa para quem está assistindo?

E isso muda bastante a conversa.

Quadrinhos também são mitologia moderna

O argumento de Zhao sobre arquétipos é particularmente interessante.

Super-heróis, assim como personagens de mitologias antigas, normalmente representam conceitos maiores do que eles próprios.

Superman pode representar esperança.

Batman, obsessão e justiça.

Mulher-Maravilha, compaixão e força.

Homem-Aranha, responsabilidade.

E os personagens da Marvel e da DC frequentemente funcionam justamente como versões modernas de figuras mitológicas.

Para Zhao, esse aspecto não deveria ser ignorado apenas porque essas histórias nasceram em revistas em quadrinhos.

A própria diretora lembrou que, no Ocidente, os quadrinhos foram uma das formas de narrativa visual com as quais ela teve contato, assim como o mangá exerce papel semelhante no Japão.

O problema não é o gênero, mas o que se faz com ele


A fala de Zhao também não significa que qualquer filme de super-herói seja automaticamente bom.

E essa talvez seja a parte mais importante.

Defender histórias de quadrinhos não significa dizer que todas as adaptações funcionam.

Existem filmes excelentes.

Existem filmes ruins.

Existem filmes que tentam fazer algo diferente e acertam.

E existem aqueles que gastam US$ 200 milhões para colocar uma tela verde atrás de três atores e destruir uma cidade digitalmente.

O gênero, por si só, não determina a qualidade.

A história determina.

Pelo menos é esse o argumento que Zhao parece estar defendendo.

Hollywood talvez esteja começando a perceber isso novamente


A declaração acontece em um momento particularmente complicado para Hollywood.

O mercado enfrenta uma transformação profunda provocada pelo streaming, pela inteligência artificial, pelo aumento dos custos de produção e pela dificuldade de transformar grandes franquias em sucessos garantidos.

Ao mesmo tempo, o próprio Festival de Veneza deste ano apresenta um cenário diferente de edições recentes, com menos filmes produzidos pelos grandes estúdios americanos e maior presença de obras independentes e documentários.

Nesse cenário, a discussão sobre o que é “cinema de verdade” pode parecer até secundária.

O público quer histórias.

Se elas vêm de um quadrinho, de um mangá, de um romance, de uma peça de teatro ou de uma ideia completamente original, talvez seja menos importante do que o que o diretor consegue fazer com aquele material.

E talvez esse seja o melhor argumento de Chloé Zhao


Chloé Zhao não está dizendo que precisamos gostar de todos os filmes de super-heróis.

Ela está dizendo algo bem mais simples: não descarte uma história antes de conhecê-la.

Uma produção não precisa ser considerada “alta arte” por um grupo de críticos para ter valor emocional, cultural ou artístico para milhões de pessoas.

E isso vale para filmes da Marvel, DC, adaptações de mangá, animações e praticamente qualquer outra forma de entretenimento.

No fim das contas, Eternos pode não ter convencido todo mundo.

Mas a própria trajetória de Zhao mostra por que a discussão é interessante.

Uma diretora que ganhou o Oscar por um filme intimista sobre trabalhadores americanos decidiu entrar no universo dos super-heróis.

E, anos depois, continua dizendo que quadrinhos também podem contar histórias que importam.

Talvez a melhor resposta para a eterna discussão “isso é cinema?” seja justamente outra pergunta: se uma história consegue fazer alguém sentir alguma coisa, por que ela precisaria de um selo de “alta arte” para ter valor?

Fontes: Variety,, WIRED, Reuters

Poeta, Bacharel em Radio, TV E Vídeo, Estrela, Editor e Co-criador do Papo Blast, Especialista em piada ruim, Viciado em séries e filmes, está mais perdido que Lost e acredita que Sharknado é um clássico subestimado mas vocês não estão prontos para essa conversa.


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