Cinema

Gabriel Martins fala sobre representatividade negra em novo filme, On Behalf of My Son

Gabriel Martins fala sobre representatividade negra em On Behalf of My Son, filme brasileiro que chega à Netflix em novembro.


Depois de conquistar o mundo com Marte Um, o cineasta mineiro Gabriel Martins está de volta com um filme que promete repetir a força emocional de seu trabalho anterior — mas agora colocando ainda mais em evidência uma questão que atravessa sua própria trajetória: a representação de pessoas negras no cinema brasileiro.


Em entrevista à Variety, Martins falou sobre On Behalf of My Son, longa que internacionalmente recebe esse título e que será lançado no Brasil como Vicentina Pede Desculpas. Para o diretor, construir personagens negros e colocá-los no centro de histórias complexas não é simplesmente uma escolha artística.

É um projeto de vida.

Não é apenas cinema


Martins deixou claro que a representatividade negra presente em seus filmes está diretamente ligada à maneira como enxerga o próprio cinema.

O diretor é um dos fundadores da Filmes de Plástico, produtora conhecida por desenvolver obras que retratam comunidades negras e trabalhadoras brasileiras com humanidade e sem reduzir seus personagens a estereótipos. A produtora também esteve por trás de Marte Um, filme que representou o Brasil na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional em 2023.

Em On Behalf of My Son, essa perspectiva aparece novamente por meio de uma história extremamente íntima: uma mãe tentando lidar com uma tragédia que destruiu sua família.

Uma mãe em busca de perdão


O filme acompanha Vicentina, interpretada por Rejane Faria, uma professora aposentada de 75 anos.

Tudo muda quando seu filho Wesley, motorista de ônibus, morre em um acidente depois que o veículo despenca de um viaduto em Belo Horizonte.

O caso rapidamente ganha repercussão nacional.

Imagens de câmeras de segurança levantam a possibilidade de que Wesley tenha provocado o acidente intencionalmente. Diante dessa possibilidade, Vicentina decide procurar as famílias das vítimas para pedir desculpas em nome do filho.

Só que pedir perdão não significa necessariamente recebê-lo.

E é justamente nesse caminho que Gabriel Martins constrói o drama.

O peso de carregar uma culpa que não é sua


A premissa de Vicentina Pede Desculpas parece simples, mas carrega uma pergunta bastante pesada: até onde alguém pode assumir a responsabilidade pelos atos de outra pessoa?

Vicentina não provocou a tragédia.

Ela não estava dirigindo o ônibus.

Mesmo assim, como mãe, decide enfrentar as consequências do que aconteceu.

A jornada da personagem passa por diferentes famílias, encontros e reações. Algumas pessoas podem estar dispostas a ouvir. Outras podem não conseguir perdoar.

E, no meio disso tudo, Vicentina também precisa lidar com seu próprio luto.

O resultado é uma história sobre culpa, perdão, maternidade, responsabilidade e a tentativa de continuar vivendo depois de uma tragédia.

Rejane Faria é o coração do filme


Se a história pertence a Vicentina, a força dela está em Rejane Faria.

A atriz, que já havia trabalhado com Gabriel Martins em Marte Um, assume novamente um papel central em uma produção do diretor.

A Netflix descreve sua interpretação como o núcleo emocional do longa, enquanto Martins destaca a capacidade da atriz de equilibrar a dor da personagem com seus pequenos gestos e momentos de humanidade.

O elenco também reúne nomes importantes do cinema brasileiro, incluindo Flávio Bauraqui, Giovanna Heliodoro, Giovanni Venturini, Grace Passô, Karine Teles, Maíra Azevedo, Renato Novaes e Thalma de Freitas.

Um filme brasileiro com os olhos voltados para o mundo


On Behalf of My Son não chega à Netflix como um lançamento nacional qualquer.

O filme teve uma trajetória internacional bastante relevante antes mesmo de chegar ao público.

A produção foi selecionada para a competição Platform do Festival Internacional de Toronto de 2026, uma das principais vitrines do cinema contemporâneo. O vencedor da seção recebe uma indicação direta para consideração na categoria de Filme Internacional do Oscar.

O longa também integra a competição oficial do Festival de San Sebastián, na Espanha, concorrendo à Concha de Ouro, principal prêmio do festival.

Para Martins, essa circulação internacional representa também uma oportunidade de colocar o cinema brasileiro — e especialmente o cinema produzido em Minas Gerais — no centro das conversas internacionais.

A identidade mineira continua presente


Assim como em Marte Um, Minas Gerais ocupa um espaço importante no novo filme.

Gabriel Martins nasceu e cresceu no estado, e On Behalf of My Son também está ambientado em Minas Gerais.

O diretor já destacou que a produção representa mais um momento importante para o cinema mineiro, que vem conquistando espaço em grandes festivais internacionais.

É interessante perceber como Martins constrói sua carreira sem abandonar suas raízes.

Ele não precisa transformar o Brasil em uma caricatura exótica para falar com o mundo.

Pelo contrário.

É justamente ao contar uma história profundamente brasileira que seu cinema encontra uma linguagem universal.

Depois de Marte Um, a expectativa é enorme


Marte Um foi o filme que colocou Gabriel Martins definitivamente no radar internacional.

Lançado em 2022, o longa acompanhava uma família negra de classe média baixa em Contagem, Minas Gerais, e acabou escolhido para representar o Brasil no Oscar.

Agora, quatro anos depois, Martins retorna com uma história bastante diferente, mas que mantém algumas das características que marcaram seu cinema: personagens negros complexos, relações familiares e uma narrativa profundamente humana.

A diferença é que, desta vez, a história começa com uma tragédia.

E a pergunta não é apenas como sobreviver a ela.

É como continuar vivendo depois dela.

Quando Vicentina Pede Desculpas estreia?


No Brasil, Vicentina Pede Desculpas terá sessões no Festival do Rio, antes de chegar aos cinemas.

O lançamento comercial em cinemas selecionados está marcado para 5 de novembro de 2026, enquanto a estreia na Netflix acontece em 20 de novembro, simultaneamente em mais de 190 países.

O filme tem 148 minutos de duração e é dirigido e roteirizado por Gabriel Martins.

Mais do que representatividade, uma forma de existir


Talvez o aspecto mais interessante da declaração de Gabriel Martins seja justamente não tratar representatividade como uma tendência passageira do mercado.

Para o cineasta, colocar pessoas negras no centro das histórias, permitir que tenham desejos, defeitos, conflitos, humor, sofrimento e contradições faz parte de uma construção muito maior.

É uma maneira de mostrar pessoas negras simplesmente vivendo.

Sem precisar justificar sua existência.

Sem precisar transformar cada personagem em símbolo.

E talvez seja justamente por isso que On Behalf of My Son desperte tanta atenção.

Porque, por trás da tragédia de Vicentina, existe uma história sobre pessoas.

Sobre uma mãe.

Sobre um filho.

Sobre culpa.

Sobre perdão.

E sobre aquilo que fazemos quando a vida nos obriga a continuar caminhando mesmo quando ainda não descobrimos como deixar a dor para trás.

Depois de Marte Um, Gabriel Martins parece novamente disposto a provar que o cinema brasileiro pode contar histórias profundamente locais e, ao mesmo tempo, falar diretamente com o mundo inteiro.

E dessa vez, pelo caminho de Vicentina, ele talvez esteja fazendo uma pergunta ainda mais difícil: quem perdoa uma mãe quando ela pede desculpas pelo que o próprio filho fez?

Fontes:
Variety — entrevista com Gabriel Martins sobre representatividade negra: Leia a matéria original da Variety
Netflix — anúncio do filme e data de lançamento: Netflix
Festival de Toronto — seleção de On Behalf of My Son: TIFF
Festival de San Sebastián — competição oficial: San Sebastián Film Festival

Poeta, Bacharel em Radio, TV E Vídeo, Estrela, Editor e Co-criador do Papo Blast, Especialista em piada ruim, Viciado em séries e filmes, está mais perdido que Lost e acredita que Sharknado é um clássico subestimado mas vocês não estão prontos para essa conversa.


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