Animes Mangás

Masami Kurumada acusa ex-gerente de desviar R$ 148 milhões

Masami Kurumada, criador de Cavaleiros do Zodíaco, processa ex-gerente por suposto desvio de R$ 148 milhões.


A vida real acaba de entregar um arco que nem o próprio Masami Kurumada provavelmente colocaria em Cavaleiros do Zodíaco.

O criador de Saint Seiya, conhecido no Brasil como Cavaleiros do Zodíaco, revelou nesta quarta-feira (2) que foi vítima de um suposto esquema de desvio de aproximadamente 4,686 bilhões de ienes, valor equivalente a cerca de R$ 148 milhões na cotação atual.


O caso envolve um antigo gerente e executivo que trabalhou durante anos ao lado do mangaká. Kurumada e três empresas ligadas ao autor entraram com uma ação no Tribunal Distrital de Tóquio contra 11 pessoas e empresas, buscando aproximadamente 2,886 bilhões de ienes em indenizações — o equivalente a cerca de R$ 90 milhões — depois que aproximadamente 1,8 bilhão de ienes já teria sido recuperado.

E se você acha que a história já é absurda, espere até entender como o suposto esquema teria funcionado.

⚠️ Importante: as acusações descritas abaixo fazem parte da ação judicial apresentada por Kurumada e seus representantes. O caso ainda está em disputa na Justiça, portanto não se trata de uma condenação definitiva.

O homem em quem Kurumada confiou por cerca de 25 anos


Segundo os advogados do artista, o principal acusado, identificado durante a coletiva apenas como “M”, conhecia Kurumada há décadas.

A relação teria começado quando M trabalhava na Shueisha, editora responsável pela publicação de obras do mangaká. Ele teria atuado como editor de Kurumada antes de posteriormente passar a trabalhar diretamente para o autor.

Ao longo dos anos, os dois construíram uma relação profissional extremamente próxima.

Tão próxima que Kurumada confiou a ele justamente uma das áreas que menos tinha relação com aquilo que realmente queria fazer: dinheiro.

O autor explicou que queria concentrar sua energia na criação e no desenho dos mangás e, por isso, deixou a parte administrativa nas mãos do executivo.

M teria assumido responsabilidades relacionadas à contabilidade, movimentações financeiras e negociações externas de três empresas:

  • Kurumada Production
  • NEXT WING
  • K-PROJECT

As empresas administram direitos autorais e outras atividades relacionadas ao trabalho do artista.

E, segundo a denúncia, foi justamente essa confiança que teria permitido que o esquema acontecesse durante anos.

O suposto golpe teria acontecido de várias maneiras


De acordo com a ação apresentada pelos representantes de Kurumada, o dinheiro teria sido desviado por diferentes mecanismos entre 2018 e 2024.

Uma das estratégias envolveria transferências não autorizadas das contas das empresas para contas controladas pelo próprio executivo ou por pessoas próximas a ele.

Outra teria sido ainda mais elaborada.

Segundo a acusação, uma empresa com nome semelhante à NEXT WING teria sido criada para se passar por uma companhia relacionada à empresa original.

O objetivo seria fazer com que parceiros comerciais depositassem nessa empresa valores que deveriam ser pagos à NEXT WING, especialmente taxas de licenciamento relacionadas às obras de Kurumada.

Em outras palavras: criaram uma empresa com nome parecido, colocaram o dinheiro lá e esperavam que ninguém percebesse.

E, aparentemente, durante um bom tempo ninguém percebeu.

O dinheiro teria sido usado até em criptomoedas


A acusação também afirma que parte dos recursos desviados teria sido utilizada em investimentos em criptomoedas.

Segundo a versão apresentada pela defesa de Kurumada, seis pessoas além do principal acusado teriam participado do esquema.

O processo também aponta que empresas relacionadas ao executivo teriam sido utilizadas para movimentar os recursos.

Existe ainda uma suposta estrutura envolvendo seguros e resseguros no exterior, que teria servido para movimentar valores até uma empresa estrangeira controlada pelo acusado.

Ou seja, não estamos falando simplesmente de alguém pegando dinheiro da conta da empresa e fazendo um Pix para si mesmo.

Segundo a acusação, o esquema teria utilizado empresas, contas, licenciamento e operações internacionais para esconder a origem e o destino dos recursos.

A fraude só foi descoberta depois de uma pergunta da Receita japonesa


E aqui está talvez o detalhe mais surreal da história.

O esquema teria sido descoberto em fevereiro de 2024, quando autoridades fiscais japonesas questionaram Kurumada sobre determinadas movimentações.

Foi então que os responsáveis pelo artista começaram a investigar o que estava acontecendo.

Segundo os representantes do mangaká, o ex-executivo teria inclusive enviado uma resposta às autoridades utilizando uma assinatura falsificada e um carimbo pessoal de Kurumada sem autorização.

A investigação acabou levando à descoberta das movimentações financeiras.

Parte do dinheiro foi recuperada.

Mas uma quantia bilionária continuou sendo reivindicada judicialmente.

“Quase perdi a fé na humanidade”


Durante a coletiva realizada em Tóquio, Kurumada falou abertamente sobre o impacto emocional provocado pela descoberta.

O mangaká afirmou que, inicialmente, não conseguia acreditar no que havia acontecido.

Mais do que raiva, disse ter sentido um enorme vazio ao descobrir que alguém em quem confiava havia supostamente traído essa confiança por interesses pessoais.

Em outro trecho de seu depoimento, Kurumada afirmou que chegou a quase perder a fé na humanidade.

E existe uma frase particularmente curiosa dita pelo próprio autor: “Eu nunca tinha visto pessoas más no mundo dos animes e mangás.”

Olha...

Depois de criar cavaleiros enfrentando deuses, espectros, titãs e praticamente o catálogo completo da mitologia mundial, Kurumada descobriu que talvez o inimigo mais complicado estivesse sentado na mesa ao lado.

“Se as coisas tivessem dado errado, eu poderia ter sido arruinado”


O prejuízo financeiro não seria apenas um problema para as empresas.

Segundo Kurumada, a situação chegou a um ponto em que existia o risco de a estrutura empresarial responsável por seu trabalho entrar em dificuldades sérias.

O autor afirmou que, caso a situação tivesse evoluído de maneira ainda pior, ele poderia ter sido prejudicado como artista e até mesmo ter enfrentado problemas para continuar produzindo seus mangás.

É uma consequência particularmente grave para alguém que passou mais de 50 anos trabalhando profissionalmente com mangás.

E talvez seja por isso que a declaração seguinte seja tão importante.

Kurumada decidiu continuar desenhando


Apesar de todo o problema, o autor de Cavaleiros do Zodíaco afirmou que pretende continuar trabalhando.

Kurumada atualmente está envolvido com a Saga do Céu, uma das grandes ambições relacionadas ao universo de Saint Seiya.

Durante a coletiva, ele deixou claro que quer continuar produzindo para seus leitores e para os fãs espalhados pelo mundo.

Em outras palavras: o golpe pode ter atingido as contas, mas não atingiu o mangaká.

O mistério por trás do cancelamento da exposição de 2024


A revelação também pode ajudar a explicar um episódio que havia deixado fãs de Kurumada intrigados.

Uma exposição comemorativa relacionada à carreira do artista estava prevista para 2024, mas acabou sendo cancelada.

Agora, segundo a equipe jurídica do mangaká, o cancelamento ocorreu justamente por causa da descoberta do problema financeiro.

A justificativa apresentada é que a realização do evento naquele momento poderia acabar beneficiando o principal acusado.

Kurumada pediu desculpas aos fãs pelo cancelamento e indicou que pretende realizar uma nova exposição de artes originais entre março e junho de 2027, durante a primavera japonesa.

E talvez algumas peças finalmente estejam se encaixando


Outro detalhe chamou a atenção dos fãs.

Os sites e redes oficiais relacionados à franquia chegaram a sair do ar em março de 2024, período próximo à descoberta do problema.

Até o momento, porém, não há confirmação oficial de que a queda desses canais esteja diretamente relacionada ao suposto esquema financeiro.

Portanto, qualquer ligação entre os acontecimentos deve ser tratada apenas como possibilidade, e não como fato comprovado.

Ainda assim, é compreensível que os fãs estejam olhando para acontecimentos daquela época com outros olhos.

O processo está apenas começando


A ação apresentada por Kurumada e pelas três empresas busca recuperar aproximadamente 2,886 bilhões de ienes, depois da recuperação de cerca de 1,8 bilhão.

O caso agora será analisado pelo Tribunal Distrital de Tóquio.

A acusação apresentada pelos representantes de Kurumada descreve um esquema que teria se estendido por anos e envolvido diversas pessoas e empresas.

Até que a Justiça analise o caso e determine responsabilidades, entretanto, as acusações permanecem como alegações apresentadas no processo.

O criador de Cavaleiros do Zodíaco contra seu próprio “Grande Mestre”


Existe uma ironia quase cruel em toda essa história.

Masami Kurumada passou mais de meio século criando histórias sobre personagens que enfrentam inimigos praticamente impossíveis.

Seiya enfrenta Hades.
Ikki enfrenta seus próprios demônios.
Shiryu encara desafios absurdos.
Os Cavaleiros enfrentam deuses.

Mas o desafio que aparentemente pegou Kurumada de surpresa não veio do Santuário.

Veio da contabilidade.

E talvez a maior vitória do autor neste momento não seja recuperar os bilhões de ienes.

Seja simplesmente continuar fazendo aquilo que ele sempre fez.

Desenhar.

Aos 72 anos, depois de descobrir que alguém em quem confiava por décadas teria supostamente desviado uma fortuna de suas empresas, Kurumada poderia simplesmente parar.

Em vez disso, decidiu continuar trabalhando em Saint Seiya.

Porque, no fim das contas, até quem criou os Cavaleiros precisa enfrentar seu próprio teste de resistência.

E, dessa vez, aparentemente não havia armadura de ouro que resolvesse o problema.

Fontes: JBox, Nippon.com, TV Asahi, Bengo4, CavZodiaco

Poeta, Bacharel em Radio, TV E Vídeo, Estrela, Editor e Co-criador do Papo Blast, Especialista em piada ruim, Viciado em séries e filmes, está mais perdido que Lost e acredita que Sharknado é um clássico subestimado mas vocês não estão prontos para essa conversa.


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