O Brasil perdeu mais um daqueles artistas que, mesmo sem necessariamente estarem no centro dos holofotes, fizeram parte da memória afetiva de milhões de pessoas.
Morreu neste domingo, 6 de setembro de 2026, aos 73 anos, o ator e diretor Roney Facchini, conhecido principalmente por interpretar Luís da Silva, o patriarca da família Silva no clássico programa infantil Rá-Tim-Bum, da TV Cultura.
A morte foi confirmada pelo Prêmio Bibi Ferreira e por amigos do artista. Facchini estava em São Paulo. Segundo informações divulgadas posteriormente pelo companheiro do ator, João Paulo, ele sofreu um mal súbito dentro do carro após deixar a garagem do prédio onde morava. Chegou a ser socorrido e levado ao Hospital Oswaldo Cruz, mas não resistiu.
Quem era Roney Facchini?
Nascido em São Paulo, em 6 de fevereiro de 1953, Roney Macedo Facchini construiu uma carreira que atravessou televisão, cinema e, principalmente, teatro.
Curiosamente, antes de seguir definitivamente pelo caminho das artes, Facchini estudou Engenharia Civil na Escola de Engenharia Mauá. Depois de concluir a formação, mudou de trajetória e se dedicou ao teatro e à atuação.
Nos palcos, participou de mais de 30 peças e também trabalhou como diretor, encenador e apresentador. Depois de aproximadamente 25 anos de carreira, escreveu e apresentou o monólogo A Alegria do Palhaço, de Antonio Rocco.
Mas foi na televisão que ele acabou entrando definitivamente para a memória de uma geração.
Roney Facchini era Luís da Silva em Rá-Tim-Bum
Para muita gente, basta dizer "Roney Facchini" e imediatamente vem a lembrança de Rá-Tim-Bum.
Exibido pela TV Cultura entre 1990 e 1994, o programa apresentou uma série de personagens e quadros que se tornaram parte da infância brasileira.
Facchini interpretava Luís da Silva, o pai da família Silva, contracenando com Grace Gianoukas, que interpretava Eva, além de João Victor d'Alves e Pamella Domingues.
E aqui vale uma observação importante: estamos falando do Rá-Tim-Bum original, e não de Castelo Rá-Tim-Bum.
Ainda assim, para quem cresceu acompanhando a TV Cultura no início dos anos 1990, a presença de Facchini fazia parte daquele ritual diário de sentar diante da televisão e descobrir que era possível aprender, rir e se divertir sem precisar de efeitos especiais milionários.
Uma carreira muito maior que Rá-Tim-Bum
Embora Luís da Silva tenha sido seu papel mais lembrado pelo grande público, Roney Facchini teve uma trajetória muito mais extensa.
O ator passou por diferentes emissoras e participou de produções como Malhação, A Diarista, Bang Bang, Minha Nada Mole Vida, Caras & Bocas, Cheias de Charme, Pé na Cova e Macho Man. Também esteve na série Hebe, lançada em 2020.
Na televisão, portanto, Facchini continuou trabalhando por décadas depois de Rá-Tim-Bum, construindo uma carreira marcada por participações em diferentes gêneros e formatos.
Foi aquele tipo de ator que você encontrava em uma produção e talvez não soubesse imediatamente o nome — mas provavelmente reconhecia o rosto.
Roney Facchini também esteve no cinema
A carreira cinematográfica do ator também foi significativa.
Facchini participou de filmes como Cilada.com, Vai Que Dá Certo, Meu Amigo Hindu e Polícia Federal: A Lei É Para Todos.
Seu trabalho no cinema acompanhou a mesma característica de sua trajetória televisiva: presença constante, mesmo que nem sempre como protagonista.
O teatro era uma de suas grandes paixões
É impossível falar sobre Roney Facchini sem destacar o teatro.
Foi nos palcos que ele construiu boa parte de sua identidade artística, atuando e também dirigindo espetáculos.
Entre os trabalhos associados ao seu nome estão peças como Gato Por Lebre, Os Mistérios do Sexo e Ricardo III, além do monólogo A Alegria do Palhaço.
Colegas de profissão lembraram justamente desse lado de Facchini após sua morte.
O ator Nilton Bicudo, amigo e parceiro profissional, publicou uma homenagem emocionada, descrevendo Facchini como uma pessoa carinhosa, generosa, de humor sutil e talento refinado. Os dois trabalharam juntos no espetáculo Rancor, e Facchini também dirigiu Bicudo em Uma Mulher de Vestido Preto.
A despedida de colegas
A notícia provocou manifestações de diversos artistas.
Grace Gianoukas, que contracenou com Facchini em Rá-Tim-Bum, publicou uma homenagem ao colega. Outros nomes, como Lucio Mauro Filho, João Vitti, Marisa Orth, Angela Dippe e Bárbara Bruno, também lamentaram a perda.
Marisa Orth chamou Facchini de "comediante estupendo", enquanto Grace Gianoukas expressou carinho e admiração pelo antigo colega.
São manifestações que ajudam a dimensionar não apenas o artista que Facchini foi, mas também a pessoa querida que deixou entre aqueles que trabalharam com ele.
Um artista que continuava ativo
Talvez um dos detalhes mais curiosos sobre os últimos dias de Roney Facchini seja que ele continuava bastante ativo nas redes sociais.
O ator compartilhava vídeos e comentários sobre cultura e outros artistas. Poucas horas antes de sua morte, chegou a publicar um vídeo no qual comentava e elogiava a voz de Gal Costa. Em publicações recentes, também havia refletido sobre a morte de artistas como Dolly Parton, Laura Cardoso e Glória Menezes.
A ironia dolorosa é que, enquanto falava sobre a trajetória e a partida de outros artistas, Facchini também estava prestes a deixar seu próprio legado.
Roney Facchini deixa uma memória afetiva
Talvez seja justamente essa a melhor maneira de falar sobre Roney Facchini.
Ele não foi apenas o ator de Rá-Tim-Bum.
Foi um profissional que passou décadas fazendo teatro, televisão e cinema, trabalhando diante e atrás das câmeras, dirigindo, escrevendo e ensinando através da própria experiência.
Mas é impossível negar que, para uma geração inteira, ele sempre será Luís da Silva.
O pai daquela família que aparecia na televisão brasileira no começo dos anos 1990.
Um rosto de uma época em que a TV Cultura ajudava a formar crianças sem precisar transformar tudo em uma disputa por audiência, algoritmo ou número de seguidores.
E talvez seja justamente por isso que sua partida doa tanto.
Porque existem artistas que fazem sucesso.
E existem artistas que fazem parte da infância das pessoas.
Roney Facchini pertence à segunda categoria.
Ele tinha 73 anos. Deixa uma trajetória de décadas dedicada à arte e uma lembrança que, para muita gente, começou na frente de uma televisão ligada na TV Cultura.
Descanse em paz, Luís da Silva.
Fontes: Terra, VEJA, CNN Brasil, Folha de S.Paulo, UOL



