A novela Paramount-Warner Bros. Discovery ganhou mais um capítulo — e, dessa vez, a conta é de US$ 1,88 bilhão.
A Paramount Skydance voltou a pressionar a Justiça americana para que os 12 estados que tentam impedir sua aquisição da Warner Bros. Discovery e a Writers Guild of America (WGA) sejam obrigados a apresentar uma garantia de US$ 1,88 bilhão para cobrir possíveis prejuízos causados pelo atraso da fusão.
O novo pedido foi apresentado nesta terça-feira, 8 de setembro de 2026, em documentos enviados ao tribunal. A juíza federal Araceli Martínez-Olguín marcou para 24 de setembro uma audiência para analisar a solicitação.
E aqui começa a parte interessante: Paramount diz que não está tentando derrubar a suspensão da fusão. Ela quer que quem pediu a suspensão arque financeiramente com as consequências caso a empresa vença a batalha judicial.
O que a Paramount está pedindo?
A lógica apresentada pela Paramount é relativamente simples.
A companhia afirma que já cumpriu todas as condições necessárias para concluir a aquisição da Warner Bros. Discovery e recebeu autorizações regulatórias em 69 jurisdições. Segundo a empresa, os processos movidos pelos estados e pela WGA são agora os únicos obstáculos restantes para o fechamento da transação.
Como a fusão está suspensa enquanto o processo antitruste avança, a Paramount argumenta que está sofrendo perdas financeiras que podem chegar a US$ 1,88 bilhão.
Por isso, quer que os autores das ações apresentem uma espécie de seguro financeiro.
A ideia seria: se os estados e a WGA vencerem, tudo certo; se a Paramount vencer e a Justiça concluir que a suspensão não deveria ter ocorrido, a garantia serviria para compensar os prejuízos da empresa.
É justamente essa interpretação que os adversários da fusão contestam.
A famosa "ticking fee" de US$ 7 milhões por dia
Um dos principais componentes da conta é uma cláusula do acordo entre Paramount e Warner Bros. Discovery.
Caso a operação não seja concluída até 1º de outubro, a Paramount terá de pagar aos acionistas da WBD uma chamada “ticking fee” de US$ 7 milhões por dia até que o negócio seja concluído.
É dinheiro queimando diariamente.
E não é pouco.
A própria Paramount calcula que, caso o julgamento e os procedimentos posteriores se estendam até a primavera americana de 2027, os custos acumulados — incluindo a taxa e despesas adicionais de financiamento — podem chegar aos US$ 1,88 bilhão.
Ou seja, enquanto Hollywood discute quem deveria controlar Hollywood, o relógio financeiro está literalmente fazendo: tic-tac, tic-tac, US$ 7 milhões, tic-tac...
Estados dizem que Paramount quer "terceirizar" a própria conta
Os estados que entraram com a ação não compraram o argumento.
Em documentos apresentados anteriormente, os procuradores-gerais, liderados pelo procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, argumentaram que a Paramount está tentando transferir para os autores da ação uma responsabilidade financeira que seria da própria empresa.
A manifestação afirma que a Paramount estaria tentando “offload its responsibility”, ou seja, se livrar da responsabilidade pelo custo da taxa diária que aceitou pagar como parte do acordo com a Warner Bros. Discovery.
Os estados também questionam por que o dinheiro público ou uma entidade sindical sem fins lucrativos, como a WGA, deveria servir para garantir financeiramente uma aquisição empresarial de aproximadamente US$ 110 bilhões.
É um argumento difícil de ignorar.
A Paramount, por outro lado, responde que não está pedindo que os estados financiem a aquisição.
Está pedindo que assumam o risco financeiro de impedir a conclusão de uma transação que, segundo a empresa, poderá ser considerada legal ao final do processo.
E onde entra a WGA?
A Writers Guild of America entrou na briga porque também processou a Paramount para tentar impedir a fusão.
O sindicato argumenta que a união das duas gigantes poderia prejudicar a concorrência no mercado de trabalho dos roteiristas, incluindo contratos para filmes de grande orçamento, séries de televisão e produções para streaming.
A WGA, portanto, não está simplesmente assistindo à disputa dos estados.
Ela é uma das partes que tenta impedir judicialmente a operação.
E agora a Paramount quer que também o sindicato participe da garantia de US$ 1,88 bilhão.
A companhia afirma que a própria WGA já argumentou anteriormente que a legislação antitruste poderia exigir uma garantia significativa quando uma liminar produz prejuízos financeiros relevantes.
Mas a fusão está oficialmente parada?
Sim.
Em julho, Paramount, Warner Bros. Discovery, os estados e a WGA chegaram a um acordo para manter a operação suspensa enquanto os processos avançam.
O acordo determina que a fusão não poderá ser concluída até o desfecho das ações ou até 1º de junho de 2027, o que ocorrer primeiro.
O julgamento está programado para começar em 2 de março de 2027.
Portanto, apesar de a Paramount dizer que está pronta para fechar o negócio, ela não pode simplesmente pegar a Warner e colocar a placa “agora é tudo nosso”.
A Justiça precisa resolver a disputa antitruste.
Paramount diz que a fusão está pronta para acontecer
Esse é um dos pontos centrais da nova manifestação.
A Paramount afirma que todas as condições para o fechamento já foram satisfeitas e que recebeu aprovações de autoridades regulatórias de 69 jurisdições.
Segundo a empresa, apenas as duas ações judiciais — a movida pelos estados e a movida pela WGA — continuam impedindo a conclusão da operação.
A companhia também argumenta que concordou em atrasar voluntariamente o fechamento para permitir que o julgamento acontecesse rapidamente, mas não abriu mão do direito de buscar compensação pelos prejuízos financeiros provocados pela suspensão.
Em outras palavras: "Tudo bem, vocês querem parar a fusão? Então, se estiverem errados, paguem a conta."
Estados não querem transformar o caso em precedente
O outro lado teme justamente que a Justiça aceite esse argumento.
Os estados afirmam que as regras antitruste dão aos tribunais ampla discricionariedade para exigir ou dispensar garantias, especialmente quando processos envolvem interesse público.
Eles também sustentam que obrigar os autores de ações antitruste a garantir valores gigantescos poderia criar um incentivo perverso.
Imagine a situação: sempre que o governo ou sindicatos tentassem bloquear uma fusão bilionária, teriam de apresentar uma garantia equivalente às possíveis perdas da empresa.
Para os estados, isso poderia tornar financeiramente inviável fiscalizar grandes operações corporativas.
A briga está ficando cada vez maior
A disputa pelo controle da Warner Bros. Discovery já deixou de ser apenas uma negociação corporativa.
Agora temos:
- uma aquisição estimada em US$ 110 bilhões;
- 12 estados tentando impedir o negócio;
- a WGA com uma ação própria;
- uma suspensão judicial até o avanço do processo;
- uma taxa de US$ 7 milhões por dia a partir de outubro;
- uma possível conta de até US$ 1,88 bilhão;
- e uma audiência em 24 de setembro para discutir justamente quem deve assumir esse risco.
E ainda existe toda a discussão política e trabalhista em torno da operação.
Ou seja: a novela está longe de terminar.
E a Paramount ainda quer fechar o negócio
Apesar de toda essa confusão, a posição da Paramount permanece bastante clara.
A empresa continua defendendo que a fusão deve acontecer e afirma estar preparada para concluir a transação assim que os obstáculos judiciais forem removidos.
A companhia também sustenta que a operação criaria uma empresa capaz de competir em uma escala maior no mercado de entretenimento, enquanto os estados e a WGA argumentam que justamente essa concentração representa uma ameaça à concorrência.
É basicamente o clássico:
Paramount: "Precisamos da Warner para competir."
Estados: "Vocês querem a Warner justamente para ficar grandes demais."
WGA: "E nós estamos preocupados com o impacto disso nos trabalhadores."
Paramount: "Tudo bem. Mas se vocês estiverem errados, quero US$ 1,88 bilhão."
E a juíza terá que decidir se esse último pedido faz sentido juridicamente.
O próximo capítulo será em 24 de setembro
A próxima data importante da novela é 24 de setembro de 2026, quando a Justiça ouvirá os argumentos sobre o pedido de garantia de US$ 1,88 bilhão.
Enquanto isso, a fusão permanece suspensa e a contagem para a possível ticking fee de US$ 7 milhões por dia se aproxima.
Se a Paramount conseguir o que quer, estados e WGA poderão enfrentar uma pressão financeira gigantesca.
Se perder, a empresa continuará arcando com os custos do atraso enquanto tenta convencer a Justiça de que sua aquisição da Warner Bros. Discovery não viola as leis antitruste.
E existe uma ironia maravilhosa nisso tudo: uma das maiores fusões da história de Hollywood está parada porque Hollywood não consegue decidir quem vai pagar a conta enquanto ela está parada.
Cinema, televisão, streaming, política, sindicato e bilhões de dólares.
Só faltou colocar o Succession Theme para tocar.
Fonte: Variety



