Dietland - uma série que pretendia fazer uma reflexão sobre padrões de beleza, mas que derrapa no próprio discurso de ódio

Dietland é uma série que pretendia refletir sobre temas urgentes, mas que se perde no meio da narrativa por causa do discurso de ódio que apresenta



Dietland é uma série de TV baseada num livro de mesmo nome de Sarai Walker, que traz uma crítica ácida, com pitadas de humor negro acerca dos padrões de beleza inatingíveis cultuados pela indústria da moda e publicidade. Que, apesar do forte posicionamento inicial se perde no meio, enfraquecendo a mensagem por causa de escolhas narrativas controversas.


Uma fantasia de vingança equilibrada e uma jornada de autoaceitação, Dietland é uma história cômica sombria que explora uma variedade de questões enfrentada pela mulher de hoje, incluído a cultura de patriarcado, misoginia e estupro, e padrões surreais de beleza. 

Dietland é o típico caso onde a intenção é boa, mas a execução polêmica. Ainda que a mensagem seja necessária e vá de encontro aos anseios da mulher moderna, algumas escolhas narrativas acabam causando sentimento de desconforto em quem assiste, consequentemente você termina a série pensando "tinha mesmo necessidade de tudo isso?". Bem, foi a sensação que eu tive.

Plum, Joy Nahs, que em inglês significa ameixa, alcunha que evidencia o tipo físico da protagonista. São tantas analogias presentes em sua escolha que eu poderia passar horas filosofando sobre, mas vou me atentar a duas. Ameixa como referência ao tipo físico robusto da personagem, que é o ponto de partida do roteiro. Bem como sua versão seca, que é a forma como mulheres solteiras na idade da Plum são vistas pela sociedade patriarcal. Mulheres que não casaram por causa da total falta de capacidade de arrumar um bom partido, já que sua forma física não a torna atraente, a crença de que relacionamento com mulheres inteligentes é mais difícil, ou que a busca pelo padrão de beleza utópico transformou a personalidade. Enfim, são tantas as consequências que daria uma tese.





Plum é uma mulher que escreve para a revista feminina Daisy Chain, respondendo as cartas enviadas pelas leitoras no lugar da editora Kitty Montgomery. Por causa de seu tipo físico tem dificuldades em seus relacionamentos amorosos e uma relação nada saudável com a balança, que a fez experimentar todo tido de dieta da moda sem sucesso.

A vida de Plum seguia sem novidades até que uma organização secreta chamada Jennifer começa a chamar a atenção de todos ao expor os segredos obscuros de homens influentes na sociedade. Curiosa para descobrir as motivações do grupo radical nossa heroína embarca numa jornada de conhecimento e aceitação que apresenta muitos obstáculos e decepções.

Alicia Kettle, nome verdadeiro de Plum, é a típica mulher insatisfeita com suas formas, culta e que tem um emprego superestimado. Ainda que, considerado, glamoroso seu trabalho não paga as contas, nem proporciona a satisfação prometida. Aliás, sua chefe é uma mulher asquerosa que torna sua vida miserável, e seus colegas de trabalho a fazem sentir inadequada. Entretanto, quando conhece as façanhas de Jennifer percebe que não é a única que se sente desta forma, por isso fica intrigada pela motivação e tenta descobrir o que é Jeniffer.





Nem todos os fins justificam os meios


As primeiras ações de Jennifer são interessantes e realmente chamam a atenção para sua causa. Assim como consegue conquistar mais seguidoras, com isso o número de mulheres que compartilham da mesma ideologia, ou só estão lá para postar nas redes sociais, aumenta, e seus feitos ganham o mundo. No entanto, a evolução é extremista e algumas decisões bárbaras. Neste ponto a história começa a rolar ladeira abaixo. Pois, o discurso se converte em ódio, e sabemos bem o fim disso. Será que a Segunda Guerra não foi o suficiente para entendermos o perigo de discursos extremistas? Nem a última eleição?

Acredito que o rumo violento que a história toma sobrepõe o debate importante que a série propõe. Afinal se tornar aquilo que você critica não te faz melhor, pelo contrário. Só fortalece o discurso de ódio que está dividindo a sociedade. Sei que pode ter sido a escolha do roteiro, contudo precisamos ter cuidado com o tipo de mensagem que transmitimos. Uma vez que existem pessoas que acreditam que a violência é o único caminho e que podem fazer o que bem entendem.

Não, a gente não pode fazer o que quiser, visto que algumas decisões ruins interferem negativamente na vida de outras pessoas. Principalmente numa escala global como é apresentada na série.



Conclusão


Os temas que a série traz são atuais, necessários e urgentes. O começo extremamente promissor, com personagens bem desenvolvidos e contexto admirável. Mas do meio para o final as escolhas narrativas cortam nossa conexão com a dor da personagem.

Já estávamos cativados pelas questões de Plum, comprado uma camisa da Jennifer e criando o próximo evento/protesto nas redes sociais. Então nos vemos perdido no labirinto do olho por olho e dente por dente que a série se transforma.

Mesmo que as coisas sejam terríveis a violência nunca é a melhor solução, visto que deixam marcas profundas que somos incapazes de dimensionar o seu potencial destrutivo. Especialmente num mundo onde as notícias correm mais rápido que conseguimos assimilar. É uma pena, muito potencial de reflexão desperdiçado.

 


Ficha técnica


Nome: Dietland
Nome original: Dietland
País: EUA
Data de estreia: 04 de junho de 2018
Gênero: Humor negro
Classificação: 16 anos
Duração: 10 episódios – 1 temporada
Distribuidora: AMC / Amazon Prime
Direção: Cathy Yan
Elenco: Joy Nash, Tamara Tunie, Robin Weigert, Rowena King, Adam Rothenberg, Erin Darke, Ricardo Davila, Tramell Tillman, Will Seefried e Julianna Margulies

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