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Crítica - 4ª temporada de Crazy Ex-Girlfriend e o caminho ao "Eu me amo"

Dizer que a vida de Rebecca Bunch é digna de um filme de comédia romântica é um enorme eufemismo. Mas quando você já foi a ex, a namorada e a louca, o que sobra?




Em 2015, Crazy Ex-Girlfriend estreou timidamente na emissora americana The CW se apresentando como uma comédia romântica musical genérica que ironizaria os principais estereótipos do gênero. 4 temporadas depois, temos praticamente uma nova série que trata sobre doenças mentais e a eterna busca por aquilo que é melhor na vida de uma pessoa e que, por acaso, é uma dramédia romântica musical. E só agora, um ano depois, eu presenciei o fim de uma jornada. 

Entre o amor e a loucura


Dizer que a vida de Rebecca Bunch é digna de um filme de comédia romântica é um enorme eufemismo. Na primeira temporada, ela era a ex que largou seu emprego em Nova York mudou para West Covina, do outro lado do país, porque achava que estar junto a sua paixão de adolescente a faria feliz. 

Na segunda temporada, ela era a namorada que teve um caso e um sonho erótico com seu chefe, conseguiu fazer um casamento em duas semanas, graças a ajuda da ex do seu atual, e que foi largada no altar. Na terceira temporada, ela era a louca que enviou fezes em uma Tupperware para seu ex, chantageou sua melhor amiga, invadiu uma casa como se estivesse em um filme slasher dos anos 80 e quase matou um cara.

Mas quando você já foi a ex, a namorada e a louca, o que sobra? Esse é o tema central da 4ª e última temporada, que continua a saga de "redenção" da protagonista iniciada na segunda metade do ano anterior. Ela só queria seguir em frente, encontrar aquilo que realmente a tornaria feliz, perdoar e ser perdoada por tudo aquilo que fez. Ela só queria ser Rebecca Bunch. Mesmo que, ao fazer isso, ela acabasse afastando os homens que a amaram durante os últimos 4 anos. 


Ela achava que estar apaixonada era desculpa para fugir da responsabilidade.


Agora é hora de enfrentar as consequências.


Narrativamente falando, esta é uma decisão acertada não só para o bem estar da personagem, mas para as pessoas que a rodeavam também melhorarem. Josh se tornou alguém mais maduro e estável para relacionamentos, Paula, além de se tornar a advogada que sempre sonhou, começou a ser uma mãe mais ativa e presente. Nathaniel começou a se importar com os sentimentos das outras pessoas e realmente se tornou uma pessoa melhor. E isso são apenas alguns exemplos.

Outro foco narrativo é a vida amorosa da advogada. A intenção de mostrar a Josh, Nathaniel e Greg que eles poderiam ser felizes sem ela como par romântico, mesmo que ela tenha sido o agente de mudança, foi muito boa. O problema foi a execução pois, conforme nos aproximávamos do series finale, novamente somos jogados ao quadrângulo amoroso que queríamos evitar. Talvez uma temporada de 13 episódios ao invés de 18 teria sido uma escolha mais sábia.
Entre canções e percepções

Apesar disso, eu fiquei bastante satisfeito com o fechamento dado à todos, principalmente o final semi-aberto dado à personagem de Rachel Bloom. Demorou, mas a outrora Crazy Ex-Girlfriend finalmente entendeu que amor romântico não é um ponto final, mas sim uma parte da história, uma parte do ser, um marco de maturidade emocional que só seria alcançado quando a pessoa tem uma noção de quem ela é.

Esse número de sapateado rendeu um Emmy de Artes Criativas para melhor coreografia. Merecidíssimo.

Um grande trunfo do roteiro nessa temporada, mais especialmente no series finale, foi dar a justificativa de que as músicas da série são o meio para a Rebecca processar os eventos mais importantes de sua vida. Foi uma jogada ousada, mas funciona neste caso porque consegue, até certo ponto, ser tolerável dentro do universo da série e manter a liberdade de expressão que os musicais pedem.

Creio que, em termos de música, este seja o ano mais fraco da série. Longe de que as músicas e performances desta temporada sejam ruins, pelo contrário, Slow Motion, Eleven O'Clock, I'm Not Sad, You're Sad e The Darkness são ótimas canções que contribuem para a atmosfera cômica/dramática que o episódio pediu, mas, para uma canção marcante, existem umas 3 que são medianas ou esquecíveis, algo que, a meu ver, não se repete com tanta frequência em outras temporadas.

Por fim, a canção final


Pois é, isso aconteceu ao vivo. E os pais da Rachel Bloom estavam na 4ª fileira da frente.


Encerrar em definitivo a exibição da série com um concerto ao vivo logo após o series finale foi uma ótima jogada. Mesmo com a emissora os forçando a fazer uma performance que desse para ser editada para 42 minutos, creio que a produção conseguiu, dentre as 157 músicas, escolher aquelas que dariam momentos de destaque para o elenco principal e alguns dos personagens secundários presentes, reforçariam a temática central da série e agradariam à maioria dos fãs do show. E eu sempre vou me impressionar com o número de sapateado de Antidepressants Are So Not A Big Deal

Crazy Ex Girlfriend, ao conseguir escapar da maldição da CW de renovar suas séries sem necessidade, se tornou uma das séries mais consistentes do canal ao gradualmente subverter seu plot principal para um jornada sobre doenças mentais, mudanças, autoconhecimento, amor a si próprio e terapias sem ignorar a rede de mentiras, traições, términos, chantagens, terapias, pessoas sendo largadas no altar e tentativas de assassinato.

Eu só tenho a agradecer.

Escreve para o GeekBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.


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