Livros

Review: O Cidadão Incomum Vol. 1: e se ganhar superpoder fosse o começo do seu maior problema?

Review de O Cidadão Incomum, de Pedro Ivo: um super-herói brasileiro diferente, humano e cheio de dilemas sobre poder, culpa e responsabilidade.


Super-heróis costumam descobrir seus poderes, vestir uma roupa maneira, escolher um codinome e partir para salvar o mundo.

Caliel não.

Em O Cidadão Incomum – Volume 1, de Pedro Ivo, ganhar poderes parece muito mais com acordar completamente perdido, tentar descobrir se aquilo é um sonho, quase destruir a própria vida e, de quebra, descobrir que suas novas habilidades podem machucar pessoas.


E é justamente aí que o livro encontra sua melhor ideia.

Publicado originalmente em 2018 pela Conrad, o romance acompanha Caliel, um jovem de 25 anos que vive em São Paulo, trabalha como garçom e tenta construir uma carreira como ator. A vida dele está longe de ser extraordinária. Até que, depois de uma experiência estranha durante o sono, ele descobre que consegue voar.

E não para por aí.

Um super-herói que não queria ser super-herói


O grande diferencial de O Cidadão Incomum é que Pedro Ivo não começa contando a história de alguém que deseja ser um herói.


Caliel é praticamente o oposto disso.

Ele tem inseguranças, problemas profissionais, conflitos familiares, dificuldades emocionais e uma relação bastante humana com a própria vida. Seu interesse por quadrinhos existe desde antes dos poderes, mas a realidade sempre esteve muito mais presente do que qualquer fantasia heroica.

Quando começa a voar, portanto, a primeira reação não é exatamente:

“Finalmente! Sou um super-herói!”

É mais:

“Que porra está acontecendo comigo?”

E essa abordagem funciona muito bem.

O livro trata os poderes como algo que precisa ser compreendido. Caliel testa seus limites, tenta entender o funcionamento das habilidades e começa a perceber que existe muito mais acontecendo com seu corpo e sua mente do que simplesmente a capacidade de sair voando por aí.

Além do voo, ele descobre habilidades relacionadas à luz, percepção, manipulação de objetos e uma espécie de controle energético. Mais tarde, Klaus explica que a mente de Caliel é fundamental para moldar essas energias.

Ou seja: aqui não existe aquele manual de instruções entregue junto com a capa.

Caliel aprende na marra.

São Paulo vira parte do personagem


Um dos aspectos mais legais do livro é a utilização de São Paulo como cenário.

E não estamos falando de uma cidade genérica que poderia ser substituída por Nova York sem ninguém perceber.

A história passa por lugares reconhecíveis, pelo metrô, pela Avenida Paulista, pelo Minhocão e pela região de Congonhas. Quando Caliel começa a voar, a cidade ganha uma perspectiva completamente diferente.

Do alto, São Paulo deixa de ser apenas o lugar onde ele mora e passa a funcionar quase como um novo território a ser descoberto.

O próprio protagonista descreve a Avenida Paulista vista de cima como uma espécie de circuito luminoso, enquanto a cidade abaixo parece organizada de uma maneira que não é percebida quando estamos presos ao chão.

Essa escolha dá ao livro uma identidade muito própria.

Porque é uma coisa imaginar o Superman voando sobre Metrópolis.

Outra é imaginar um sujeito de pijama voando sobre São Paulo e tentando descobrir como diabos pousar sem virar notícia no Datena.

O poder vem acompanhado da culpa


E aqui está o ponto em que O Cidadão Incomum deixa de ser apenas uma história divertida sobre superpoderes.

Caliel comete um erro.

Um erro gigantesco.

Durante um voo, perde o controle, atinge fios de alta tensão e acaba caindo violentamente entre dois carros. O acidente deixa mortos e feridos.

O mais interessante é que o livro não trata isso como uma simples cena de ação.

A consequência psicológica pesa.

Caliel descobre pelo noticiário que uma pessoa morreu e duas adolescentes ficaram gravemente feridas. A partir daquele momento, o poder deixa de ser apenas uma possibilidade maravilhosa e passa a carregar uma pergunta incômoda:

o que acontece quando você tem poder, mas ainda não sabe como controlá-lo?



É aí que o título ganha força.

O cidadão é incomum, mas continua sendo cidadão.

Ele continua tendo medo.

Continua cometendo erros.

Continua tentando entender a própria existência.

E, principalmente, continua tendo que lidar com as consequências das próprias escolhas.

A história não tem pressa para transformar Caliel em herói


Outro acerto do livro é não transformar imediatamente o protagonista em uma máquina de combate.

Ele experimenta.

Erra.

Faz besteira.

Tem momentos de empolgação.

Tenta usar os poderes para coisas banais.

E, eventualmente, começa a entender que existe algo muito maior por trás daquilo.

Em determinado momento, Caliel chega a um sítio no sul de Minas para poder testar suas habilidades longe da cidade. Ali, ele começa a explorar melhor seus poderes e até descobre novas possibilidades relacionadas à luz.
Esse processo de descoberta é uma das partes mais divertidas da leitura.

Porque existe uma fantasia muito específica em O Cidadão Incomum:

“E se eu tivesse poderes?”

Mas o livro também apresenta a pergunta seguinte:

“E se eu tivesse poderes e precisasse descobrir sozinho como eles funcionam?”

Essa segunda pergunta é bem mais interessante.

Klaus e a expansão desse universo


Quando Klaus aparece, a história ganha outra camada.

Ele não é simplesmente alguém que possui poderes semelhantes aos de Caliel. É uma espécie de janela para um universo muito maior que o protagonista ainda não entende.

Klaus consegue manipular diferentes capacidades e demonstra conhecer aspectos dos poderes de Caliel que o próprio protagonista desconhece. Ele também deixa claro que existem limites e consequências para o uso dessas habilidades.

Mais importante: Klaus não entrega todas as respostas.

E isso é proposital.

Ele fala sobre um evento que está por vir, sugere que Caliel ainda não viu coisas realmente incríveis e insiste para que ele se livre da culpa.

O livro, então, deixa de ser somente uma história de origem.

Ele começa a preparar terreno para algo maior.

O lado humano continua sendo o mais importante


Apesar dos poderes, talvez as partes mais interessantes sejam justamente aquelas em que Caliel não está voando.

Seu relacionamento com a família, a tentativa de construir uma carreira artística, a amizade com Eder e o relacionamento complicado com Lúcia ajudam a manter a história conectada ao mundo real.

Lúcia, por exemplo, não funciona apenas como interesse amoroso. A relação dos dois carrega ressentimentos, arrependimentos e questões mal resolvidas. Quando eles voltam a conversar, ambos percebem que passaram por transformações pessoais importantes.

Isso ajuda a evitar um problema comum em histórias de super-heróis:

o personagem ganhar poderes e, automaticamente, virar apenas “o cara dos poderes”.

Caliel continua sendo Caliel.

O poder muda a vida dele, mas não apaga quem ele era.

O humor ajuda a história a respirar


Outro ponto positivo é o humor.

Pedro Ivo não transforma tudo em drama existencial.

Caliel faz besteira.

E sabe que fez besteira.

Em alguns momentos, ele mesmo reconhece o absurdo de determinadas situações, como quando tenta aprender a voar e acaba se metendo em acidentes que qualquer manual básico de “Como não morrer sendo um super-herói” colocaria na primeira página.

Esse humor combina com a personalidade do protagonista e impede que a narrativa fique excessivamente pesada.

O que poderia ser melhor?


Nem tudo funciona perfeitamente.

O livro apresenta muitas ideias: poderes, espiritualidade, culpa, família, relacionamentos, teatro, ciência, conspirações e outros personagens extraordinários.

Isso é interessante, mas também faz com que alguns elementos pareçam mais promessas do que histórias completamente desenvolvidas dentro deste primeiro volume.

E isso é compreensível.

O Cidadão Incomum – Volume 1 claramente funciona como porta de entrada para um universo maior.

O problema é que, em alguns momentos, a sensação de “preciso descobrir o que vem depois” é mais forte do que a de conclusão de determinados arcos.

Mas talvez essa seja justamente a intenção.

O livro quer que você continue.

E consegue.

Vale a pena ler O Cidadão Incomum?


Sim. Principalmente se você gosta de histórias de super-heróis que tentam fugir do modelo tradicional.

O grande mérito de O Cidadão Incomum não está simplesmente em colocar um personagem brasileiro voando sobre São Paulo.

Está em perguntar o que aconteceria com uma pessoa comum se ela recebesse um poder extraordinário antes de estar emocionalmente preparada para lidar com ele.

Caliel não é um escolhido perfeito.

Não é um soldado treinado.

Não é um bilionário com equipamentos.

Não é um alienígena criado para ser herói.

É um cara que está tentando descobrir o que fazer da própria vida.

E, de repente, descobre que consegue voar.

Só que voar é a parte fácil.

O difícil é decidir para onde ir.

E talvez seja justamente essa a melhor metáfora de O Cidadão Incomum.

Veredito


O Cidadão Incomum – Volume 1 é uma boa aposta para quem procura literatura nacional de super-heróis com uma pegada mais humana, urbana e existencial.

A obra mistura aventura, ficção científica, fantasia, drama e humor sem abandonar o cotidiano do protagonista.

E quando a história começa a revelar que existe algo muito maior por trás dos poderes de Caliel, o livro termina deixando aquela velha sensação:

“Tá... agora eu preciso saber o que acontece depois.”

Nota: 8/10 ⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐⭐

Recomendado para: fãs de super-heróis, ficção científica, histórias de origem, quadrinhos e leitores que gostam de imaginar como seria ter poderes no mundo real.

Não recomendado para: quem procura uma aventura de super-herói tradicional, cheia de batalhas e vilões caricatos desde a primeira página.

Aqui, antes de salvar o mundo, o cidadão precisa descobrir como não destruir a própria vida.

Poeta, Bacharel em Radio, TV E Vídeo, Estrela, Editor e Co-criador do Papo Blast, Especialista em piada ruim, Viciado em séries e filmes, está mais perdido que Lost e acredita que Sharknado é um clássico subestimado mas vocês não estão prontos para essa conversa.


Disqus
Facebook
Google