Cinema

Crítica: Só por uma noite, filme deveria ser reclassificado como fantasia distópica

Só por uma noite transforma uma comédia romântica em uma distopia sobre controle, liberdade sexual e os direitos conquistados pelas mulheres.


Passei dias refletindo como começaria esse texto, só que quanto mais pensava, mas percebi o quanto o filme Só por uma noite é contraditório. Se ele tivesse sido vendido como uma fantasia distópica, faria mais sentido do que imaginá-lo como uma comédia romântica, que, tendo como público-alvo especialmente mulheres, fere todos os direitos conquistados por elas durante anos de luta. O que faz dele mais um lembrete de que precisamos seguir lutando para não correr o risco de ter nossas conquistas arrancadas, do que sair leve da sala de cinema, que é o que nos leva à assistir esse tipo de filme.

Sinopse:

E se uma noite totalmente caótica se tornar a melhor coisa que já aconteceu com você?

Dois desconhecidos carentes de amor que se esbarram em uma versão de Nova York com leves toques de ficção científica na única noite do ano em solteiros têm permissão para fazer sexo.

Owen, que acabou de ser abandonado em seu relacionamento, e a romântica e esperançosa Allie podem ser os únicos solteiros na cidade em busca de algo além de um encontro casual. Ambos sentem uma conexão especial quando se conhecem, mas uma série de desencontros e situações paralelas complicam a noite, mantendo-os separados. Enquanto cada um corre pela cidade, aproximando-se e se afastando um do outro, eles podem acabar descobrindo que aquilo que mais desejam está mais perto do que imaginam.


Só por uma noite é uma narrativa construída a partir de um decreto que proibe o sexo antes do casamento, não sei quantas casas na evolução da sociedade voltamos com tamanho disparate, pois, independente da pessoa estar, ou não, em um relacionamento ela só pode fazer sexo uma vez no ano. Como sempre, o resgate da moral e dos bons costumes serve de justificativa para tal abuso de poder, como se o que cada pessoa faz, ou deixa de fazer, com a própria vida, especialmente em sua intimidade, fosse uma questão pública a ser resolvida. Isso, claro se não estivermos falando de um crime.

Seria o fim do meu corpo minhas regras?


Entretanto, sabemos que o problema reside no fato de que a independência conquistada pelas mulheres ao longo dos anos faz com que elas não aceitem se relacionar com qualquer pessoa, já que agora elas tem opções. Como é mais fácil proibir do que melhorar, vemos diariamente o discurso de ódio contra a liberdade conquistada pelas mulheres só aumentar.



Só por uma noite está mais para o Conto da Aia do que aos romances de Jane Austen. As mulheres do filme usam roupas decotadas e brilhantes, como se fossem ovos de páscoa exibidos para serem caçados. Apesar de eu acreditar que cada pessoa pode se vestir como quiser, ao ver um filme onde todas as mulheres usam o mesmo código de vestimenta, mesmo com suas personalidades diversas, fica impossível não enxergar um padrão.

Além disso, o personagem Owen, Callum Turner, diz diversas vezes para Allie, Monica Barbaro, “para manter as pernas fechadas”. Desde quando ele foi promovido a fiscal da sexualidade alheia? Foram tantas situações absurdas que fica difícil acreditar que os dois se apaixonarão no final.

O filme Só por uma noite, que estreia dia 20 de agosto nos cinemas, deveria voltar para a mesa de edição e ser reclassificado, pois, da forma como ele chegou às telas, está mais para filme de terror, do que para comédia romântica.


Ficha Técnica

Título: Só por uma noite
Título original: One Night Only
País: EUA
Data de estreia: 20 de agosto de 2026
Gênero: Comédia Romântica
Duração: 102 minutos
Classificação: 16 anos
Distribuidora: Universal Pictures
Direção: Will Gluck
Elenco: Monica Barbaro, Callum Turner, Maya Hawke, Julia Fox, King Princess, Ziwe, Ben Marshall, com Molly Ringwald e LeVar Burton.

Kika Ernane, Karina no RG, e sou multitasking (agora que aprendi o significado do termo segura). Uma mulher como muitas da minha geração, que ainda não descobriram como aproveitar a liberdade que lutaram tanto para conseguir. Muito menos administrar todas as tecnologias disponíveis. Enfim, estou sempre aprendendo.


Disqus
Facebook
Google