Se o primeiro volume de O Cidadão Incomum (Confira nossa crítica aqui) era a história de um sujeito comum tentando entender por que diabos começou a voar, O Cidadão Incomum 2: Surreal olha para tudo isso e responde:
“Achou estranho? Segura essa.”
A continuação escrita por Pedro Ivo expande consideravelmente o universo de Caliel. O protagonista está mais experiente, seus poderes estão mais desenvolvidos e sua relação com Eder amadureceu. Só que, em vez de encontrar respostas simples para a origem de suas habilidades, ele começa a descobrir que a realidade pode ser muito mais complicada do que imaginava.
O próprio autor define esta segunda história como uma jornada sobre mudanças, amadurecimento e a necessidade de rever quem somos diante de situações que não conseguimos controlar.
E isso resume muito bem o livro.
Porque Surreal é exatamente isso: uma história sobre um cara tentando descobrir quem é enquanto o próprio conceito de realidade começa a desmanchar ao redor dele.
Caliel não é mais o mesmo
Uma das melhores coisas do segundo volume é perceber que Caliel realmente mudou.
No primeiro livro, ele ainda estava encantado com a possibilidade de ser um super-herói. Existia aquela fantasia de vestir uma roupa legal, usar os poderes para proteger pessoas e mudar o mundo.
Agora ele sabe que a coisa não funciona assim.
Depois de tudo que aconteceu, Caliel entende que poder não significa automaticamente capacidade de resolver problemas.
E isso deixa o personagem muito mais interessante.
Ele continua fazendo merda — porque, convenhamos, se Caliel parasse de fazer merda perderíamos metade da diversão — mas agora existe experiência por trás das decisões.
Ele aprende a controlar melhor suas habilidades, cria rotas de voo mais seguras, acompanha radares militares e até desenvolve um novo traje com ajuda de Eder.
Ou seja: o Cidadão Incomum agora tem praticamente um departamento de engenharia improvisado no apartamento.
Eder que lute.
O livro finalmente mergulha na origem dos poderes
Aqui está uma das principais evoluções da sequência.
O primeiro volume apresentava o mistério: “Por que Caliel tem poderes?”
O segundo começa a escancarar que essa pergunta é muito maior do que parecia.
A investigação leva Caliel a conhecer outras pessoas com habilidades extraordinárias e a descobrir que existe uma história por trás desses indivíduos.
Klaus, por exemplo, revela que foi sequestrado e submetido a experiências para estudar sua biologia. Seus sequestradores também procuravam outras pessoas como eles, chamadas de “achados”.
Isso muda completamente a escala da narrativa.
Caliel deixa de ser uma anomalia isolada.
Ele faz parte de alguma coisa.
E ninguém parece saber exatamente o tamanho dessa coisa.
E aí entra o multiverso
Se você leu o primeiro livro pensando que o universo de O Cidadão Incomum seguiria uma linha mais convencional de ficção científica, esquece.
Surreal começa a brincar abertamente com a possibilidade de realidades paralelas.
Em determinado momento, Eder levanta justamente a hipótese de que os ataques sofridos por Caliel possam estar relacionados a outros universos ou realidades.
E isso não fica apenas na teoria.
Caliel começa a enfrentar uma versão alternativa de si mesmo. Sim. Um Cidadão Incomum contra outro Cidadão Incomum. E o sujeito não é exatamente conhecido por sua estabilidade emocional.
Essa escolha é muito boa porque transforma o conflito em algo mais pessoal. Não é simplesmente: herói contra vilão.
É: Caliel contra aquilo que ele poderia ter se tornado.
Tito é uma ameaça completamente diferente
E então temos Tito.
O personagem funciona como um contraponto muito interessante para Caliel.
Enquanto Caliel passou por um processo de amadurecimento tentando entender como usar seus poderes sem destruir tudo ao redor, Tito parece carregar uma relação completamente diferente com suas habilidades e com a própria existência.
Ele é capaz de manipular a percepção das pessoas em uma escala assustadora.
Em uma das sequências mais perturbadoras do livro, Caliel fica preso em uma realidade criada pela mente de Tito, vendo pessoas mortas, corpos se desfazendo e situações que parecem completamente reais.
O mais interessante é que o confronto não acontece apenas no campo físico. Caliel precisa lutar contra a própria mente. E isso combina perfeitamente com a proposta do livro.
O confronto com Tito é um dos melhores momentos do livro
A sequência na estação de metrô é provavelmente uma das partes mais fortes de Surreal.
Tito paralisa centenas de pessoas e transforma o ambiente em um pesadelo. Caliel tenta conversar com ele antes de partir para a violência.
E isso é importante.
Porque Caliel percebe que Tito não é simplesmente um monstro.
Existe sofrimento ali.
Tito fala sobre não se reconhecer, sentir que não pertence ao próprio corpo e procurar abrigo apenas para encontrar violência.
O conflito deixa de ser: “Como derrotar esse cara?”
E passa a ser: “Existe alguma maneira de impedir alguém destruído de destruir outras pessoas?”
Essa é uma pergunta bem mais interessante.
O livro fica muito mais sombrio
Se o primeiro volume tinha bastante espaço para descoberta e humor, Surreal começa a brincar com temas consideravelmente mais pesados.
Violência.
Manipulação.
Sequestro.
Experimentos.
Morte.
Trauma.
Controle mental.
E principalmente a ideia de que pessoas com poderes podem ser tão perigosas quanto aquelas que tentam combatê-las.
O livro não trata poderes como presentes.
Eles podem ser ferramentas.
Podem ser armas.
E podem ser maldições.
Regina Albuquerque é outro grande acerto
A entrada de Regina Albuquerque muda completamente a relação de Caliel com o mundo institucional.
Ela representa um tipo de ameaça diferente. Não é alguém que precisa necessariamente enfrentar Caliel fisicamente.
Ela tem dinheiro.
Influência.
Informação.
Poder político.
E sabe manipular pessoas.
Durante uma conversa, Regina oferece a Caliel uma proposta tentadora: proteção, dinheiro, uma nova identidade e melhores condições para sua família.
O preço?
O Cidadão Incomum precisa morrer.
Caliel aceita.
E a frase funciona quase como uma declaração de guerra contra a própria identidade do personagem.
É um dos momentos mais interessantes do livro porque coloca Caliel diante de uma escolha que nenhum soco ou raio de energia pode resolver.
O problema é que Regina não está jogando limpo
A relação entre Caliel e Regina vai ficando cada vez mais perigosa.
Ela sabe mais sobre pessoas com poderes do que deixa transparecer e utiliza informações como moeda de troca.
Em determinado momento, Caliel descobre que uma jovem chamada Joaquina morreu tentando imitar o Cidadão Incomum.
Ela era fã dele. Acreditava que poderia aprender a voar. E morreu por causa disso.
É uma das melhores ideias temáticas da obra.
Porque coloca uma responsabilidade gigantesca sobre os ombros de Caliel:
o que significa ser um símbolo quando outras pessoas começam a imitar você?
Ser herói deixa de ser uma questão individual.
Suas ações têm consequências sobre pessoas que você nem conhece.
A relação entre Caliel e Eder continua sendo o coração da história
Se existe uma coisa que continua funcionando muito bem, é a amizade entre os dois.
Eder não possui superpoderes, e justamente por isso ele é tão importante.
Ele é o cara que olha para Caliel e fala: “Mano, você está ficando maluco. Respira.”
Enquanto Caliel está literalmente enfrentando realidades alternativas e pessoas capazes de destruir sua mente, Eder funciona como uma âncora.
Isso fica explícito durante o confronto contra Tito.
Quando Caliel começa a acreditar nas ilusões, é a voz de Eder que o ajuda a perceber que aquilo não é real.
E isso é muito mais importante do que parece.
O livro entende que, em uma história cheia de poderes absurdos, uma amizade verdadeira pode ser o superpoder mais importante.
São Paulo continua sendo um personagem
Outro elemento que permanece muito divertido é a relação da história com São Paulo. A cidade continua servindo de palco para as aventuras do Cidadão Incomum.
E quando Caliel decide atrair Tito, ele escolhe justamente a antena da Avenida Paulista como palco para um verdadeiro espetáculo.
Ele flutua sobre a avenida, produz luzes e cria uma espécie de show aéreo enquanto a multidão para para assistir.
É difícil imaginar cenário mais brasileiro para um super-herói.
Nova York tem Times Square.
Metrópolis tem o Daily Planet.
Caliel tem a Paulista lotada de gente filmando com o celular.
Finalmente uma superpotência nacional.
O humor continua funcionando
Apesar de toda a escuridão, Pedro Ivo não abandona o humor.
E isso é essencial.
O protagonista continua tendo momentos completamente absurdos.
Inclusive, depois de quase ser morto e precisar se esconder, ele desenvolve uma maneira muito mais prática de lidar com quem vigia sua casa.
Quando um carro suspeito passa a ficar estacionado frequentemente diante do prédio, Caliel simplesmente manda entregar uma pizza de calabresa com um bilhete ameaçador.
É aquele tipo de humor que combina perfeitamente com o personagem.
Porque ele não é um Batman.
É um cara brasileiro tentando administrar uma vida completamente absurda.
O maior mérito de Surreal
O primeiro volume tinha uma pergunta muito simples: “O que você faria se pudesse voar?”
O segundo faz uma pergunta muito mais complicada: “Quem você seria se descobrisse que a realidade em que vive não é exatamente aquilo que imaginava?”
Essa mudança de escala é o grande mérito da sequência.
A história não tenta simplesmente repetir a fórmula do primeiro livro.
Ela expande.
Cria novos personagens.
Apresenta novas ameaças.
Aumenta os riscos.
E, principalmente, coloca Caliel diante de dilemas cada vez mais pessoais.
O próprio Pedro Ivo resume a saga como uma história sobre mudança e sobre a dificuldade de descobrir quem somos quando a vida nos obriga a mudar.
E isso aparece o tempo inteiro na narrativa.
O que poderia ser melhor?
A expansão do universo também é o principal ponto que pode dividir opiniões.
Surreal joga muita coisa na mesa.
Realidades paralelas.
Novos personagens.
Novos poderes.
Organizações.
Conspirações.
Política.
Experimentos.
Traumas.
E questões existenciais.
Para quem gosta de universos grandes, é prato cheio.
Para quem preferia a abordagem mais simples e urbana do primeiro volume, pode parecer que a história ficou grande demais.
Além disso, algumas revelações parecem claramente preparadas para histórias futuras.
E isso pode gerar aquela sensação deliciosa e irritante de:
“Tá, Pedro Ivo... agora você me deve umas respostas.”
E o final?
Sem entregar tudo, porque aqui spoiler estraga uma parte importante da experiência:
o final fecha algumas portas e abre umas quinze janelas.
A história de Regina ganha uma consequência importante, mas a ameaça maior continua existindo.
Caliel também não termina exatamente no mesmo lugar emocional em que começou.
Depois dos acontecimentos, sua guerra contra a organização responsável por boa parte dos problemas está apenas começando.
E essa é uma das coisas mais interessantes de Surreal.
O livro não quer apenas terminar uma aventura.
Ele quer deixar claro que o universo do Cidadão Incomum ficou muito maior.
Vale a pena ler O Cidadão Incomum 2: Surreal?
Mais do que o primeiro.
Se o Volume 1 funcionava como uma boa história de origem, Surreal é quando a franquia realmente encontra sua identidade.
Pedro Ivo pega o conceito inicial de um brasileiro com superpoderes e começa a construir algo muito mais ambicioso.
Tem ficção científica.
Tem super-herói.
Tem drama.
Tem humor.
Tem terror psicológico.
Tem multiverso.
Tem crítica social.
E, no meio disso tudo, ainda existe um sujeito tentando descobrir quem diabos ele é.
O resultado é uma continuação mais madura, mais estranha e consideravelmente mais ambiciosa.
O Cidadão Incomum deixou de ser apenas uma história sobre alguém que consegue voar.
Agora é uma história sobre identidade, responsabilidade e o preço de descobrir que você não é tão incomum quanto imaginava.
⭐ Veredito: 9/10
Vale a pena? Sim.
Precisa ler o Volume 1 antes? Recomendo fortemente, embora o próprio autor diga que Surreal pode ser compreendido sem conhecer todas as histórias anteriores.
É melhor que o primeiro? Na minha opinião, sim.
É mais estranho? Muito.
O título “Surreal” faz sentido? Meu amigo... faz pra caralho.
E quando você termina, fica aquela sensação perigosa que todo bom segundo volume deveria provocar:
“Agora eu quero saber até onde essa maluquice vai.”




