Crítica: "Cloak & Dagger" - 2ª Temporada

Em tempos de #MeToo e #BlackLivesMatter, série da Marvel se destaca como a mais significativa no nicho de super-heróis

Apesar de uma primeira temporada regular, Cloak & Dagger, série da Marvel em parceria com a Freeform, passou quase batido por crítica e público ao mostrar a origem da dupla de heróis, coadjuvantes do Universo Marvel desde que estrearam em 1982. Agora, sem a necessidade de apresentar os personagens para o público, a série aproveitou a temática de super-heróis para abordar (magistralmente) temas extremamente relevantes na sociedade atual.


Consequência dos acontecimentos do finale da primeira temporada, o segundo ano começa com Tyrone (Aubrey Joseph) foragido, acusado de um crime que não cometeu, enquanto Tandy (Olivia Holt) tenta reconstruir sua vida ao lado da mãe (Andrea Roth), depois de descobrir as seguidas agressões cometidas por seu pai.

Com a ajuda de Brigid O'Reilly (Emma Lahana), a dupla começa a investigar o envolvimento de traficantes de drogas com o constante desaparecimento de jovens garotas, várias delas ligadas ao grupo de apoio de Tandy e sua mãe. Deste ponto em diante, Cloak & Dagger mostra, de verdade, seu potencial não só como série, mas como retrato da realidade.

Tyrone (Aubrey Joseph) começa a temporada procurado por um crime que não cometeu

O trabalho constante da polícia para acobertar agentes que abusam de sua autoridade ou cometem crimes, como o caso do Detetive Connors (JD Evermore), é ainda mais escancarado que no ano anterior. O desaparecimento do vilão, dado como morto, vira a desculpa perfeita para que a polícia de Nova Orleans acuse Ty, mesmo sem provas, obrigando o garoto a se afastar de seus pais e da namorada, Evita (Noëlle Renée Bercy).

Ao mesmo tempo, o novo vilão da série é apresentado em D'Spayre (Brooklyn McLinn), um inumano capaz de manipular a esperança e as memórias das pessoas que toca, deixando-as inertes às suas vontades, ao mesmo tempo em que alivia suas enxaquecas. A presença do personagem não assusta apenas por conta de seu lugar na narrativa, mas pelo quanto o vilão é realista: as vítimas escolhidas por D'Spayre se veem isoladas, impotentes, presas e acusadas por aqueles que deveriam protegê-las.

Nesse arco brilham não só o roteiro, mas também as atuações. Olivia Holt se entrega à sua personagem de maneira emocionante e poucos momentos na televisão são tão carregados quanto a cena em que Tandy se livra da influência de D'Spayre.

Ponto alto da temporada, cena em que Tandy (Olivia Holt) se liberta de D'Spayre é emocionante

Cloak & Dagger não poupa no discurso e, justamente por isso, transmite sentimentos que outras séries de super-heróis (com exceção, talvez, de Jessica Jones) se mostraram, por enquanto, incapazes ou, pelo menos, ineficazes ao transmitir sua mensagem. O medo nos olhos das garotas traficadas faz de D'Spayre um vilão mais ameaçador que Thanos. A série berra o sentimento espalhado no último ano com o crescimento e legitimação do movimento #MeToo e abraça a causa como poucos programas na televisão atualmente.

Ao mesmo tempo, o seriado é uma celebração à representatividade, explorando os significados por traz da simbologia voodoo, citando a influência que Luke Cage (Mike Colter) tem nas ações de Ty e exaltando a cultura africana enraizada em Nova Orleans. Diferente de outras produções da Marvel fora da Netflix, Cloak & Dagger não foge do discurso de inclusão e aceitação ao mesmo tempo em que bate forte em instituições e personagens que, claramente, tentam manter o status quo.

Realismo de D'Spayre (Brooklyn McLinn) faz do vilão uma ameaça maior que Thanos

Além da maneira como adapta os problemas reais para o mundo fantasioso, os personagens de Cloak & Dagger inegavelmente também estão em outro nível em relação a séries como Fugitivos e Agents of SHIELD. A química entre Holt e Joseph é palpável e Lahana alterna entre Brigid e Mayhem com a mesma naturalidade que McLinn declara a divindade de seu personagem. Mesmo personagens extremamente secundários, como Adina (Gloria Reuben) e Lia (Dilshad Vadsaria) brilham em seus minutos em cena.

O nível de produção da série também é impar: misturando efeitos práticos e computação gráfica, as cenas de ação são emocionalmente cativantes, além de extremamente bem coreografadas. Já o cenário proporcionado por Nova Orleans dá uma atmosfera ao mesmo tempo histórica e moderna ao seriado, fazendo com que a mitologia da cidade se misture à dos heróis.

Química entre Aubrey Joseph e Olivia Holt na série é palpável

Mesmo em episódios menos focados na ação, Cloak & Dagger consegue manter o espectador ligado por conta de seu roteiro inteligente e suas atuações espetaculares. A série não poupa no tiro, porrada e bomba, mas também abre um bom espaço para diálogo e reflexão. Relevante e surpreendente, esta segunda temporada é um daqueles raros acontecimentos televisivos praticamente sem defeitos.

Parceria da Marvel com a Freeform, a segunda temporada de Cloak & Dagger estreia no Brasil em 18 de junho, no Canal Sony. A primeira temporada, com 10 episódios, já está disponível na Netflix.

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